Violência no Rio

Ex-primeira-dama do tráfico deixou Rocinha após Rogério 157 mudar de facção, diz polícia

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

Após 11 anos na Rocinha, Danúbia de Souza Rangel, 33, mulher do traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, ex-chefe do tráfico na favela da zona sul do Rio de Janeiro, deixou a comunidade, palco de confrontos entre criminosos que disputam o comando do crime na região.

Segundo a polícia do Rio, a ex-primeira dama do tráfico abandonou a Rocinha após o traficante Rogério 157, atual chefe do tráfico na comunidade, migrar da facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos) para o CV (Comando Vermelho), o maior grupo criminoso do Estado. Após o racha entre 157 e Nem em razão de desentendimentos relacionados ao comando da favela, o que desencadeou a recente crise de segurança, a favela se tornou um lugar perigoso para Danúbia, que segue foragida da Justiça.

Condenada a 28 anos de prisão, a "xerifa" da Rocinha, como é conhecida, foi expulsa da favela no mês passado por Rogério 157, ex-guarda-costas de Nem que assumiu o tráfico local após a prisão dele em 2011. Atualmente, Nem se encontra detido em um presídio de segurança máxima em Porto Velho (RO).

Apesar da informação de que ela teria sido expulsa da Rocinha, Danúbia permanecia na comunidade, segundo a polícia, que,  menos de duas semanas, fazia buscas por Danúbia na favela. No entanto, com a aliança de 157 com o CV, a mulher de Nem teria sido obrigada a deixar a comunidade definitivamente.

De acordo com investigações, a ordem de expulsão de Danúbia foi o estopim para desencadear a guerra entre os traficantes rivais. No dia 17 de setembro, a Rocinha foi invadida por homens do grupo de Nem, ligados à ADA, que tentaram retomar o controle das bocas de fumo. Rogério 157 buscou apoio no CV para se manter no poder.

Na última segunda-feira (2), a Polícia Militar encontrou pichações em muros da favela que indicavam a mudança de facção. Foram encontrados dizeres: "CV 157".

Foragida e com perfis ativos em redes sociais

Apesar de foragida da Justiça, Danúbia responderia por perfis ativos nas redes sociais. Somente na última terça-feira (3), a loira teria supostamente atualizado duas vezes perfil no Facebook com as frases: "Amigo disfarçado, inimigo dobrado" e "Nunca saberemos o quão forte somos até que ser forte seja a única escolha".

Na semana passada, em uma foto de biquíni, ela teria postado: "Quem nasceu pra ser rainha nunca perde a majestade!"

Com mais de 30 perfis em redes sociais em seu nome (alguns deles claramente falsos), a ex-primeira dama do tráfico reúne admiradores. Apenas no Instagram, a loira conta com cerca de 20 mil seguidores.

Com os cabelos platinados e silicone nos seios, Danúbia surge em fotos de biquíni, em festas e demonstra gostar de praia e academia. Nas postagens, inúmeras fotos da filha Beatriz, que morreu em 2014 vítima de pneumonia.

Nascida no Complexo da Maré, conjunto de favelas da zona norte carioca, a loira tem outros dois chefões do tráfico no currículo amoroso: Luiz Fernando da Silva, o Mandioca (pai de Beatriz) e o substituto dele, Marcélio de Souza Andrade. Ambos morreram em confrontos com a polícia, o que lhe rendeu o apelido de Viúva Negra.

Nem e Danúbia

Foi em 2006 que Danúbia conheceu Nem em uma festa e se mudou para a Rocinha. Como o traficante já era casado, os dois oficializaram a união em uma festa junina. Tempo depois, nasceu Yasmin, filha do casal.

Desde que conheceu o ex-chefe do tráfico da Rocinha, ela mergulhou num mundo de luxo. Nem a presenteava com passeios de lancha, helicóptero e joias, entre elas, um pingente com a letra "n" em referência a ele próprio.

Em 2008, o traficante chegou a organizar para a mulher um show do rapper americano Ja Rule na favela.

No entanto, nem tudo eram flores na relação: escutas telefônicas revelaram que Nem agredia a mulher por ciúme. Em mais de um áudio obtido pela polícia, Danúbia relata a uma amiga que tinha sido agredida. 

Apesar disso, desde a prisão de Nem, Danúbia defende e faz juras de amor e fidelidade ao traficante nas redes sociais.

Reprodução/ Facebook

Ficha Criminal

Em 2011, a "xerifa" da Rocinha foi encontrada pela polícia num salão de beleza da comunidade. Acusada de associação ao tráfico, ela foi levada para a Delegacia da Gávea, zona sul, por policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) para prestar depoimento.

Na ocasião, o delegado Carlos Augusto Nogueira explicou que Danúbia recebia presentes de Nem, andava com carro fornecido por ele e não comprovava ter emprego fixo, o que indicava a relação dela com o tráfico. No entanto, Rangel foi liberada tempos depois.

No mesmo ano, Nem foi preso dentro do porta-malas de um carro na Lagoa, bairro nobre vizinho à Rocinha, tentando deixar a favela.

A partir daí, ela passou a se dividir entre o Rio e Campo Grande (MS), para onde o marido foi levado. Lá, a loira chegou a abrir um salão de beleza.

Três anos após a prisão de Nem, Danúbia foi presa. Em março de 2014, ela foi encontrada com dez telefones celulares e três tablets com conexão à internet e acusada de enviar recados de Nem para traficantes aliados.

Em 2016, ela foi, contudo, absolvida de uma das acusações de associação para o tráfico e acabou solta. Menos de um mês depois, a Justiça a condenou a 28 anos de prisão. Desde então, Danúbia Rangel é procurada pela polícia. O serviço Disque-Denúncia oferece R$ 1.000 de recompensa por informações sobre seu paradeiro.

Crise na Rocinha

Os conflitos na Rocinha começaram no último dia 17. Mesmo preso, Nem teria mandado invadir a Rocinha para retomar o controle do tráfico no local, o que provocou confrontos na região, cercada por uma semana por homens das Forças Armadas.

A disputa pelo controle do território resultou em uma semana de tensão, com tiroteios quase diários e interdição da estrada Lagoa-Barra, que margeia a favela e uma das principais ligações entre as zonas sul e oeste. Segundo a polícia, Rogério 157 chegou a buscar refúgio em favelas da zona norte e nelas negociado aliança com o CV.

Na sexta-feira (29), as Forças Armadas deixaram a região que ainda registra confrontos. De acordo com a Secretaria de Segurança, desde a operação das forças de segurança na favela, 18 pessoas foram presas, quatro menores apreendidos e sete criminosos morreram. Foram apreendidos na Rocinha 13 fuzis, 15 pistolas, seis simulacros de fuzil e pistola, 27 granadas/artefatos explosivos e mais de duas toneladas de drogas.

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