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Marielle: ação busca provas para condenar suspeitos, diz chefe de polícia

A vereadora Marielle Franco (PSOL) - Márcia Foletto/Agência O Globo
A vereadora Marielle Franco (PSOL) Imagem: Márcia Foletto/Agência O Globo

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

13/12/2018 17h03

O chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Rivaldo Barbosa, disse nesta quinta-feira (13) que o objetivo da operação de cumprimento de mandados judiciais contra suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) é obter provas que garantam a condenação deles. Segundo um integrante da cúpula da Secretaria da Segurança Pública, a polícia já teria identificado suspeitos tanto de executar como de planejar o crime e agora busca provas para tentar garantir a condenação na Justiça se eles forem presos.

"Toda a investigação é cercada de sigilo e estratégia. O que a gente tem feito hoje é uma ação estratégica ligada ao crime da morte do Anderson e da Marielle. O sigilo é importante, se eu falar alguma coisa eu estrago a estratégia. O que a gente pode dizer para a sociedade é que nós estamos trabalhando muito", disse Barbosa.

Nesta quinta, eram cumpridos 15 mandados de prisão, busca e intimações em Nova Iguaçu, Angra dos Reis, Petrópolis e Juiz de Fora (MG). A polícia disse que não informará quantos mandados foram cumpridos. "Uma investigação tem que levar provas robustas, concretas, para a condenação. O que a Polícia Civil está fazendo é buscar provas concretas para a condenação dia assassinos de Anderson a Marielle", afirmou Barbosa.

Segundo nota divulgada pela Polícia Civil, esses mandados de prisão e apreensão se originaram de inquéritos que correm em paralelo à investigação principal do caso Marielle. Contudo, um integrante da Secretaria da Segurança afirmou que a polícia suspeita que os alvos da operação tenham ligação direta com a morte de Marielle. Ele disse, porém, que ainda não é possível divulgar se os procurados são executores do crime ou seus mandantes para não atrapalhar as investigações.

Uma das principais linhas analisadas pela polícia até agora é que o crime tenha sido realizado por membros de milícias --forças paramilitares formadas por policiais e ex-policiais corruptos que exploram diversas modalidades de crimes nas favelas que controlam.

Em novembro, o secretário de Segurança do Rio, general Richard Nunes, afirmou em entrevista à "GloboNews" ter certeza do envolvimento de milicianos no assassinato. "Não é um crime de ódio. Falei isso logo na primeira entrevista que dei, em março. É um crime que tem a ver com a atuação política, em contrariedade de alguns interesses. E a milícia, com toda certeza, se não estava no mando do crime em si, está na execução", disse ele na ocasião.

Como não há provas materiais contundentes do crime --como imagens de câmeras de segurança dos executores ou testemunhas--, a estratégia da polícia é reunir o máximo de evidências para desconstruir qualquer álibi que possa ser apresentado pelos suspeitos e assim fazer com que eles aguardem o julgamento presos.

Segundo o jornal "O Globo", os mandados estariam ligados a investigação de criminosos responsáveis por "clonar" um veículo Chevrolet Cobalt que foi usado na emboscada que resultou na morte da vereadora e de seu motorista. A informação foi atribuída a policiais ligados à investigação, mas não foi confirmada oficialmente pela Polícia Civil, que alega o sigilo da apuração.

Policiais são atacados ao cumprir mandados em Angra

Uma equipe da Delegacia de Homicídios foi atacada por criminosos em região conhecida como Frade, em Angra dos Reis, quando tentavam coletar evidências relacionadas ao assassinato. Criminosos que controlam a região atiraram contra a equipe por serem policiais, mas não há evidências de que os responsáveis pelo ataque estejam relacionados com os suspeitos do caso Marielle.

Eles conseguiram se retirar do local após receberem reforços da polícia local e de um helicóptero.

A investigação do assassinato da vereadora e de seu motorista ocorre em meio a pressões políticas e uma disputa entre autoridades do Rio de Janeiro e da União sobre quem deve investigar o caso.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, já disse que estudava a federalização do caso e, atualmente, pressiona autoridades fluminenses com declarações públicas cobrando o esclarecimento do crime. 

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, já afirmou acreditar que os responsáveis pelo crime fariam parte de "forças satânicas que põe o Rio de joelhos" e de uma "articulação de poderosos". Segundo ele, a Polícia Federal está fazendo uma investigação paralela à da polícia do Rio para verificar se há tentativas de grupos organizados para atrapalhar a investigação da Polícia Civil.

O chefe de polícia Rivaldo Barbosa disse que já houve tentativas anteriores da União de federalizar casos de grande repercussão --como nas investigações dos assassinatos da juíza Patrícia Acioli, em agosto de 2011, e do auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, em 2013.

"Assim como aconteceu no caso da juíza que tentaram federalizar e o Rio de Janeiro deu uma resposta, o Amarildo, tentaram federalizar também e a Polícia Civil deu uma resposta. No caso Anderson e Marielle, a Polícia Civil do Rio de Janeiro está trabalhando muito para dar uma resposta", disse Barbosa.

O chefe de polícia comentou a ação de hoje na véspera de o crime completar nove meses na inauguração da Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) --a especializada era discutida desde 2008 e saiu do papel durante o processo de reestruturação das polícias elaborado pela equipe do interventor federal Walter Souza Braga Netto. A delegacia vai investigar  crimes praticados contra minorias por motivos de intolerância racial ou religiosa. Barbosa disse que ela será a "delegacia da liberdade".

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