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8 meses
Comércio quer reforçar iluminação de Paraisópolis 'contra abusos da PM'

Vista da comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, onde pelo menos nove pessoas morreram pisoteadas durante baile funk na madrugada de domingo (1) - TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO
Vista da comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, onde pelo menos nove pessoas morreram pisoteadas durante baile funk na madrugada de domingo (1) Imagem: TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO

Bernardo Barbosa e Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

05/12/2019 04h00Atualizada em 05/12/2019 17h49

Resumo da notícia

  • Comerciantes de Paraisópolis querem melhorar iluminação da comunidades
  • O objetivo, eles afirmam, é evitar abusos policiais
  • Donos de bares da comunidade também organizam limpeza e estrutura para o baile funk
  • Evento leva visitantes de diversas partes da cidade a Paraisópolis
  • No último fim de semana, após ação da PM, nove frequentadores morreram

É comum que a iluminação pública seja citada por pesquisadores dentro e fora do Brasil como uma medida de baixo custo que ajuda a prevenir crimes. Na favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, comerciantes se mobilizam para deixar as ruas do lugar mais iluminadas — não contra criminosos comuns, mas para tentar evitar, segundo eles, abusos da Polícia Militar.

"É onde está o perigo. Quando os policiais vêm, eles aproveitam e machucam o pessoal", afirmou um desses comerciantes. Um grupo de seis donos de bares da comunidade, onde nove jovens morreram no domingo (1) após ação policial em um baile funk, conversou com jornalistas ontem.

Eles falaram sob condição de não terem seus nomes revelados, pois temem represálias da polícia.

"Cada um vai colocar seu refletorzinho na frente do seu bar. A gente vai manter a rua mais iluminada. Nessa rua aqui, tem um ou dois postes que funcionam no quarteirão inteiro", disse o dono de um bar.

Após a divulgação de vídeos com agressões cometidas por policiais militares em Paraisópolis, o comerciante apontou outra finalidade para uma iluminação pública reforçada.

"É mais fácil até para a gente filmar e ter uma prova para a nossa própria defesa", disse.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que denúncias sobre a conduta de policiais devem ser feitas à Corregedoria da corporação (veja íntegra da nota ao fim deste texto).

A Prefeitura de São Paulo disse que a região de Paraisópolis está "dentro do cronograma" para receber iluminação em LED, e faz parte da lista de locais prioritários definidos a partir de índices de criminalidade do governo estadual (veja íntegra da nota ao fim deste texto).

Nem poder público, nem paralelo

O planejamento para a instalação da iluminação por conta própria é uma das medidas que os comerciantes locais avaliam para tentar dar mais segurança e estrutura para os bailes, que atraem gente de toda a Grande São Paulo e representam o sustento de vários moradores.

A maioria dos bares de Paraisópolis só abre de sexta a domingo, geralmente das 22h até 6h. Além de vender bebidas, funcionam como tabacaria, alugando narguilés. O lucro líquido pelos três dias fica entre R$ 1.000 e R$ 2.000, segundo os relatos.

Além das luzes, os comerciantes querem que os bailes tenham hora para começar e terminar — hoje, se encerram no máximo às 7h, contra períodos anteriores em que iam até as 11h. Eles também pensar em instalar banheiros químicos e colocar grades para restringir o tráfego de carros e motos nas ruas das festas. "Entrando um dinheiro, a gente vai fazendo investimentos e melhorias", disse um deles.

O comércio local já mantém, segundo os entrevistados, uma estrutura própria de limpeza das ruas após as festas. Segundo eles, cada bar paga R$ 10 para a "moça da limpeza", que tem sua própria equipe. Ela também é encarregada de providenciar os produtos necessários para o trabalho, como sacos de lixo e vassouras.

No momento, contar com o auxílio do poder público para estruturar melhor os bailes parece fora de cogitação. Segundo os comerciantes, desde que existe esse tipo de festa na comunidade, eles nunca foram procurados pela prefeitura ou qualquer outro órgão para garantir a continuidade e legalidade delas de uma forma organizada.

"Pode ser que a prefeitura demore para vir fazer isso", disse um dos donos de bar sobre a iluminação pública. "A gente quer fazer uma coisa mais rápida, mais prática, porque a gente não pode ficar fechado. A gente depende da renda do baile para pagar nossas contas."

A gente corre atrás. Se a gente for pedir auxílio para o governo, o governo não vai nos ajudar, sabendo que é um baile.

Se o poder público não ajuda, também não há ligação com o poder paralelo do tráfico, afirma o grupo. "O pessoal fala que o baile é fornecido pelo tráfico. O tráfico não tem nada a ver com o baile", afirmou um deles.

Já os moradores também não fariam muita oposição aos bailes, apesar do grande movimento e do barulho da música alta. Segundo outro comerciante, "o barulho diminuiu muito" porque ocorreram diversas apreensões de veículos munidos de sistemas de som nos últimos três meses, o que teria desestimulado donos de carros do tipo a frequentarem os bailes do bairro.

Um dos donos de bar citou um levantamento publicado pelo site G1 na terça (3), com base em números do PSIU (Programa Silêncio Urbano, da prefeitura), mostrando que Vila Andrade — onde fica Paraisópolis — foi o 76º entre 96 distritos em número de reclamações no primeiro semestre de 2019. Houve 60 chamados na região.

"É mínimo para a população que tem aqui [mais de 100 mil habitantes]. É praticamente nada."

Abusos e medo

Segundo os comerciantes, a repressão aos bailes ganhou força entre 2016 e 2017, época em que policiais chegavam a destruir mercadorias de bares no bairro, contam os donos dos estabelecimentos.

"Foi quando começaram a acontecer as ações para acabar de vez com o baile funk. Eles vinham todo final de semana", relatou um deles.

Os comerciantes atribuem a PMs uma série de abusos durante a repressão aos bailes. No caso do comércio, eles acontecem principalmente quando frequentadores dos bailes correm das bombas lançadas na dispersão das festas e se escondem nos bares. Para obrigar as pessoas a saírem das lojas, policiais jogam spray de pimenta pelas frestas das portas baixadas, ou forçam sua abertura.

"Eles derrubam as portas se perceberem que tem gente dentro. Na porta do meu estabelecimento, tem marca de cassetete até hoje", comentou um dos comerciantes. "A porta saiu do trilho. Gastei R$ 300 para arrumar".

Um dos entrevistados também relata que seu veículo já foi quebrado diversas vezes pelos policiais. Outros falam de casos em que PMs furam pneus de carros e derrubam motos no chão durante as operações contra os bailes.

"Depois da morte do policial, a gente está percebendo que teve uma piora", disse uma comerciante.

Ele se refere ao sargento Ronaldo Ruas, 52, que morreu no dia 2 de novembro depois de ter sido baleado em confronto com criminosos em Paraisópolis. No mesmo dia, a Polícia Militar anunciou uma operação chamada Saturação, "sem previsão de término". O mesmo nome já foi usado pela PM em operações anteriores na favela em que moradores reclamaram de truculência policial.

"No primeiro sábado depois [da morte do sargento], a gente não conseguiu trabalhar. No domingo, a mesma coisa. A semana seguinte também não. Por causa da operação", declarou um dono de bar.

Comerciantes confirmam versão de frequentadores do baile

Os comerciantes corroboram a versão dada por outros moradores de Paraisópolis sobre a operação da madrugada de domingo, que terminou com a morte dos nove jovens. Eles afirmam que os frequentadores do baile do DZ7 foram encurralados pela polícia. A PM diz que entrou no baile atrás de dois criminosos que atiraram contra policiais e se esconderam na festa. Ninguém foi preso até agora.

"Tinha cinco mil pessoas naquele baile e ninguém viu essa moto? Só eles que viram, perseguindo? E esses tiros? Pode estar o som aqui estrondando, se tiver um tiro o pessoal vai correr", contestou o dono de um bar.

Outro comerciante disse que, nos últimos três anos, nunca viu a polícia agir daquela forma na repressão a um baile. Normalmente, a PM atira bombas para dispersar a multidão, e faz isso até meia-noite, antes de a festa lotar. "Assim, eu nunca vi acontecer. Três da manhã, em um lugar que está cheio."

O baile não pode parar

Após as nove mortes, os comerciantes temem que a relação entre a PM e a comunidade possa piorar. "A gente sabe que não foi a primeira vez em que eles chegaram agredindo quem estava aqui. Mas essa foi lamentável. Agora tudo pode acontecer, ele podem ter mais raiva da gente. Aí pagamos por algo que não tem a ver com a gente", disse.

Apesar do receio de mais abusos e do temor de que a violência policial afaste frequentadores, eles garantem que os bailes não vão parar.

"É nossa renda. Mas precisamos organizar. Seria bom se a prefeitura viesse aqui para nos auxiliar nisso, mas eles só vêm aqui para aplicar multa. Muita gente curte o baile aqui em Paraisópolis porque não tem dinheiro para curtir em lugares pagos. Aqui tem lazer, ninguém mexe com ninguém. Gente da alta sociedade curte e fala bem da comunidade", conta um comerciante.

Em meio ao momento conturbado na comunidade, os comerciantes afirmam que estão se mobilizando para fazerem um "baile da paz" no sábado (7). "Vamos divulgar nas redes sociais. Precisamos mudar essa imagem que estão passando da nossa comunidade. Sábado, vamos pedir paz. Vamos usar pedir todos de branco, vamos distribuir panfletos referentes à paz."

Outro lado

O UOL enviou e-mail à Polícia Militar e à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo na noite de quarta (4) perguntando se os órgãos têm conhecimento de agressões e atos de vandalismo cometidos por PMs na dispersão dos bailes em Paraisópolis. A resposta da secretaria foi de que "toda e qualquer denúncia sobre a conduta de policiais militares pode ser feita diretamente na Corregedoria da corporação."

Na mesma nota, a secretaria também disse que "a Polícia Militar realiza, desde o março de 2019, operações regulares na região de Paraisópolis, com o patrulhamento regular e unidades especializadas, como o Choque, o COE, o Comando de Aviação (CAv) e o Canil. Esse trabalho permitiu na prisão de 96 criminosos e apreensões de 2,7 toneladas de drogas e 31 armas ilegais."

O UOL também procurou a Prefeitura de São Paulo por e-mail, no começo da noite de quarta-feira (4), para saber se o município tem algum plano para melhorar a iluminação urbana de Paraisópolis; e se tem algum plano para melhorar a organização dos bailes, fechando ruas, definindo horários e reforçando o transporte público.

Em e-mail enviado no fim da tarde de quinta (5), a Secretaria Municipal das Subprefeituras informou, por meio do Ilume (Departamento de Iluminação Pública), que "Paraisópolis está dentro do cronograma para receber a iluminação em LED, conforme previsto pela PPP. O contrato foi retomado em agosto deste ano e os locais prioritários para início dos serviços de expansão foram definidos a partir dos índices de criminalidade da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP)."

De acordo com a prefeitura, "as subprefeituras com maior ocorrência de crimes como roubo, estupro e lesão corporal dolosa são: Freguesia/ Brasilândia e Vila Maria/Vila Guilherme, na região Norte; Campo Limpo (onde está Paraisópolis) e Capela do Socorro, na região Sul; Itaquera e São Mateus, na região Leste; Butantã, na região Oeste; e Sé, região Central."

Ainda segundo o município, "em caso de pancadões, é necessária operação da Polícia Militar, na qual a Guarda Civil Metropolitana, Companhia de Engenharia de Tráfego e Subprefeitura prestam apoio quando solicitado."

A prefeitura informou ainda que disponibiliza a Central SP156 (telefone, aplicativo e site), "além de praças de atendimento das subprefeituras para denúncias de poluição sonora."

Cotidiano