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Corregedoria investiga por que PMs fecharam rotas de fuga em Paraisópolis

Viela onde corpos foram encontrados na favela de Paraisópolis, após ação de PMs no Baile da DZ7 - Adriano Vizoni/Folhapress
Viela onde corpos foram encontrados na favela de Paraisópolis, após ação de PMs no Baile da DZ7 Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

04/12/2019 15h07

Resumo da notícia

  • Policiais da Corregedoria ouviram testemunhas e fizeram registro fotográfico local
  • Órgão fiscalizador quer entender por que PMs fecharam rotas de fuga
  • Sem preservação do local das mortes, investigação pode ter sido prejudicada

A Corregedoria da PM (Polícia Militar), órgão responsável por investigar internamente possíveis irregularidades praticadas por integrantes da corporação, foi até a favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, hoje para colher depoimentos de moradores que possam elucidar o que ocasionou as mortes de nove jovens na madrugada de domingo (1º).

Segundo o corregedor da PM, o coronel Marcelino Fernandes, além dos depoimentos, foi iniciada também uma investigação de campo, com registro fotográfico, para tentar colher elementos factíveis do que possa ter ocorrido naquela madrugada. O local das mortes, no entanto, não foi preservado, como costuma ocorrer, o que pode atrapalhar as investigações.

Os PMs da Corregedoria percorreram ruas e vielas da favela e conversaram com diversos moradores, observando, além dos depoimentos, vídeos e fotos que circulam entre os moradores. O conteúdo do que foi colhido, no entanto, é sigiloso e não pode vir a público para não prejudicar o andamento das apurações.

"Embora não tenha o segredo de Justiça decretado, o IPM (Inquérito Policial Militar) é sigiloso", explicou o corregedor à reportagem.

O cerne da ação do órgão fiscalizador é entender por qual razão os policiais entraram no baile da DZ7, onde havia cerca de 5.000 pessoas, e fecharam todos os acessos e rotas de fuga do local, liberando para os frequentadores saírem apenas becos e vielas apertados.

Segundo a primeira versão oficial, apresentada pelos PMs envolvidos na ocorrência, os nove jovens, de 14 a 23 anos, foram mortos pisoteados. A segunda, da Polícia Civil, aponta que as mortes ainda são suspeitas, porque não há elementos suficientes para explicar as causas das mortes. Ontem, o MP (Ministério Público) citou os crimes como homicídios, mas tirou a responsabilidade dos PMs e afirmou que a Promotoria fará investigação criteriosa.

Atestados de óbito de quatro dos nove jovens apontam as causas das mortes por asfixia e trauma na medula. Familiares de algumas das vítimas estranham o fato de não haver marcas esperadas por pisoteamento —como feridas ou sangue, o que colocaria em xeque a primeira versão policial.

Na tarde de ontem, veio a público imagens que mostrariam os seis primeiros policiais envolvidos na ocorrência chegando até a favela de Paraisópolis. Ao fim da operação, 38 policiais militares se envolveram na ocorrência.

Na primeira versão apresentada pelos PMs, os seis policiais afirmaram que entraram na favela durante uma perseguição a um criminoso que atirava contra eles na garupa de uma outra moto. Pelas imagens, a entrada dos policiais no local ocorre sem tiroteio. No entanto, os policiais afirmaram em depoimento que fizeram a perseguição, saíram da favela e retornaram novamente com apoio.

Vídeo mostra correria e PM jogando bombas e Paraisópolis

UOL Notícias

PMs afastados do serviço operacional

Desde segunda-feira, seis policiais militares do 16º BPM (Batalhão da Polícia Militar) que estiveram envolvidos na operação em Paraisópolis na madrugada de domingo estão afastados do serviço operacional. Em depoimento prestado à Polícia Civil e à Corregedoria da PM, eles afirmaram que fizeram "uso moderado da força".

Os PMs João Paulo Vecchi Alves Batista, Rodrigo Cardoso da Silva, Antonio Marcos Cruz da Silva, Vinicius José Nahool Lima, Thiago Roger de Lima Martins de Oliveira e Renan Cesar Angelo foram alocados ao serviço administrativo, uma prática comum da corporação paulista quando há suspeitas contra seus servidores.

Segundo a versão dos policiais, eles foram alvo de tiros de um criminoso que estava na garupa de uma moto e que, na fuga, entrou no meio do baile funk. Dizem, também, que, durante a perseguição, houve correria provocada pelos criminosos. Os PMs afirmam que, mesmo alvos de tiros, garrafadas e pedradas, foram eles quem ficaram no local e socorreram as vítimas.

"Havia um grande número de pessoas descontroladas, sendo necessário uso moderado da força com emprego de cassetete e munição química", afirmou um dos policiais, de acordo com os depoimentos lidos pela reportagem.

Eles, no entanto, não se justificam, em nenhum momento, os vídeos que repercutiram entre domingo e segunda-feira que flagraram PMs afunilando os frequentadores do baile em uma viela e agredindo jovens, já rendidos, com socos, pisadas, chutes e cassetetes.

Frequentadores do baile negaram que tenha ocorrido tiroteio e afirmam que os policiais militares entraram na favela com o objetivo de fazer a dispersão por causa do barulho, e não porque havia criminosos fugindo em meio aos jovens.

Segundo o comandante-geral da PM, coronel Marcelo Vieira Salles, "os policiais não estão afastados, estão preservados. Temos que concluir o inquérito. Não haverá como condená-los antes do devido processo legal. Seguirão em serviços administrativos, no horário deles, fazendo outras coisas".

O ouvidor das polícias, Benedito Mariano, no entanto, esclarece que a medida é, sim, um afastamento. "Os policiais foram afastados para o serviço administrativo. Uma prática que ocorre normalmente. Por exemplo: quando há morte decorrente de intervenção policial, é quase automático que o PM seja afastado das ruas até a finalização da investigação", afirmou.

Vídeo mostra agressões de PM em Paraisópolis

UOL Notícias

Política de segurança não vai mudar, diz governador

Em entrevista coletiva, o governador João Doria (PSDB) defendeu a ação da PM na operação que terminou com nove mortos e também defendeu a corporação paulista como um todo. Ele teceu elogiou aos policiais do estado e afirmou que a política de segurança não irá mudar.

A versão apresentada por Doria é a mesma da polícia: PMs reagiram a um ataque de dois criminosos que estavam em uma moto atirando. "A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo", disse Doria.

Doria declarou ainda que o estado São Paulo "tem o melhor sistema de segurança preventiva", mas "isso não significa que não seja infalível". A ação em Paraisópolis ocorre menos de uma semana após o governo do Estado ter divulgado as metas de segurança pública da gestão Doria. As metas não determinam objetivos para reduzir a letalidade policial.