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Coronavírus

"Sem responsabilização por mortes", dizem empresários contra quarentena

Nos últimos dias, carreatas pediram o fim da quarentena, como mostra foto acima. Um evento com essa mesma pauta está agendado para hoje - Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images
Nos últimos dias, carreatas pediram o fim da quarentena, como mostra foto acima. Um evento com essa mesma pauta está agendado para hoje Imagem: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

30/04/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Movimento Volta Consciente SP marcou para hoje carreata contra a quarentena
  • "Apartidário", movimento evita relação com Doria e Bolsonaro
  • Empresário acredita que cabe ao governo criar protocolo para evitar aglomeração após isolamento
  • Ele acredita que pedir a volta ao trabalho é direito democrático que isenta de responsabilidade contra possíveis mortes

Um movimento de empresários convocou para hoje uma carreata que espera reunir 700 veículos de diversas cidades de São Paulo para pedir "o fim imediato" da quarentena. "Apartidário", o movimento evita criticar o governador João Doria (PSDB) ou se aproximar do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e invoca a democracia para rejeitar a responsabilidade do grupo sobre um possível aumento das mortes caso a quarentena seja suspensa no estado.

O movimento surgiu "da troca de ideias de empresários e entidades do setor têxtil para sensibilizar o governo sobre o problema da quarentena", afirmou ao UOL um dos líderes do movimento Volta Consciente SP, o dono da Tecelagem Jolitex, Michel David, 41. "As fábricas estão trabalhando, mas não há escoamento. As vendas pela internet representam muito pouco."

A carreata, marcada para começar às 13h30 na cidade de Americana, pretende reunir carros "vindos da capital, da região de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara, Campinas e de Ibitinga" em um trajeto de 40 quilômetros.

"A escolha da carreata, em vez de um ato tradicional, que poderia gerar aglomerações, demonstra a preocupação em evitar a transmissão da covid-19", diz comunicado do movimento, que não pretende "atrapalhar" hospitais, como o buzinaço de uma carreata perto do Hospital das Clínicas de São Paulo há duas semanas.

"O nosso movimento é pacífico, não quer atrapalhar", diz David, que não vê contradição em pedir, de dentro dos carros, o fim do isolamento social. "É um símbolo de que o nosso setor pode seguir as regras de uma abertura protocolizada, respeitando as ordens atuais."

"Sem responsabilização" por mortes

O movimento prefere evitar sugerir medidas para impedir aglomerações no comércio depois que a quarentena acabar. "Quem deve criar as regras é o pessoal técnico do governo, habilitado para isso."

Depois de um protocolo definido, diz David, o empresariado conscientizaria seus funcionários. "A preservação da vida é prioridade número 1, mas com equilíbrio", diz. "O desequilíbrio são empresas sem condições de manter o trabalhador, gerando desespero."

Questionado sobre a possibilidade de o grupo acabar responsabilizado por um possível aumento das mortes com o fim da quarentena, David invocou a democracia.

Vivemos em um país livre e cada um deve defender o que acha justo, sem responsabilização. Isso não existe em um ambiente democrático. Estamos defendendo a volta ao trabalho. Alguém está se responsabilizando pelos empregos perdidos? Pelos pais que não conseguem levar comida para casa?
Michel David, empresário

A preocupação com o impacto econômico da quarentena atrasou a decisão em muitos países europeus no início da pandemia. A maioria, no entanto, recomendou isolamento quando o prefeito de Milão (Itália), Giuseppe Sala, pediu desculpas depois que 4,4 mil pessoas morreram após sua convocação para que o povo saísse às ruas para proteger a economia.

Único país nórdico a dispensar o isolamento, a Suécia registra 20 mortes por 100 mil habitantes, enquanto a situação é menos dramática entre os vizinhos escandinavos com quarentena: 6,8 mortos/100 mil na Dinamarca, 3,6 na Noruega e 3,1 na Finlândia.

Longe de Doria e de Bolsonaro

David reforça que o movimento "é pacífico e apartidário" e usa sempre a palavra "equilíbrio", principalmente quando questionado sobre a opinião do movimento sobre o governador, eleito com forte apoio empresarial, mas defensor da quarentena — assim como a maioria dos cientistas, epidemiologistas e comunidade internacional.

"O movimento não tem essa conotação política. A gente entende que precisa existir um equilíbrio nessa relação. O governo procura manter boas relações com o empresariado. Ele determinou que a primeira necessidade é equipar a saúde e agora a gente precisa chegar a um acordo para que os empregos sobrevivam. Não quer dizer que somos contra ou a favor [de Doria]", diz.

Os empresários também tentam dissociar sua imagem de Bolsonaro, que como eles é contrário à quarentena. "Não temos essa posição com nenhum partido ou pessoa individual (...) Nosso setor está morrendo com essa quarentena", desabafa David.

Ele desconhece, no entanto, o tamanho do prejuízo do setor têxtil e quantos empregos foram sacrificados desde o início da pandemia. "Tem muita empresa fechada e está difícil computar os dados pelas entidades de classe", diz ele, que garante ter o apoio dos trabalhadores ao Volta Consciente SP.

"Ninguém foi obrigado ou coagido a participar. Só passamos a informação e a adesão é voluntária", afirma. Ele aposta que os empresários também sairão de casa quando a quarentena acabar. "A ideia do home office no começo foi boa, mas agora os empresários têm de se fazer presentes."

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