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Pastor e ex-deputado diz que não entraria em avião pilotado por cotista

Luciana Cavalcante

Colaboração para o UOL, em Belém

20/07/2020 22h19

Durante uma pregação na igreja, o pastor e ex-deputado federal Josué Bengtson (PTB-PA), tio da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, disse que não entraria em um avião pilotado por um cotista. No mesmo discurso, perguntou a quem o assistia se eles aceitariam ser operados por alguém que entrou na universidade por esse sistema.

"Eu não voaria num avião que alguém entrou, como piloto, como cota. Eu não voaria. É por isso que de vez em quando cai um avião. Em 99% a culpa é do piloto. Ele errou alguma coisa", disse o pastor líder da igreja quadrangular no Pará.

"Você se deixaria operar, o seu coração, por um médico que entrou na faculdade na cota? Ele não passou, mas tinha que deixar uma cota para índio, uma cota para negro", afirmou na sequência. "Nesse mundo a meritocracia é que tem que funcionar. É o esforço!"

'Fala racista', diz membro da OAB/PA

As declarações repercutiram entre entidades de defesa dos direitos raciais. O presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Racial e da Etnia e Direito dos Quilombolas da OAB/Pará, Peter Paulo, criticou a fala do ex-deputado. "Essa fala é infeliz e nos surpreende a forma como foi feita. Os profissionais formados, que entraram pelo sistema de cotas, são como qualquer outro."

Ainda segundo Paulo, o sistema de cotas, através da Lei Nº 12.711, de agosto de 2012, veio para incrementar a participação dos povos excluídos nas universidades como forma de permitir superação de desigualdades históricas. "A lei não veio para diminuir a qualidade do ensino público, pelo contrário, é uma forma de acesso diferenciado, mas o método de avaliação é o mesmo para todos."

Ele citou os resultados obtidos com a medida. "O próprio censo do Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas] mostrou que aumentou em 39%, entre os anos 2012 e 2016, a presença de indígenas, negros e quilombolas nas universidades federais".

O representante da OAB afirmou que é necessário combater esse discurso de preconceito. "É uma fala racista, claramente misógina, que não merece prosperar e ser aceita. Isso só mostra o racismo no Brasil, que é estrutural. Atitudes como essa devem ser combatidas!".

Pastor diz reconhecer importância das cotas

Em nota, Josué Bengtson disse que o vídeo divulgado é um trecho pinçado de uma fala dele e que não representa o seu posicionamento pessoal sobre o sistema de cotas.

No texto, o ex-deputado afirma que reconhece a importância e a necessidade das cotas para que se inicie um processo de inclusão, mas defende que sejam oferecidas a estudantes oriundos do ensino público, independentemente da sua cor de pele.

Josué Bengtson foi deputado por três mandatos. Em 2018, acabou condenado por enriquecimento ilícito no episódio que ficou conhecido como a máfia das ambulâncias.

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