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Segurança pública

Ex-carcereiro, advogado se aliou ao PCC e dialogou com Marcola, diz polícia

Advogado Wellington Luiz Pereira de Alcântara, preso pela Polícia Civil sob suspeita de ligação com o PCC - Arquivo Pessoal
Advogado Wellington Luiz Pereira de Alcântara, preso pela Polícia Civil sob suspeita de ligação com o PCC Imagem: Arquivo Pessoal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

05/09/2020 15h28

O advogado criminalista Wellington Luiz Pereira de Alcântara, preso em 31 de agosto deste ano, é suspeito de ser integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital) e de ter ligação com a Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. O inquérito policial do caso está em segredo de justiça, mas foi obtido pelo UOL.

De acordo com o documento, Alcântara "muito além das funções profissionais, passou a integrar a organização criminosa, colocando-se à disposição do crime para condutas espúrias ou com fins graves".

No inquérito, um delator, ex-integrante da facção, afirmou que o advogado estava ascendendo no grupo. A investigação apontou que ele dialogou com Marcola, o líder do PCC, sem nunca ter prestado serviços como advogado a ele.

Em depoimento, Alcântara negou todas as acusações e disse nunca ter ingressado em nenhuma organização criminosa. Ele está na penitenciária 1 de Presidente Venceslau.

Momento da prisão do advogado Wellington Alcântara - Reprodução/Polícia Civil - Reprodução/Polícia Civil
Momento da prisão do advogado Wellington Alcântara
Imagem: Reprodução/Polícia Civil

Em 2006, quando houve os ataques em série do PCC a membros da segurança pública paulista, Alcântara era comandante do GIR (Grupo de Intervenção Rápida), que atua com repressão em presídios do estado quando a situação sai do controle.

Ele atuava justamente na unidade de Presidente Venceslau, que abrigou por anos a cúpula da facção paulista. Lá, observou de perto as articulações dos integrantes da cúpula da facção paulista, segundo a investigação.

Em 2009, ele deixou o cargo e passou a ser advogado criminalista. Em sua cartela de clientes estão dezenas de membros do PCC, dos mais variados cargos hierárquicos.

Além de ser apontado como informante da facção para elaboração de crimes, Alcântara presta serviços de consultoria explicando como escapar de investigações e de blitzes policiais, aponta o inquérito.

Ele também fez, segundo a polícia, pesquisas constantes de autoridades públicas que agem contra integrantes do PCC e de materiais que poderiam facilitar fuga de presos.

No dia 16 de outubro de 2018, Alcântara recebeu um telegrama cujo remetente era Marcola (veja abaixo). Em depoimento à Polícia Civil, Alcântara afirmou que conversou com o chefe da facção apenas em seu período como comandante do GIR.

"Nunca atendi e não tenho nenhuma procuração dele [Marcola]. Na verdade, reconheço esse telegrama, mas foi enviado pelo detento Rafael Pereira da Cruz, apelido Jamal", disse em depoimento.

Carta de Marcola para advogado Wellington Alcântara - Reprodução/Polícia Civil - Reprodução/Polícia Civil
Carta de Marcola para advogado Wellington Alcântara
Imagem: Reprodução/Polícia Civil

Os Correios enviaram à Polícia Civil o conteúdo do telegrama. Apesar de ter como remetente Marcola, a carta é assinada por Jamal. No documento (veja abaixo), o remetente exigiu, em tom de ameaça, a devolução do dinheiro investido.

Alcântara explicou à polícia que Marcola, que era vizinho de cela de Jamal, poderia ter cedido o direito do telegrama, que é comprado, e, só por isso, o remetente constava ser Marcola.

Conteúdo da carta de Marcola para advogado Wellington Alcântara - Reprodução/Polícia Civil - Reprodução/Polícia Civil
Conteúdo da carta de Marcola para advogado Wellington Alcântara
Imagem: Reprodução/Polícia Civil

De acordo com o inquérito assinado pelo delegado Pablo Rodrigo França, a formação de Alcântara no curso de teatro "certamente serviu para fornecer sólidos e profissionais elementos ao investigado no que tange a formação de seu perfil dissimulado, que possibilita ao mesmo permear por diversos setores sociais sem chamar a atenção para o seu real e criminoso eu".

Desde que começou a advogar para integrantes do PCC, Alcântara se aproximou de repórteres que cobrem segurança pública e passou a se engajar no setor de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Presidente Prudente, o que, "além da empatia profissional, motivou, entre outros, a aproximação junto às autoridades da segurança pública locais", aponta a polícia.

Ainda segundo o inquérito policial, Alcântara foi detido em seu escritório de advocacia em Presidente Prudente, não ofereceu resistência e acompanhou as buscas feitas no local e também em sua casa. Além de documentos e eletrônicos, uma arma de brinquedo também foi apreendida.

Entre os itens apreendidos com Wellington Alcântara, uma arma de brinquedo - Reprodução/Polícia Civil - Reprodução/Polícia Civil
Entre os itens apreendidos com Wellington Alcântara, uma arma de brinquedo
Imagem: Reprodução/Polícia Civil

No depoimento prestado na delegacia, o advogado afirmou querer colaborar com as investigações, mas negou veementemente ser integrante do PCC. Ele confirmou dados e prints de conversas com parentes de presos apresentados a ele, mas disse não se lembrar do teor das informações.

"Infelizmente, há uma linha tênue. Posso até ter pisado fora dela, mas sem nenhum vínculo, hierarquia e nem compromisso", se defendeu.

Ouça também o podcast Ficha Criminal, com as histórias dos criminosos que marcaram época no Brasil. Esse e outros podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e outras plataformas de áudio.

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