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Pedido de justiça e indignação marcam enterro de cliente morto no Carrefour

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

21/11/2020 10h13

As últimas despedidas a João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foram marcadas hoje por lágrimas e pedidos por justiça. Beto, como é conhecido, foi morto após ser agredido por um segurança e um policial militar temporário no Carrefour, da zona norte de Porto Alegre, na última quinta-feira (19).

Durante o velório, o pai dele, o aposentado João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, pediu que a discussão sobre o racismo seja incluída no currículo escolar.

"Foi uma violência brusca que tirou a vida do meu filho. Gostaria que os movimentos contra o racismo não fossem necessários, mas é preciso mudar o que esta acontecendo. Dizem que vai mudar, mas nunca muda. Isso deve começar nos bancos escolares."

Além da discussão do tema nos colégios, o aposentado pede leis mais severas.

A família estuda processar o Carrefour pelo ocorrido. Segundo o tio de Beto Rogério da Silva, de 53 anos, uma ação já esta sendo planejada.

"Foi uma morte brutal. O Carrefour não entrou em contato com a gente, e a gente nem quer. Mas queremos justiça, nem que a gente tenha que dividir os custos."

A filha mais velha de Beto, Thaís Alexia Amaral Freitas, de 22 anos, ficou bastante emocionada ao ver o pai no caixão e não conteve as lágrimas.

"Foi uma brutalidade o que fizeram. Se quisessem conter ele, deveriam fazer de outra maneira. Não como aconteceu. A gente quer justiça."

Do caminho da capela até o local do sepultamento, os participantes entoaram cânticos religiosos. Muita gente, como a esposa de Beto, não escondeu a tristeza pela perda. Milena caminhou a maior parte do percurso com cabeça abaixada e estava visivelmente abatida.

Antes de retirar o caixão do carrinho, os participantes criticaram a ação do segurança e do PM temporário no Carrefour, que resultou na morte dele.

"Não é a primeira vez que esses seguranças estão envolvidos em agressões", disse um homem, sendo interrompido na sequência.

"Vocês falam dos seguranças, mas e a fiscal que viu tudo e não fez nada, que ficou impune?", salientou outro homem.

"Ela é assassina, assassina! Só eles foram presos, e ela?", interrompeu uma mulher.

Em seguida, o pai de Beto pediu uma salva de palmas. Logo após, quando o caixão estava prestes a entrar na gaveta, amigos e familiares começaram a gritar pedidos por "justiça".

Entenda o caso

João Alberto Silveira Freitas teria discutido com a caixa do estabelecimento e foi conduzido por seguranças da loja até o estacionamento, no andar inferior, como mostram as imagens obtidas pelo UOL. Um deles, policial militar temporário —funcionário contratado pela Brigada Militar por tempo determinado, para atividades administrativas —-, acompanhou o deslocamento, e colaborou no espancamento de Freitas.

Durante o percurso, acompanhado por uma funcionária do Carrefour, Freitas teria desferido um soco contra o PM, segundo afirmou a trabalhadora, em depoimento à polícia. A delegada responsável pelo caso, Roberta Bertoldo, já analisou as imagens completas e afirma que há, de fato, a agressão do cliente contra um dos homens.

"Ele dá sim o soco. E foi por causa desse soco que os seguranças agridem ele. Dá para ver quem ele atinge. Me parece que foi o PM (que foi atingido)", declarou a delegada. O trecho não foi repassado à imprensa.

"A partir disso começou o tumulto, e os dois agrediram ele na tentativa de contê-lo. Eles (os seguranças) chegaram a subir em cima do corpo dele, colocaram perna no pescoço ou no tórax", disse o delegado plantonista Leandro Bodoia.

Os agressores foram presos, suspeitos de homicídio doloso. A cena vem sendo comparada nas redes sociais à que aconteceu com George Floyd, que morreu sufocado por policiais nos Estados Unidos.

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