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Conteúdo publicado há
2 meses
Carrefour: colega alertou fiscal a não 'conduzir situação daquela maneira'

Gravação flagra 14 pessoas "assistindo" imobilização de cliente do Carrefour - Reprodução
Gravação flagra 14 pessoas "assistindo" imobilização de cliente do Carrefour Imagem: Reprodução

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

24/11/2020 13h36Atualizada em 24/11/2020 19h41

Um colega diz ter cobrado a agente de fiscalização do Carrefour Adriana Alves Dutra, 51, sobre a condução da abordagem ao cliente negro João Alberto Silveira Freitas, 40. Beto, como era conhecida a vítima, morreu após ser espancado por dois seguranças do estabelecimento - Magno Braz Borges, 30, e o policial militar temporário Giovane Gaspar da Silva, 24, na última quinta-feira (19), na unidade do mercado na zona norte da cidade. Os dois homens estão presos.

O homem, que também é fiscal da loja, é um dos que aparecem correndo nas imagens de câmera de segurança. Ao chegar ao local, já encontrou Borges e Silva "em cima da vítima", e Adriana na volta que afirmou que "a situação já estava controlada e que a vítima estava apenas sendo contida". Na tarde de hoje, a Polícia Civil prendeu Adriana Dutra. Ela foi presa temporariamente e deve ficar detida por 30 dias.

No depoimento à polícia, o funcionário "disse a Adriana que ela não deveria conduzir a situação daquela maneira". Em seguida, a mulher mandou ele voltar para o interior da loja, pois "não haviam ficado fiscais no local", o que foi obedecido por ele.

Adriana Alves Dutra tentou inclusive impedir gravação da cena por motoboy - Reprodução - Reprodução
A agente de fiscalização Adriana Alves Dutra que tentou impedir a gravação das agressões a João Alberto Silveira Freitas, no Carrefour
Imagem: Reprodução

O funcionário acrescentou que Adriana estava "bem transtornada, muito nervosa", mas que viu quando ela pediu por rádio que fosse chamada a Brigada Militar.

O homem presenciou ainda Beto gritar "me larga, me larga", mas não percebeu que ele pudesse estar se sufocando. "Ninguém tentou ajudar a vítima, os populares se preocupavam apenas em filmar", salientou o homem à polícia. O fiscal disse ainda que Borges trabalhava há dois meses na unidade e "aparentava ser uma pessoa extremamente tranquila, 'até de mais'", segundo trecho do depoimento.

Por último, o fiscal diz que a morte de Beto foi "completamente isolado, que nunca havia presenciado uma situação assim".

Um outro funcionário do Carrefour, que também aparece correndo até o estacionamento, disse que ao chegar ao local, o cliente já estava no chão, sendo imobilizado pelos seguranças.

"Ao lado deles havia muito sangue e na hora já pensou em auxiliar os seguranças que não conseguiram imobilizar o indivíduo. O investigado refere que diante da dificuldade de imobilizar o indivíduo deu um chute no braço dele para tentar colocar para trás, mas mesmo assim não estavam conseguindo", contou à polícia.

Em seguida, Adriana também ordenou que ele voltasse para o interior do mercado. "(Ele) então subiu até o banheiro e lavou as mãos que estavam ensanguentadas", acrescentou.

Funcionários relatam situações com Beto em unidade

Três funcionários do Carrefour relataram à polícia duas situações passadas com Beto na unidade da zona norte. Porém, apenas um deles presenciou as cenas, enquanto os outros dois souberam por outras pessoas. Um fiscal disse que, em 15 de novembro, Beto entrou no mercado "apresentando visíveis sinais de embriaguez e/ou drogadição", segundo trecho do depoimento.

Câmeras de segurança registraram os últimos momentos de João Alberto Silveira Freitas no Carrefour, em Porto Alegre - Divulgação/Polícia Civil  - Divulgação/Polícia Civil
Câmeras de segurança registraram os últimos momentos de João Alberto Silveira Freitas no Carrefour, em Porto Alegre
Imagem: Divulgação/Polícia Civil

Alguns clientes "reportaram aos funcionários da loja que estariam sendo importunados" por Beto que "estabelecia contato verbal e físico não consentido com os clientes". A partir daí, ele passou a ser acompanhado pelas câmeras de videomonitoramento, quando foi flagrado se aproximando de uma mulher e uma criança.

Uma fiscal se deslocou até o local e conversou com a mulher que "não assumiu conhecer a vítima, embora não tenha negado". Beto seguiu sendo monitorado até a mulher chegar ao caixa, quando se identificou que ela era a esposa dele. O fiscal, que relatou a situação à polícia, foi questionado no que consistia o contato físico não consentido de Beto: "a vítima estaria abraçando pessoas no interior do estabelecimento".

Já outro fiscal, que chamou atenção de Adriana, relatou aos investigadores que Beto "teria pego um aparelho celular em uma mesa de demonstração e batido com o aparelho dizendo aos seguranças: "vocês vão me prender?". Não é especificado o dia em que a situação acontece. Entretanto, o fiscal salienta que ouviu a história de outro colega.

O que dizem as defesas

A advogada de Adriana, Karla da Costa Sampaio, disse ao UOL que só se manifestaria após a conclusão da investigação. Entretanto, disse desconhecer do depoimento do fiscal que alertou a sua cliente sobre sua conduta. "A Adriana não tinha ascendência hierárquica sobre os seguranças."

Além disso, negou que sua cliente tentou impedir a gravação das agressões por um motoboy, apesar das gravações já circularem desde a última quinta-feira (19). "Não é verdade. Mesmo com a gravação, há um contexto, existe justificativa", pontuou.

Já o advogado David Leal da Silva, que defende Silva, afirmou ao UOL que seu cliente deveria "responder no máximo" por lesão corporal seguida da morte de Beto e não por homicídio triplicamente qualificado. "Ele não queria, de forma alguma, a morte (do cliente)."

"Enquanto o senhor Alberto estava no chão, ele (Silva) dava alguns tapas e alguns socos ainda. Então, esses tapas e socos que ele deu ainda quando o senhor Alberto estava caído causaram lesões superficiais. Essa é a descrição de um dos peritos que foi mencionada pela delegada (Roberta Bertoldo, responsável pela investigação). Demonstra que não foi o que causou a morte", frisou.

UOL também tentou contato com o advogado de Magno Braz Borges, mas não obteve retorno

Entenda o caso

Beto foi morto na última quinta-feira (19) no Carrefour da zona norte de Porto Alegre. Segundo a esposa dele, Milena Borges Alves, 43, o casal foi ao supermercado para comprar ingredientes para um pudim de pão e adquirir verduras. Gastaram cerca de R$ 60. Ela conta que ficaram poucos minutos no Carrefour e que Beto saiu na frente em direção ao estacionamento. Ao chegar ao local, Milena se deparou com o marido se debatendo no chão. Ele chegou a pedir ajuda, mas a esposa foi impedida de chegar perto dele.

João Alberto era casado e pai de quatro filhas de outros casamentos. Na foto, ele com a esposa e a enteada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João Alberto Silveira Freitas e a esposa, Milena Borges Alves (e); ele foi espancado em uma loja do Carrefour em Porto Alegre e morreu
Imagem: Arquivo pessoal

Ontem, UOL teve acesso ao vídeo que mostra as agressões no estacionamento. A gravação começa com Beto desferindo um soco no PM temporário, que é seguida por chutes, pontapés e socos do segurança e do PM temporário.

A maior parte das imagens mostra a imobilização com uso da perna flexionada do segurança sobre as costas de Beto. O uso da "técnica" pode ter se estendido por mais tempo além dos 4 minutos, já que o vídeo foi cortado. Nos Estados Unidos, George Floyd foi mantido por 7 minutos e 46 segundos com o joelho do policial sobre o pescoço dele, segundo os promotores de Minnesota. No sábado, UOL havia mostrado imagens do momento de Beto no caixa, antes de descer para o estacionamento com os seguranças.

A morte de Beto gerou protestos em Porto Alegre e em outras partes do país. Na capital gaúcha, um grupo de 50 pessoas conseguiu acessar o pátio do mercado, mas recuar após atuação da Brigada Militar. Uma pessoa conseguiu invadir e pichou a fachada do prédio. Outros colocaram fogo em materiais.

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