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Família de João Alberto se reúne com parlamentares; viúva se diz 'perdida'

Pai de Beto (de camisa xadrez), João Batista, e a viúva de Beto, Milena Borges Alves (de preto à esquerda) foram ouvidos por deputados federais - Hygino Vasconcellos/UOL
Pai de Beto (de camisa xadrez), João Batista, e a viúva de Beto, Milena Borges Alves (de preto à esquerda) foram ouvidos por deputados federais Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

01/12/2020 12h41Atualizada em 01/12/2020 12h41

Integrantes da comissão externa da Câmara dos Deputados reuniram-se hoje com familiares de João Alberto Silveira Freitas, 40, cliente negro que morreu após ser espancado por seguranças do Carrefour da zona norte de Porto Alegre, em 19 de novembro. O encontro ocorreu no auditório de um hotel da cidade. Estiveram presentes o pai de João Alberto, o pastor João Batista, 65, e a viúva Milena Borges Alves, 43.

A comissão externa foi criada na semana passada para acompanhar as investigações. Na agenda de hoje estão encontros com a Polícia Federal, com o governador do Estado, Eduardo Leite (PSDB), com a chefe da Polícia Civil, delegada Nadine Anflor, entre outros.

A deputada Maria do Rosário (PT) foi uma das primeiras a chegar ao local e conversou com o pai de Beto, como era conhecida a vítima, e com Milena. Quando outros parlamentares ingressaram no auditório, a viúva de Beto já estava em prantos. "Não estou muito bem", disse Milena ao UOL. Minutos depois, em uma roda de conversa, ela comentou sobre o sentimento de vazio após a morte do marido.

Deputada Maria do Rosário (PT), foi uma das primeiras a ouvir a viúva de Beto e o pai dele - Hygino Vasconcellos/UOL - Hygino Vasconcellos/UOL
Deputada Maria do Rosário (PT), foi uma das primeiras a ouvir a viúva de Beto e o pai dele
Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL

"Ele que tomava a frente das coisas. Ele que decidia. Nesse sentido estou bem perdida. Nunca pensei que uma ida no mercado iria acontecer esse tipo de coisa. A gente quer justiça. Ele era uma casa cheia, um cara com saúde. Era alegre, estava sempre cantando, dançando, ajudava em casa", contou Milena.

O pai de Beto também lamentou a perda.

"É uma dor muito horrível, não desejo isso para ninguém. E até vou falar mais, quero orar, pedir a Deus para que nunca outra pessoa passe por isso. A gente tem aquela ideia de que nunca iria acontecer. Infelizmente aconteceu. É uma dor horrível, mas aguardo justiça. O que eu posso fazer é aguardar por justiça. E é assim que estou me sentido", salientou o pastor, que neste momento abaixou a cabeça e conteve as lágrimas, sendo consolado pelo deputado Damião Feliciano (PDT-PB), coordenador da comissão.

Viúva e deputados acreditam em motivação racial

A viúva chegou a ser questionada na roda de conversa se entendia a morte do marido como um ato de racismo. "Sim. Acredito que alguma coisa falaram para ele (no meio do caminho das caixas até ao estacionamento), de ter chamado de negro, algo assim. Para ele ter reagido daquela forma (do fato de Beto ter dado o soco no segurança)", entende Milena.

"Ninguém ataca com aquela fúria por uma razão que não seja muito grave. Não posso acreditar que a fúria com a qual atacaram meu filho não seja racismo. A vida do meu filho não vai voltar mais, mas eu aguardo por justiça", complementou o pai de Beto.

Durante a roda de conversa, a deputada federal Benedita da Silva (PT) observou que a população negra sofre preconceito diariamente. "Nós vimos nessa morte causa racial. Vontade era destruir. Nada, absolutamente nada justifica o que aconteceu ali. Que não seja em vão, que isso nunca mais aconteça", salientou.

Para o UOL, a parlamentar observou que, segundo entendimento próprio e a partir da manifestação de juristas, há elementos suficientes que indicam a existência de crime de racismo no caso de João Alberto. "Essa prática de racismo existiu nessa ação e cabe a nós, como legisladores, também colocar na pauta todos os projetos que lá estão em relação a essa questão, do combate do racismo e do combate do racismo estrutural, de instituições, que podem ser públicas ou de iniciativa privada", observou, salientando que após a conclusão dos trabalhos da comissão, um projeto de lei será apresentado exigindo mudanças.

"O racismo é o crime perfeito. Quem denuncia vira o vilão e quem comete vira mocinho", comentou o árbitro de futebol Márcio Chagas (PSOL), que concorreu a vice-prefeito pela sigla em Porto Alegre.

Caso João Alberto

João Alberto Silveira Freitas, foi morto em 19 de novembro no Carrefour da zona norte de Porto Alegre. Segundo Milena, o casal foi ao supermercado para comprar ingredientes para um pudim de pão e adquirir verduras. Gastaram cerca de R$ 60. Ela conta que ficaram poucos minutos no Carrefour e que Beto saiu na frente em direção ao estacionamento. Ao chegar ao local, Milena se deparou com o marido se debatendo no chão. Ele chegou a pedir ajuda, mas a mulher foi impedida de chegar perto dele.

João Alberto era casado e pai de quatro filhas de outros casamentos. Na foto, ele com a esposa e a enteada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João Alberto Silveira Freitas e a esposa, Milena Borges Alves (e); ele foi espancado em uma loja do Carrefour em Porto Alegre e morreu
Imagem: Arquivo pessoal

Imagens de câmeras de segurança mostram a circulação de Beto na área dos caixas e as agressões no estacionamento. A gravação mostra Beto desferindo um soco no PM temporário, o que é seguido por chutes, pontapés e socos do segurança e do PM temporário.

A maior parte das imagens mostra a imobilização com uso da perna flexionada do segurança sobre as costas de Beto. Nos Estados Unidos, George Floyd foi mantido por 7 minutos e 46 segundos com o joelho do policial sobre o pescoço dele, segundo os promotores de Minnesota.

No mesmo dia da morte de Beto os dois seguranças foram presos. Cinco dias depois ocorreu a prisão da fiscal de fiscalização do Carrefour Adriana Alves Dutra, 51 anos.

A morte de Beto gerou protestos em Porto Alegre e em outras partes do país. Na capital gaúcha, um grupo de 50 pessoas conseguiu acessar o pátio do mercado, mas recuou após atuação da Brigada Militar. Uma pessoa conseguiu invadir e pichou a fachada do prédio. Outros colocaram fogo em materiais.

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