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Cotidiano

Quem mora em área nobre de SP vive 23 anos a mais que morador da periferia

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

21/10/2021 10h00

Em Alto de Pinheiros, área nobre da capital paulista, a idade média ao morrer da população foi de 80,9 anos em 2020. A quase 40 km de distância, em Cidade Tiradentes, bairro da periferia da zona leste, não se chega nem à faixa da terceira idade: a idade média foi de 58,3 anos.

Essa diferença, que aponta que uma pessoa pôde viver cerca de 23 anos a mais em razão do local onde mora, é "um dos dados mais chocantes" do Mapa da Desigualdade, diz o coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, responsável pelo levantamento. "Ele traduz o grau de desigualdade que a gente tem na cidade mais rica do país e da América Latina."

Hoje, a organização divulgou a edição deste ano do relatório, que analisa a realidade dos 96 distritos da capital paulista. Com relação à idade média ao morrer, 42 estão abaixo da taxa geral da cidade, que é de 68,2 anos.

idade - Reprodução - Reprodução
Idade média ao morrer mostra disparidade entre áreas nobres e periféricas na cidade de São Paulo
Imagem: Reprodução

Para Abrahão, o dado mostra um "resumo dessas desigualdades" na capital paulista, ao fazer referência especificamente aos bairros com os piores números.

"É a infraestrutura urbana. Ela traduz um pouco da habitação, do acesso à água, ao saneamento básico. Traduz também um acesso mais precário à saúde e à educação. Além do homicídio de jovens, que acontecem mais nessas regiões, e da mortalidade infantil, que, nesses bairros, é maior", diz o coordenador da Rede Nossa São Paulo.

Nós temos capacidade de gerar riqueza, mas somos incapazes de distribuir isso. Acho que esse é um grande desafio."
Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo

Maior idade média ao morrer em São Paulo:

  1. Alto de Pinheiros (zona oeste): 80,9 anos
  2. Jardim Paulista (zona oeste): 80,4 anos
  3. Itaim Bibi (zona oeste): 80,3 anos
  4. Moema (zona sul): 79,5 anos
  5. Pinheiros (zona oeste): 79,5 anos
  6. Vila Mariana (zona sul): 79 anos
  7. Santo Amaro (zona sul): 78,7 anos
  8. Consolação (centro): 78,6 anos
  9. Perdizes (zona oeste): 78,2 anos
  10. Lapa (zona oeste): 77,9 anos

Menor idade média ao morrer em São Paulo:

  1. Cidade Tiradentes (zona leste): 58,3 anos
  2. Anhanguera (zona norte): 58,6 anos
  3. Parelheiros (zona sul): 59,2 anos
  4. Iguatemi (zona leste): 60,1 anos
  5. São Rafael (zona leste): 60,3 anos
  6. Grajaú (zona sul): 60,4 anos
  7. Jaraguá (zona norte): 61,1 anos
  8. Lajeado (zona leste): 61,2 anos
  9. Jardim Ângela (zona sul): 61,2 anos
  10. Perus (zona norte): 61,4 anos

"Equação trágica"

Assessor de mobilização da Rede Nossa São Paulo, o doutor em sociologia e políticas públicas Igor Pantoja ressalta que a população das áreas periféricas sofre independentemente da faixa etária.

"Crianças e jovens estão mais expostos à vulnerabilidade territorial. Idosos também vão estar em menor número porque a vida vai ser mais difícil, sem ter condição de chegar à uma velhice plena", diz. "Isso abaixa a idade média de mortes naquele distrito."

Em comum, os bairros com as menores médias são densos e sofrem com a falta de equipamentos públicos. "É uma equação trágica. Onde mais se precisa e, na verdade, é onde está se falhando. Então é uma questão de prioridade de planejamento."

A expectativa, porém, é que a situação passe a melhorar em razão do investimento de R$ 5 bilhões nas áreas periféricas ao longo de quatro anos.

cidade tiradentes - 5.out.2021 - Marcelo Justo/UOL - 5.out.2021 - Marcelo Justo/UOL
Crianças brincam em área sem estrutura em Cidade Tiradentes; Rede Nossa São Paulo afirma que mais investimentos poderiam mudar a realidade na periferia
Imagem: 5.out.2021 - Marcelo Justo/UOL

Gargalos

Para Pantoja, um objetivo importante seria ao menos elevar para 65 anos a idade média de morte em Cidade Tiradentes. "Seria uma grande conquista", diz. Abrahão concorda: "Se um prefeito quisesse reduzir pela metade essa diferença, ele faria uma política pública em que teria que estar atacando efetivamente os temas que provocam desigualdade".

"Teria que reduzir violência contra jovens, mortalidade infantil, melhorar a saúde, avançar na questão da infraestrutura", diz o coordenador. "Você sabe o que é o gargalo. Mas, a curto prazo, é possível resolver", diz Pantoja.

Com a pandemia, a situação deve piorar os dados relativos a 2021, com a média de idade caindo devido ao alcance da covid. "São as pessoas que moravam nos lugares mais precários que morreram mais", diz Abrahão. "A comorbidade do território, que é uma coisa de difícil percepção, é uma fragilidade da sociedade."

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