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1 mês

SP: Temporal que causou terror em voo foi previsto; alerta saiu horas antes

Trajeto do voo da Azul que teve forte turbulência em SP - Reprodução/FlightRadar24
Trajeto do voo da Azul que teve forte turbulência em SP Imagem: Reprodução/FlightRadar24

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

26/10/2021 17h05

Um alerta de "grande perigo" quanto a tempestade, incluindo rajadas de ventos de mais de 100 km/h, granizo e correntes ascendentes e descendentes, que oferecem riscos conhecidos à aviação, foi emitido horas antes do voo AD 5069, da Azul, decolar de Campinas (SP), com destino a Presidente Prudente (SP), no último sábado (23). Passageiros relataram ter vivido momentos de terror durante a viagem, que deveria levar apenas 1h30, durou o dobro e teve que ser completada horas depois, de ônibus.

Segundo o mestre em ciência ambiental e meteorologista do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) Franco Villela, o órgão emitiu aviso, na manhã do sábado, para o sudoeste de São Paulo e outras regiões, começando às 17h daquele dia e terminando às 3h do domingo (24). A companhia aérea decidiu manter o voo, que deixou o Aeroporto de Viracopos às 22h05. A previsão era de chegar ao destino às 23h35, mas, sem condições de pouso, a aeronave só voltou ao solo à 0h56, no Aeroporto de São José do Rio Preto (SP).

"As previsões já indicavam, dias antes, a forte instabilidade atmosférica e o potencial elevado para tempo severo. O aviso publicado contemplava possibilidade de ventos em superfície com rajadas acima de 100 km/h; chuva com mais de 60 mm/h ou com mais de 100 mm/dia e ainda possibilidade de queda de granizo".

Mapa do alerta para tempestades de grande perigo, emitido pelo Inmet na manhã do dia 23 - Reprodução/Inmet - Reprodução/Inmet
Mapa do alerta para tempestades de grande perigo, emitido pelo Inmet na manhã do dia 23
Imagem: Reprodução/Inmet

Uma linha de instabilidade foi criada na região, com a presença de correntes ascendentes e descendentes, que, segundo o especialista, diante de sua dimensão, era inviável de ser contornada. "As imagens de satélite e dos radares de Presidente Prudente e Bauru demonstram que as previsões estavam corretas e que, por se tratar de uma extensa linha de instabilidade contínua, não havia como se contornar as tempestades, devido à sua longa extensão de mais de 250 km em curvatura, além de outras linhas de instabilidades vicinais que vieram a se mesclar à principal", conclui.

A meteorologista Dóris Palma, do Climatempo, explicou que a chuva intensa que atingiu o estado de São Paulo no último sábado foi uma combinação de vários fatores. Mas, principalmente, a passagem de uma frente fria pela costa das regiões Sul e Sudeste do Brasil; um sistema de baixa pressão atmosférica que atuava na altura do Paraguai; e também um fluxo contínuo de calor e umidade, que vinha desde a região amazônica e atingiu o Estado.

"Por isso tivemos a formação de uma linha de instabilidade. Ou seja, várias células de tempestade que se organizaram na forma de uma linha e avançaram desde o estado do Paraná até o interior paulista", explicou. "Essas linhas de instabilidade são compostas por nuvens de tempestade que possuem um grande desenvolvimento vertical, com correntes ascendentes e descendentes de ar dentro delas e também uma alta atividade elétrica, com muitos raios".

Segurança

O Inmet esclarece, no entanto, que a previsão das condições climáticas, disponível ao grande público, pode diferir dos dados, atualizados em tempo real, que envolvem o negócio da aviação. Os órgãos responsáveis pela emissão de previsões aeronáuticas são o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), uma organização do Comando da Aeronáutica (Comaer) e a Infraero/ NAV Brasil Serviços de Navegação Aérea.

Em nota, a Aeronáutica reforça que disponibiliza informações de alertas de condições adversas do tempo e que o plano de voo dos pilotos devem tomar ciência das condições meteorológicas na rota, nos aeródromos de destino e de alternativas. "Por intermédio da Rede de Dados Meteorológicos (Redemet), são emitidas e disponibilizadas aos usuários mensagens de alerta de condições severas de tempo, 24 horas por dia, para rota e aeródromos", informa, adicionando ainda que "no dia 24 de outubro de 2021, o aeródromo de Campinas esteve fechado diversas vezes entre 0h e 8h, com ventos em torno de 70 km/h".

Para o especialista em aviação e tenente-coronel da reserva da PM Roberto Alves, que pilotou regularmente, por 14 anos, helicópteros e aviões, todos os voos são autorizados após consulta das condições meteorológicas do momento. Ele explica que, mesmo que as equipes de controladores de tráfego tenham recebido um boletim com alertas sérios, as condições meteorológicas em tempo real, no momento do voo, podem oferecer outra leitura.

Ao avaliar o trajeto voo AD 5069, Alves se disse impressionado com o desvio impressionante da rota. "Esse cenário, sinceramente, eu nunca vi igual. [...] Não é uma situação simples, porque o piloto não pode simplesmente sair da sua rota estabelecida no plano de voo. O risco de se chocar contra outra aeronave ou causar qualquer outro tipo de acidente é alto. Cada avião tem que seguir a sua rota e mudar isso exige toda uma logística que é executada em terra".

Medo generalizado

banheiro - Cortesia - Cortesia
Força da turbulência chegou a comprometer o banheiro da aeronave, segundo passageira que disponibilizou foto ao UOL, mas não quis se identificar
Imagem: Cortesia

O casal Thiago Benvenho, de 37 anos, e Dayane Carrara, de 32, voltava de férias de Porto Seguro (BA) para Presidente Prudente e fez conexão em Campinas. Segundo o corretor de seguros e técnico em segurança do trabalho, o episódio se resume a "quase duas horas de terror" nunca sentidas antes.

"O avião simplesmente começou a ser puxado para baixo, com o bico inclinado. De repente, subia de novo. Mas logo era puxado para baixo novamente." Ele conta que o impacto era tão violento que os compartimentos de bagagem se abriram e malas, bolsas e objetos começaram a despencar sobre os passageiros e que, como uma comissária de bordo que chegou a ser lançada contra o teto da aeronave, ele também foi atingido.

"Eu, que estava com o cinto de segurança afivelado, bati duas vezes a cabeça no teto do avião. Meus braços ficaram com várias marcas roxas. Quando olhei pela janela, vi que tínhamos sido engolidos por uma tempestade de areia. Um redemoinho, porque puxava o avião para baixo. A sensação era de queda livre", lembra.

A ocorrência de uma nova tempestade de areia em São Paulo não chegou a ser confirmada pelos órgãos oficiais. Ao UOL, a meteorologista do Climatempo, no entanto, explica que essa é uma possibilidade coerente. "A ocorrência de redemoinhos de vento não pode ser descartada. As nuvens que passaram sobre SP eram típicas de temporal com ventania. Um novo episódio de levantamento de areia também seria possível, já que o solo em São Paulo ainda não está completamente umedecido".

Dayane também diz se lembrar de ver areia durante a tempestade e conta que eles estavam sentados próximos às asas do avião, só conseguindo pensar na filha, Lorena, de 4 anos, que os esperava com os avós, no aeroporto.

"Eu achei que a gente fosse morrer, já começava a imaginar que nunca mais iria ver minha filha. Não dava para pegar celular, ligar, avisar. Crianças que estavam com os pais no voo gritavam de pânico e choravam muito, foi desesperador. Daí começamos a rezar o Pai Nosso, todos que estavam no avião, a uma só voz. Na verdade, todos começaram a berrar o Pai Nosso, como se para Deus conseguir ouvir."

Passado o susto, o casal diz não entender as razões pelas quais a companhia aérea autorizou o voo. Eles contam que um casal de amigos que estava com eles em Porto Seguro havia partido mais cedo, também no sábado. Eles fariam um voo direto por outra companhia aérea, mas acabaram tendo que fazer conexão em Bauru, justamente para esperar a melhora das condições do clima, só partindo quando havia condições de pouso em Presidente Prudente. De fato, segundo dados do Flightradar24, que registra o itinerário de voos em todo o mundo, o voo em questão chegou após as 20h ao destino final, sofrendo um atraso de ao menos duas horas do previsto.

Alguns passageiros utilizaram as redes sociais para falar sobre o episódio. É o caso de Daniel Freitas, que estava no voo. Ele escreveu em um comentário no Instagram que somente quem estava dentro da aeronave sabe o que é pensar que o avião vai cair. "Depois de tanta turbulência, desespero, gritaria, oração e choro consegui colocar os pés no chão e agradecer por estar vivo".

"Eu estava lá, foram momentos de aflição. Só quem viveu sabe", comentou Gabriel Salviano, outro passageiro do voo, em um post no Instagram. "Foi mais de uma hora com o avião dando voltas e a gente sem saber o que estava acontecendo. Nunca tinha passado por algo assim. Teve uma hora que até bati a cabeça no teto. Mas Deus é bom e deu tudo certo".

Sem comentários

O UOL entrou em contato com a companhia aérea Azul, responsável pelo voo, para aprofundar os detalhes do ocorrido e a questão das condições climáticas que envolveram o voo. A empresa se recusou a comentar o ocorrido e repetiu o comunicado oficial emitido ontem.

Confira, na íntegra, a nota da companhia:

"Em relação ao voo AD 5069, que fazia neste domingo (24) o trajeto entre Campinas e Presidente Prudente, a Azul informa que o mesmo teve sua rota alternada para o aeroporto de São José do Rio Preto devido às condições climáticas no aeroporto de destino. Durante o trajeto, houve uma forte turbulência e alguns clientes e tripulantes não se sentiram bem. O pouso e o desembarque aconteceram normalmente e os clientes e tripulantes que desembarcam em São José do Rio Preto receberam todo o atendimento necessário da equipe local da Azul, sendo reacomodados via terrestre até Presidente Prudente".

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