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Cotidiano

Boate Kiss: Júri é marcado por bate-boca entre testemunha, advogados e juiz

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

03/12/2021 12h22

O início do terceiro dia de julgamento dos quatro acusados pelo incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), foi marcado por gritaria e bate-boca durante o depoimento do administrador de empresa Daniel Rodrigues da Silva, 40. Ele foi o sétimo a ser ouvido no Tribunal do Júri, em andamento desde a última quarta-feira (1º) em Porto Alegre.

Na época da tragédia, Silva trabalhava na loja que vendeu os artefatos pirotécnicos utilizados dentro da casa noturna.

O material foi comprado pelo produtor musical Luciano Bonilha e, no dia do incêndio, foi entregue para o vocalista da Banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos. Ambos são réus no processo, assim como os sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido por Kiko, e Mauro Londero Hoffmann.

Após ser aceso, o artefato entrou em contato com uma espuma e as chamas se alastraram, gerando correria e tumulto. Ao todo, 242 pessoas morreram e outras 636 ficaram feridas.

A gritaria e o bate-boca no tribunal ocorreram em dois momentos diferentes, com uma diferença de 20 minutos entre cada situação. Nas duas ocasiões, o administrador estava sendo interpelado pelos advogados de Bonilha.

A primeira vez ocorreu após o administrador se recusar inicialmente a responder se a loja dele havia sido fechada pela Polícia Civil após a tragédia na boate. "No que isso é relevante?", questionou a testemunha.

Na sequência, o advogado Jean Severo disse que ele era obrigado a responder. "Não vou responder, não sou obrigado", disse o administrador. "Claro que tu é obrigado, sim!! Não começa, tu tem que responder! Tu botou esse rapaz aqui", disse Severo, aos gritos, se referindo ao seu cliente. "Ele colocou esse inocente aqui, ele colocou", complementou o advogado.

O juiz Orlando Faccini Neto pediu calma, mas o bate-boca continuou. "Vamos ter um pouco de contenção, que é isso?", disse o magistrado. Severo voltou a gritar, sendo interrompido pelo juiz.

"Só um minuto, doutor, aqui não é competição de quem grita mais alto. Se for, eu falarei mais alto. O senhor aguarde, o senhor aguarde, por favor, a pergunta vai ser formulada. Eu considero a pergunta relevante, só vamos esperar um pouco", repreendeu o magistrado.

O administrador voltou a perguntar ao juiz se era obrigado a responder a pergunta. "Sim, é obrigado porque existe um tipo penal, um crime, que é o falso testemunho, que diz que, se a testemunha faltar com a verdade, ou também omitir, isso pode dar problema", explicou Faccini Neto.

Silva afirmou que a loja foi multada em 2015 por armazenamento inadequado de produtos, o que gerou multa. "Eu recebi uma mercadoria, que não pode ser remetida a minha loja. Ela foi direcionada a uma garagem, houve uma denúncia por parte dos vizinhos e essa mercadoria foi devolvida para a empresa que me forneceu", completou.

"Deixa a ignorância falar sozinho", diz testemunha

Minutos depois, a testemunha foi questionada se vendia um tipo específico de fogos de artifício, chamado Sputnik, avulso, fora da caixa, ou seja, sem as instruções de uso.

O administrador negou e, então, a defesa de Bonilha apresentou uma nota fiscal de 6 de fevereiro de 2013, na qual consta a comercialização de uma unidade do artefato por R$ 2,50. Em seguida, questionou o administrador por que ocorreu essa venda, o que ele disse desconhecer.

O juiz interveio e questionou os advogados sobre quem teria feito a compra. "[Foi] O Omar. Na verdade, doutor, essa nota está juntada no processo, salve engano, [pelo] antigo advogado, não me lembro de qual dos acusados", disse o advogado.

"Certo. Está excluído do mundo a possibilidade de o advogado ter provocado isso, no sentido de falar: 'Olha, vocês vendem a unidade ou não, ou isso partiu do pessoal da loja? Ou não se tem conhecimento?', questionou o juiz, sendo respondido que a nota era antiga, de defesa anterior.

Foi quando Severo voltou a se exaltar. "Só que ele comprou, né. É ilegal vender assim. A loja é ilegal, tudo é ilegal, tudo é ilegal, tudo é ilegal, a loja é ilegal, explosivo é ilegal", disse o advogado. O administrador disse que não estava ali na condição de acusado. "Deveria estar sentado aqui [no banco dos réus]", gritou Severo.

Até mesmo o promotor David Medina da Silva entrou no bate-boca. "Todo mundo deveria estar sentado aí", disse o representante do MP. Severo rebateu e observou que inclusive o Ministério Público deveria constar como réu. "Vocês querem desvirtuar o julgamento", disse um integrante do MP. "Que desvirtuar nada", novamente rebateu o advogado de Bonilha.

O juiz tentou parar com o bate-boca. "Vamos parar, nós não vamos caminhar desse trecho. Chega, chega, vamos parar dez minutos. Doutor Jean, hoje não tá legal, hein? Hoje não tá legal, hoje não tá legal", disse Faccini Neto.

Severo disse que havia um inocente entre os réus —se referindo ao seu cliente— o que fez o administrador questionar: "Inocente, doutor?". "É inocente, sim. É inocente sim, tu sabe! Tu sabe", voltou a falar o advogado. Da Silva novamente rebateu: "Deixa a ignorância falar sozinha".

Por fim, o magistrado novamente repreendeu Severo. "Doutor, eu vou lhe dizer uma coisa. A próxima que o senhor fizer, não vai ficar aqui. A bancada de defesa é muito grande, o senhor me respeite", disse Faccini Neto.

Na sequência, o advogado ameaçou deixar o julgamento, foi quando houve nova intervenção do juiz, chamando um intervalo.

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