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Cotidiano

'Achei que fosse água, mas as gotas me queimaram', diz sobrevivente da Kiss

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

02/12/2021 11h42Atualizada em 02/12/2021 13h46

A ida à boate Kiss, em Santa Maria (RS), deveria ser motivo de comemoração pelo aniversário dos irmãos gêmeos Emanuel de Almeida e Guilherme Pastl. Porém, eles acabaram no meio de um incêndio que matou 242 pessoas e deixou 636 feridos.

Os dois sobreviveram, mas as memórias daquele dia são nítidas para Emanuel. Ele foi o primeiro a depor hoje no julgamento dos quatro réus acusados pelo incêndio na casa noturna.

No tribunal, Pastl contou que era a primeira vez que ia à casa noturna. Na época, ele morava em Porto Alegre, enquanto o irmão residia em Santa Maria. No momento do incêndio, os dois estavam próximos da saída, mas não conseguiram ver o que se passava no palco ou na pista de dança. Segundos depois, a fumaça chegou até eles, em tom cinza.

"Começou o tumulto, as pessoas se começaram a se chocar. Tinha iluminação e música de fundo. As pessoas começaram a se apertar e virou um tumulto", conta.

Nesse tumulto, eu desencontrei do meu irmão. De repente teve um momento significativo da presença de fumaça da camada respirável e [aumento] de temperatura também. Numa situação insuportável. As pessoas entraram em estado de pânico, começaram a se atropelar, a se puxar, se empurrar."
Emanuel de Almeida Pastl, sobrevivente do incêndio da boate Kiss

A situação ficou ainda mais crítica quando as luzes se apagaram. Pastl puxou o celular para iluminar o chão, mas foi empurrado e o aparelho caiu no chão.

"Eu me abaixei para pegar o celular, bateram em mim novamente e eu caí no chão. Eu me lembro de que ali no chão estava realmente muito fresco, mas, mesmo assim, eu fiz um esforço para levantar e fui indo em direção à saída de emergência. Começou a pingar alguma coisa e eu pensei: os chuveiros automáticos estão funcionando, na minha cabeça. Mas não era, era uma coisa quente, me queimando, gotejando em mim, saí pela porta lateral direita e fui para rua."

O jovem conseguiu deixar o local, com queimaduras nos braços de 2º e 3º graus.

'Tive síndrome do pânico'

Pastl foi inicialmente levado para o Hospital de Caridade, mas depois foi transferido por ambulância para o Hospital da Ulbra, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Ele ficou dez dias internado. O irmão foi levado para o mesmo lugar, de avião, e ficou internado por cerca de 20 dias.

Por duas semanas após o incêndio, teve síndrome de pânico. Ele contou que ficou com cicatrizes na pele e que, no dia do incêndio, teve queimaduras nos olhos. Hoje também convive com bronquiolite no pulmão. "Fiz um tratamento psicológico de dois a três meses. Me considero 'normal' psicologicamente falando", relatou.

Na época, Pastl fazia engenharia de minas e, após a tragédia, se especializou em engenharia de segurança e de incêndios. No depoimento, contou ainda que conheceu a mulher no hospital. "Minha esposa fazia meus curativos nas minhas feridas, em decorrência disso nós nos casamos. Nós nos conhecemos no hospital e decidimos nos casar."

Sobrevivente relata ter visto faísca

jessica - Reprodução/TJ-RS - Reprodução/TJ-RS
Jéssica Montardo Rosado chora ao prestar depoimento
Imagem: Reprodução/TJ-RS

A sobrevivente Jéssica Montardo Rosado, 33, foi a quarta pessoa a prestar depoimento. Bastante emocionada e por vezes chorando, ela contou que estava na frente do palco quando presenciou o momento em que o incêndio teve início.

"Estava na frente do palco, escutei uma música antes, nisso eu vi o Luciano [Bonilha, um dos réus] trazer uma luva e botou na mão do Marcelo [de Jesus dos Santos, também réu], até que ele ficou com a luva para trás. E na hora da música ele só levantou a mão no refrão e daí foi acionado o fogo. Mas foi questão de segundos", diz.

"Eles estavam tentando apagar [o fogo] com garrafa d'água, com extintor, não sei se funcionou, se não funcionou, não prestei muito atenção. E eu lembro a cena de o Marcelo largando o microfone no chão e me olhando bem no olho e dizendo 'sai'", contou a sobrevivente, que pediu para não usar máscara no depoimento por ter ficado traumatizada com lugares fechados.

A jovem disse que praticamente correu em linha reta em direção à porta.

Eu me direcionei para a porta, voltei, tentei procurar meu irmão. Não enxerguei, tinha muita gente. Fui andando no fluxo. E esse percurso todo não me lembro. Eu só lembro a hora que eu tropecei, caí entre as duas portas e levantei. Quando eu olhei para trás, eu me apavorei, era muita gente saindo, um por cima dos outros."
Jéssica Montardo Rosado, sobrevivente

Do lado de fora, Jéssica ligou para os pais e avisou que o irmão, na época com 26 anos, ainda estava na boate. "Eu tentei voltar várias vezes, não me deixaram, puxavam pelo cabelo, pelo braço."

Ela ficou por volta das 5h30 no local e depois foi para casa, onde a família recebeu uma ligação.

"Eu gritava muito, estava desesperada, meu irmão era a melhor coisa que tinha na vida."

Só soube depois que o irmão havia ajudado outras pessoas a sair da casa noturna. "As pessoas acreditam que entre 14, 15 pessoas [que ele ajudou a sair]. Cada vez que ele ia, ele voltava com dois. Acho que no pensamento dele eu ainda estava lá dentro."

1º dia

Ontem, no primeiro dia do Tribunal do Júri em Porto Alegre, duas pessoas prestaram depoimento. A ex-funcionária da boate Kiss Kátia Giane Pacheco foi a primeira a falar. Ela estava trabalhando na cozinha da boate naquele dia e teve 40% do corpo queimado.

Na sequência, prestou depoimento a terapeuta ocupacional Kellen Giovana Leite Ferreira, 28. Ela teve queimaduras em 18% do corpo, teve o pé amputado e ficou 78 dias internada.

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