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4 meses

Escola diz que arco-íris, Che Guevara e unicórnio são símbolos antifamília

A escola Recanto do Espírito Santo fica em Itaúna, no interior de Minas Gerais - Reprodução/Instagram
A escola Recanto do Espírito Santo fica em Itaúna, no interior de Minas Gerais Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

18/01/2022 14h12Atualizada em 19/01/2022 06h32

Uma escola particular de Itaúna (MG), a 80 km de Belo Horizonte, vem gerando polêmica após divulgar, na última quarta-feira (12), uma cartilha em que recomenda o não uso de materiais escolares que exibam símbolos eleitos como "antifamília" pela instituição. Entre as imagens destacadas pela diretoria do Recanto do Espírito Santo, estavam a de um arco-íris, por representar a bandeira LGBTQIA+, representações de unicórnios, signos de foice e inscrições ou desenhos que fazem alusão ao argentino Che Guevara.

Uma denúncia foi formalizada ontem junto à ouvidoria do Ministério Público de Minas Gerais. Procurada pela o UOL, a instituição informou que deve se manifestar ainda hoje sobre o assunto.

cartilha - Reprodução - Reprodução
Cartilha mostra imagens de Che Guevara e de caveira
Imagem: Reprodução

Segundo informou uma fonte anônima ao UOL, que participou da denúncia, a cartilha foi direcionada aos pais e alunos da instituição, mas começou a circular pelos grupos de WhatsApp em Itaúna. "Vimos isso em um grupo e pensamos que era crime, que se enquadrava como homofobia e transfobia. Então, abrimos uma denúncia anônima com a ouvidoria do MP", disse.

Na cartilha, a instituição critica itens "da moda" e afirma que os pais precisam se atentar aos significados das estampas. "Às vezes é mesmo doloroso ver um filho triste por não ter a mesma mochila, estojo, lancheira, etc que o seu coleguinha tem. Mas dor e frustração fazem parte de uma boa educação e, nesta hora, os pais têm o importante papel de mostrar as razões e defender os seus valores", diz o comunicado.

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O comunicado cita que símbolos são 'antifamília'
Imagem: Reprodução

A primeira parte da lista tem três signos que representam o revolucionário Che Guevara, chamado de "assassino e revolucionário comunista", ao lado de uma caveira, compreendida como parte de uma "cultura de morte", e do símbolo do movimento político anarquista, a qual chamam de "rebeldia completa".

Na sequência, a cartilha mostra uma bandeira de arco-íris, que representa o movimento LGBTQIA+. "As principais ideologias 'antifamília' têm feito de tudo para se instalar em nosso meio e utilizam, principalmente, os materiais infantis e com estampas que parecem ingênuas. O arco-íris que é um símbolo de aliança de Deus com seu povo foi raptado pela militância LGBT, que o utiliza em suas bandeiras que têm, atualmente, seis cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, anil e violeta", diz o documento.

Por fim, o comunicado ainda ressalta que os unicórnios, geralmente representados como "uma figura doce e encantadora" representa um "perigo" atualmente por ser "utilizado por personalidades para identificar alguém de gênero não binário, que não se identifica como homem, como mulher e nem mesmo como um transexual. Ou seja, não se enquadra em nada e vive totalmente sem padrões", diz o texto. "Resumindo, é mais um símbolo contrário aos planos de Deus".

O trecho ainda cita uma campanha do Burger King, lançada em 2018, sobre o Shake Unicórnio para a parada gay de São Paulo como uma representação da "apropriação" da imagem.

A instituição é frequentada por pessoas de classe média alta da cidade. Segundo apurou o UOL, as mensalidades da escola variam de R$ 675, para o curso do maternal, a R$ 985, para crianças do nono ano do ensino fundamental. "É muito revoltante. Eu fiquei muito revoltada de pensar que uma escola está propagando esse tipo de informação. As escolas deveriam estar educando crianças para a sociedade", afirmou a denunciante.

A escola foi fundada no final de 2018 e, conforme informa o site da instituição, foi uma decisão provocada "pelas mudanças sociais e educacionais; pelas perdas dos valores religiosos, espirituais, éticos, morais, e principalmente, por consequência, a fragilização das famílias". Entre as normas da instituição, está a de evitar a celebração do Halloween (Dia das Bruxas) por não ter embasamento católico. "Pior ainda é a exaltação do ocultismo", diz o texto.

"O Halloween é a data mais importante do calendário satânico, na qual cemitérios são profanados, sacrifícios humanos acontecem e ocorre o maior número de desaparecimento de crianças nos EUA, entre outros rituais. É por isso que, aqui no Colégio Recanto do Espírito Santo, não celebramos esta data. O que celebramos é o Dia de Todos os Santos. Eles são nossos modelos! Este é nosso objetivo: a santidade!"

O UOL entrou em contato com a instituição, mas até a publicação desta reportagem, não obteve retorno sobre o assunto. O espaço segue aberto e será atualizado tão logo haja manifestação.

Procurado pelo reportagem, o MPMG (Ministério Público de Minas Gerais) informou que "tomou conhecimento sobre o fato e está colhendo informações para avaliar a abertura de um procedimento investigatório".

Católico

O Colégio Recanto do Espírito Santo é mantida pela Associação Recanto do Espírito Santo, de fundamentação católica, em Itaúna (MG). Ele atende alunos do ensino infantil ao 9º ano do ensino fundamental, com formação tradicional e também religiosa.

Segundo o site da instituição, a unidade de ensino é "mais um dos diversos apostolados da Comunidade Católica Recanto do Espírito Santo que, sob inspiração do Espírito Santo". A escola diz ainda querer contribuir com a educação das crianças e jovens "proporcionando um ensino sem ideologias e sem relativismos levando os educandos à busca e ao conhecimento da verdade perene".

Polêmicas anteriores

No ano passado, a mesma escola foi alvo de uma polêmica ao fazer uma publicação que insinuava que, por conta de vestimentas que não cobrem o corpo, a culpa por assédios sexuais pode ser da mulher. "O pecado da sedutora é muito maior que o da pessoa seduzida", dizia.

Logo após a repercussão, a escola apagou a publicação e postou um novo, dessa vez se desculpando. "Foi feita uma postagem indevida por quem administra nossas redes. Apesar de concordarmos com a modéstia no vestir, o texto em questão deixou margem para interpretações que não são as do colégio. Pedimos desculpa", escreveu a administração do colégio.

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