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Aracruz: Pai de atirador nega tê-lo ensinado a usar armas e relata ameaças

Samu socorre vítimas de ataque de atirador na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Primo Bitti, em Aracruz (ES) - Divulgação/Notaer
Samu socorre vítimas de ataque de atirador na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Primo Bitti, em Aracruz (ES) Imagem: Divulgação/Notaer

Maurício Businari

Colaboração para o UOL

28/11/2022 19h30

O pai do adolescente de 16 anos que invadiu duas escolas em Aracruz (ES) e matou quatro pessoas e feriu outras 12 a tiros disse hoje, em entrevista ao programa "Brasil Urgente", da Band TV, que não ensinou o filho a usar armas. Dizendo-se profundamente abalado, ele relata estar recebendo muitas ameaças pelas redes sociais.

Acompanhado de duas advogadas, o homem disse que está tomado por um sentimento de tristeza profunda. "Pelas perdas, pela atitude do meu filho. O ato que ele cometeu foi um ato terrível, mas o desejo é que chegue até as famílias que foram atingidas, que estão sofrendo, o meu pedido de perdão e de desculpas em nome do meu filho", afirmou.

O policial militar disse ainda que estava lendo o livro "Mein Kempf" (Minha Luta), de Adolf Hitler, porque, como psicanalista, gosta de estudar a mente e o comportamento humano. Ele negou que tivesse comprado o livro para o filho.

"Esse livro foi uma aquisição minha para entender um pouco sobre a questão da mente do autor. Mas vi que ele foge um pouco das ideias e vem muito para a biografia. Então nem continuei a leitura do livro, li menos da metade, abandonei porque não é o que eu esperava para o meu trabalho de desenvolvimento, dos meus estudos do comportamento e da mente humana", afirmou.

Ele negou que o filho tivesse acesso ou sido influenciado pela obra, apesar de o jovem ter usado um símbolo nazista (uma suástica) no momento dos ataques. "Se quem leu o livro fui eu, ele não tinha como aprender o adquirir algum conhecimento com a minha leitura".

As armas, garante, ficavam guardadas em local seguro, trancadas com cadeado. "Mas a chave não ficava comigo o tempo todo. Ele descobriu onde estava essa chave e fez uso da arma", disse.

O PM diz que em momento algum ensinou o filho a atirar. De acordo com o pai do atirador, essas denúncias não passam de notícias falsas, que estão abalando emocionalmente a família. "Fiquei sabendo que ele havia manuseado antes as armas porque ele disse ao delegado. Ele nunca demonstrou interesse algum, nunca perguntou nada. Foi uma surpresa enorme".

Ele afirma que existem muitas fake news circulando na internet, que estão prejudicando sua imagem com "mentiras descabidas".

"Entre elas, que eu ensinei, que eu possa ter dado alguma instrução a ele sobre o uso de armas. Isso é um absurdo. Como policial militar com mais de 25 anos na carreira, como eu vou fazer uma coisa dessas para um filho meu?", questionou o PM. "Temos recebido muitas ameaças por redes sociais, isso está abalando demais a minha esposa, a mim também. Mas é vida que segue", afirmou.

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Atirador almoçou com os pais

No dia dos ataques, o PM e a esposa estavam em Aracruz, fazendo compras, quando ela recebeu mensagem falando sobre o tiroteio no bairro do Coqueiral, onde a família mora.

"Achamos na hora que fosse fake news. Depois, por outras mensagens, soubemos que era verdade. Eu liguei para o meu filho e pedi para que ele trancasse o portão e soltasse o cachorro, que houve tiroteio no bairro, que aparentava ser um assalto, poderia ter bandidos no bairro. Quando chegamos em casa, ele estava tranquilo, nós almoçamos, não suspeitamos de nada. Fomos saber depois".

Sobre o filho estar fora da escola desde junho, o pai explicou que ele seria transferido para outra escola, porém, antes de fazer a matrícula, ele decidiu fazer a prova para o IFES (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo).

"Ele se preparou, passou em terceiro lugar", afirma. "Então ele começaria o ano letivo no primeiro ano novamente, não faria sentido ele terminar o primeiro ano para repetir novamente no IFES".

Influência das redes sociais

O policial diz que conversava muito com o filho, que recebia todo o apoio e carinho dos pais. O jovem, segundo ele, de forma alguma levantava alguma suspeita de que poderia cometer um ato infracional.

"Pelo contrário, ele era um aluno exemplar, nunca deu trabalho. Ele era calmo, tranquilo. Quanto às redes sociais, eu tenho certa preocupação quanto a isso, de que possam ter influenciado meu filho, espero que as autoridades investiguem se houve algum vínculo nas redes para ter influenciado ele a cometer o que ele cometeu".

O policial afirmou que há dois anos o adolescente vinha recebendo atendimento psiquiátrico e psicológico e que, além da terapia semanal, ainda recebia medicação. "Ele fazia o tratamento pela prefeitura. Seguia corretamente. Ele tomava medicação, a mãe sabe melhor quais remédios, e terapia com psicólogo", disse o policial.

"Sou muito amigo do meu filho e sentia essa amizade dele para comigo. Se eu errei com a educação dele, não sei. Não dá para dizer nem que sim, nem que não". Há anos atrás ele reclamou de bullying na escola. Ele mudou de comportamento e aí procuramos o tratamento. De forma alguma poderíamos esperar que fosse acontecer o que aconteceu".

O pai do jovem diz que espera que ele pague pelos seus erros e tem esperança de que ele aprenda com a dor que causou em tantas famílias. "O que eu mais desejo é que ele pague dentro dos rigores da lei por tudo o que cometeu e que se Deus permitir, que saia e que seja uma pessoa transformada, um novo ser humano", declarou.