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Por medo de impeachment, candidato em Londrina (PR) põe filho como vice

Boca Aberta e Boca Aberta Jr., ambos do Pros, chapa que disputa a Prefeitura de Londrina (PR) - Divulgação
Boca Aberta e Boca Aberta Jr., ambos do Pros, chapa que disputa a Prefeitura de Londrina (PR) Imagem: Divulgação

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

19/09/2020 04h00

O deputado federal Boca Aberta (Pros), pré-candidato a prefeito de Londrina (PR), disputará a eleição já preparado para um eventual processo de impeachment. Alvo de pedidos de cassação como parlamentar, ele escolheu seu filho, o deputado estadual Boca Aberta Jr. (Pros), como vice em sua chapa. Diz querer blindar seu governo caso seja eleito.

O temor é provocado pelas atitudes dele mesmo. Os opositores que ele angariou durante sua vida pública podem estar em seu caminho na Câmara, se vencer a corrida pela prefeitura.

"O 'sistema' não aceita pobre, defensor do morador do barraco, da periferia no poder", se defende Boca Aberta, em entrevista ao UOL. "Se cassarem a gente, no caso de uma vitória, tem meu filho. É Boca Aberta do mesmo jeito."

O político disputará pela primeira vez um cargo no Executivo. Como parlamentar, tem histórico de votações expressivas e atuação controversa.

Boca Aberta foi o vereador mais votado em 2016, em Londrina. Dez meses depois de assumir o cargo, teve seu mandato cassado pela Câmara por quebra de decoro parlamentar após fazer uma vaquinha virtual para pagar uma multa eleitoral. Ele alega ter sido vítima de um "golpe" promovido por seus então colegas vereadores.

Em 2018, voltou a ser candidato, desta vez a deputado federal. Foi o mais votado em Londrina e, já em Brasília, passou a ser o deputado com mais inquéritos e ações penais em tramitação na Justiça, segundo levantamento do site Congresso em Foco.

"Respondo a mais de 280 processos, mas isso é tudo acusação de injúria e difamação de políticos da região", afirmou Boca Aberta. "Para mim, isso é uma honra, um incentivo a denunciar falcatruas."

Uma dessas "denúncias" fez com que Conselho de Ética da Câmara aprovasse uma suspensão de seis meses ao deputado. Isso porque, em março de 2019, ele resolveu entrar, sem autorização, num hospital no Paraná em busca de médicos que não estariam trabalhando em seu plantão.

Emerson Petriv, mais conhecido com Boca Aberta - Devanir Parra/Divulgação CML - Devanir Parra/Divulgação CML
Emerson Petriv, mais conhecido com Boca Aberta
Imagem: Devanir Parra/Divulgação CML

Apesar de aprovada no conselho, a suspensão dependia de ratificação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e no plenário da Câmara para que fosse aplicada ao deputado. Com o início da pandemia, sessões em comissões foram suspensas. O caso nunca foi analisado.

"Queriam me punir por fazer meu trabalho. Encontrei um médico dormindo", reclamou.

Terrorista verbal

Foi reclamando, aliás, que Boca Aberta virou político. Em 2010, o ainda vendedor Emerson Petriv resolveu iniciar sozinho uma série de protestos em locais públicos de Londrina.

"Peguei minha moto velha, uma caixa de som e comecei a falar umas verdades", lembrou. "Aí vi que precisa de um nome, um apelido. Pensei: Boca Aberta."

Os protestos frequentes renderam multas, processos, mas também lhe deram notoriedade. Boca Aberta tornou-se um "terrorista verbal", segundo ele mesmo, e resolveu entrar para política.

Ele tentou uma vaga de vereador em 2012 e de deputado estadual em 2014. Não foi eleito. Em 2016, contudo, conseguiu um mandato na Câmara Municipal.

"Loucos eram os loucos que achavam que o louco era louco", disse Boca Aberta, usando umas das frases de efeito de que ele gosta. Outra: "Estou com Deus e o povo, o resto é perfume e bijuteria".

Histórico na cidade

Boca Aberta diz ser contrário a alianças, coligações e acordos políticos. Afirmou que não negociará em busca de "governabilidade" caso eleito. Sabe também que essa atitude lhe deixa mais exposto.

Londrina, aliás, tem histórico recente de prefeitos que perderam o mandato.

Em 2012, o então prefeito Homero Barbosa Neto foi cassado pela Câmara Municipal, pois teria contratado seguranças para sua rádio usando recursos públicos.

O vice-prefeito, José Joaquim Ribeiro, assumiu o cargo em julho daquele ano e renunciou em setembro. A renúncia ocorreu depois que ele foi preso preventivamente por suspeitas de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Ele alegava ser inocente.

Antes disso tudo, em 2000, o prefeito Antonio Belinati também teve seu mandato cassado pela Câmara Municipal por suspeitas de corrupção em sua gestão.