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De Dilmela a BolsoCriva: a metamorfose de Crivella em busca da reeleição

Marcelo Crivella posa com Dilma Rousseff durante cerimônia no Senado, em 2014 - Jonas Pereira/Agência Senado
Marcelo Crivella posa com Dilma Rousseff durante cerimônia no Senado, em 2014 Imagem: Jonas Pereira/Agência Senado

Igor Mello

Do UOL, no Rio

07/10/2020 04h00

A versão bolsonarista raiz apresentada pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), nesta campanha eleitoral se contrapõe com postura adotada em 2014, quando era aliado de primeira hora do PT.

Se hoje o candidato à reeleição divulga material de campanha com o mote "BolsoCriva", inspirado no sucesso desse tipo de amálgama em 2018, Crivella já defendeu o voto "Dilmela" (Dilma e Crivella) em 2014.

Cientistas políticos ouvidos pelo UOL divergem sobre a efetividade da aproximação de Crivella com Bolsonaro em termos de desempenho eleitoral —até o momento, o vínculo com o presidente não provocou um crescimento significativo do prefeito, segundo as primeiras pesquisas eleitorais.

Rejeição a vínculo com Universal

Crivella entrou na vida pública se elegendo senador em 2002 em uma campanha fortemente apoiada em sua imagem de bispo da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus).

Diante da votação expressiva que obteve (21,5% dos votos válidos), disputou três vezes eleições para o Executivo —duas para a Prefeitura do Rio, em 2004 e 2008, e uma para o governo do estado, em 2006.

Contudo, esbarrou na rejeição ao seu vínculo com a Igreja Universal e parou em um teto de 20% do eleitorado do Rio. Depois dessas derrotas, Crivella abandonou momentaneamente os planos de voos mais altos e se aproximou ainda mais do PT —movimento que já fazia desde sua entrada na política.

Ministro de Dilma e apoio da então presidente

Aliado do governo Lula, do qual foi vice-líder no Senado, assumiu o cargo de ministro da Pesca no primeiro governo de Dilma Rousseff (PT) em 2012.

Só deixou a pasta dois anos depois, para concorrer novamente ao governo do estado. Em sua segunda tentativa de se eleger governador, Crivella apostou em uma campanha tradicional para diminuir sua rejeição entre o eleitorado não evangélico —investiu em criar uma nova imagem de técnico, destacando sua vivência como engenheiro e deixando de lado a face de pastor.

A estratégia deu resultado, e Crivella arrancou na reta final do primeiro turno, indo para o segundo turno contra o governador Luiz Fernando Pezão (MDB).

Enquanto o rival era apoiado pelo movimento Aezão (o tucano Aécio Neves + Pezão), Crivella tentou obter o apoio formal de Dilma. "Sempre contei com o apoio da presidente Dilma. Não com a liberdade que eu gostaria porque havia outras coligações aqui que a apoiava. Agora sou eu e o Pezão. E como o Pezão é Aécio, no fundo, no fundo, o que sobrou é o 'Dilmela'", disse ele em 2014.

Em 2016, Crivella rompeu com Dilma e votou a favor de seu impeachment. Na campanha para a prefeitura, no mesmo ano, se beneficiou da onda antipetista que ocorreu na esteira do impedimento da presidente, vencendo Marcelo Freixo (PSOL) no segundo turno.

Imagem usada por Marcelo Crivella em campanha pela reeleição no Rio de Janeiro traz a imagem de Jair Bolsonaro - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Imagem usada por Marcelo Crivella em campanha pela reeleição no Rio de Janeiro traz a imagem de Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução/Twitter

Crivella abraça pautas bolsonaristas

Embora não tenha se engajado abertamente na campanha de Bolsonaro em 2018, Crivella viu a popularidade do presidente entre o eleitorado conservador como tábua de salvação para sua reeleição —que enfrenta dificuldades diante de um primeiro governo mal avaliado.

A aproximação ocorreu no início do ano, na esteira da aliança entre Bolsonaro e Edir Macedo, tio de Crivella e líder da Igreja Universal.

Crivella escolheu a tenente-coronel Andréa Firmo como vice e tem destacado sua passagem pelo Exército para vincular sua biografia à do presidente. Também adotou identidade visual parecida com a da campanha de Bolsonaro em 2018.

Em agenda como prefeito na semana passada em um hospital, destacou que era contra o aborto. Já no primeiro debate, na última quinta-feira (1º), fez menções à Bíblia e buscou polarizar com Renata Souza (PSOL), apelando para uma citação ao kit gay, notícia falsa difundida por Bolsonaro em 2018.

Em suas redes sociais, ele tem postado quase diariamente trechos bíblicos, citados em seus pronunciamentos públicos.

Na segunda-feira (5), ao fim de transmissão ao vivo com Rogéria Bolsonaro (Republicanos), ex-mulher de Bolsonaro e mãe de seus filhos políticos (Flávio, Carlos e Eduardo), o prefeito conduziu uma oração.

Especialistas divergem sobre estratégia de Crivella

Para o cientista político Paulo Baía, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o recente alinhamento de Crivella ao bolsonarismo não têm cativado o eleitor fiel ao presidente da República.

"Conservador Crivella sempre foi, então não há uma modificação do discurso. O que ele inclui no discurso dele recentemente é incorporar temas mais contundentes, como o kit gay. Mas só em 2016 que ele passa a abordar a questão de direita e esquerda, antes disso não usava. Até porque antes estava alinhado com partidos de esquerda, como PT e o PCdoB", ressalta.

"Acho que esse discurso não emplaca em função de todo esse histórico dele. E porque esse grupo à direita na cidade do Rio não se sente muito confortável e está dividido, pode apostar no Luiz Lima (PSL) ou até no Fred Luz (NOVO). O Luiz Lima é o candidato mais perigoso para o Crivella. Se crescer, ele cresce em cima do Crivella. Estão disputando o mesmo eleitorado."

O cientista político Felipe Borba, professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), crê que o vínculo de Crivella com os governos do PT não provocará prejuízos eleitorais em razão do desembarque gradual que o prefeito realizou nos últimos anos.

"Esse alinhamento com Bolsonaro é a estratégia possível para ele nesse momento. O eleitor não pune essas mudanças, vemos que o próprio Eduardo Paes é um camaleão nesse sentido. Esse rompimento do Crivella com o PT não é de agora, ele votou a favor do impeachment da Dilma. Já tem pelo menos quatro ou cinco anos. Políticos locais oscilam mais entre os eixos ideológicos do que os mais nacionais", avalia.