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#MinhaCidadePrecisa: Eleitores de Curitiba criticam gestão durante pandemia

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Vitor Pamplona

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/10/2020 04h00

Considerada modelo de políticas urbanas entre as capitais brasileiras, Curitiba vem tendo uma gestão problemática da pandemia da covid-19 na percepção dos usuários do Twitter. A doença e a pandemia foram os temas que mais despertaram críticas em levantamento exclusivo do UOL em parceria com a rede social.

Moradores da capital paranaense enviaram comentários e respostas sobre as principais demandas municipais dentro do projeto #MinhaCidadePrecisa, que até o primeiro turno das eleições 2020 vai perguntar aos usuários do Twitter quais os maiores problemas das principais capitais do país.

Na etapa de Curitiba, entre 1º de setembro e 23 de outubro, foram coletadas as opiniões de 15,9 mil pessoas. Elas enviaram mais de 44,5 mil tuítes sobre quais setores da administração municipal mais precisam de melhorias. Os termos mais mencionados foram "covid", "pandemia" e "saúde". Juntos, eles apareceram mais de 3.300 vezes.

A gestão da pandemia em Curitiba foi inicialmente apontada por especialistas como uma das melhores do Brasil. A prefeitura foi uma das primeiras do país a implantar o uso obrigatório de máscaras nos locais públicos, em 16 de abril, e medidas de isolamento social foram bem acolhidas pela maior parte da população.

Do início de abril até o fim de maio, a cidade registrou em média menos de 50 novos casos de covid-19 por dia e um número diário de mortes provocadas pela doença inferior a 2.

Após controlar o surto inicial, a prefeitura, comandada pelo candidato à reeleição, Rafael Greca (DEM), liberou o funcionamento de shoppings, restaurantes, academias e templos religiosos com restrições.

Pouco mais de um mês depois, os casos se multiplicaram por cinco e as mortes passaram da centena, iniciando uma trajetória ascendente que teve pico entre julho e agosto —até a quarta-feira (28), a cidade contava 1.464 mortos por covid, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

Para a secretária Márcia Huçulak, titular da pasta, não se pode atribuir diretamente o aumento de casos e óbitos à reabertura do comércio. "Sem a questão da ideologização da pandemia que tem ocorrido no país, os estudos epidemiológicos já apontavam que nosso pico seria em julho. Historicamente, julho é o mês de maior número de casos de síndromes respiratórias. O nosso decreto para fechar tudo foi em 13 de junho, quando aumentaram os casos. Não tinha cabimento fazer lockdown em Curitiba (antes), os modelos não indicavam isso", diz.

"Em 34 anos de vida pública, essa é minha terceira experiência com uma epidemia, depois de enfrentar o sarampo e a H1N1. E pelo comportamento desse vírus [da covid-19] o que funciona é máscara, testagem, ventilar o ambiente e usar álcool em gel", prossegue a secretária.

As pessoas resistem em usar máscara, banalizam o uso nos ambientes de trabalho, nos escritórios. Politizaram demais essa pandemia, isso confunde o cidadão, que já está amedrontado, perdendo emprego e renda.
Márcia Huçulak, secretária da Saúde em Curitiba

Na opinião dela, a avaliação desfavorável de muitos curitibanos com relação à gestão da pandemia tem a ver com o momento histórico: "As pessoas ainda estão nessa angústia, nessa insegurança da contaminação pelo vírus, que ainda não tem tratamento. Não poderia ser diferente a situação".

Falta de proteção a grupos vulneráveis

Desenvolvida por pesquisadores e estudantes da área de planejamento urbano, a "Plataforma Paraná contra a Covid-19" criou um mapa de vulnerabilidade das regiões do estado em relação à pandemia.

O indicador partiu de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e leva em conta variáveis como renda média, densidade populacional, percentual de pessoas com mais de 60 anos de idade e condições de saneamento básico.

Em Curitiba, o estudo identificou que, no período em que os casos começaram a aumentar substancialmente —início de junho—, houve um claro deslocamento da doença de regiões centrais mais nobres para bairros periféricos, sobretudo na região sul da cidade.

Essas localidades estão entre as mais vulneráveis identificadas na plataforma e não tiveram a devida atenção da prefeitura, diz a pesquisadora Maria Carolina Maziviero, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

"No início da pandemia, várias entidades em Curitiba se reuniram para pedir à prefeitura um plano emergencial para grupos vulneráveis. Desde que fizemos o primeiro mapeamento, sabíamos quais regiões e setores seriam mais atingidos. Mas a prefeitura fechou os olhos. O que houve foi o fechamento de restaurantes populares e de banheiros públicos, deixando entregadores de aplicativo, ambulantes e catadores sem suporte", relata.

A Defensoria Pública do Paraná entrou com uma ação contra a prefeitura, que foi obrigada pela Justiça a assegurar à população em situação de rua direitos básicos —como acesso à água e a refeições oferecidas pelo município— durante pandemia.

Maziviero também critica a redução da oferta de transporte público nos bairros mais afastados da região central. "As pessoas que moram nesses locais não conseguiram fazer distanciamento com a frota reduzida e linhas lotadas. O sistema de transporte de Curitiba, tido como modelo, na verdade só funciona nas áreas mais elitizadas. Onde as pessoas mais precisam dele, o transporte público sempre foi sobrecarregado."