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Último debate na TV tem tabelinhas, 'VAR', repetição de falas e fake news

Candidatos à Prefeitura de São Paulo se preparam para o debate realizado pela TV Cultura - ADRIANA SPACA/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
Candidatos à Prefeitura de São Paulo se preparam para o debate realizado pela TV Cultura Imagem: ADRIANA SPACA/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Alex Tajra, Beatriz Montesanti e Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

13/11/2020 00h36

O último debate com candidatos à Prefeitura de São Paulo, transmitido pela TV Cultura hoje, registrou tabelinhas contra o atual prefeito Bruno Covas (PSDB), repetição de frases de efeito já proferidas em outros debates e a disseminação de notícias falsas.

Derretendo nas pesquisas, Celso Russomanno (Republicanos) voltou a atacar Guilherme Boulos (PSOL) pelo suposto uso de empresas fantasmas na campanha. O tema foi citado pela primeira vez no debate produzido por UOL e Folha de S.Paulo, na quarta, e posteriormente desmentido por checagens feitas pela reportagem. No mesmo dia do debate, a Justiça ordenou que o vídeo fosse excluído.

A TV pública paulista utilizou expediente semelhante ao "VAR" para definir se os candidatos teriam ou não direito à resposta. Joice Hasselmann (PSL), Guilherme Boulos e Russomanno tentaram respostas fora do tempo determinado pela emissora. Apenas Russomanno teve o pedido atendido (leia mais abaixo).

O debate, transmitido pela TV Cultura, aconteceu no Memorial da América Latina, na zona oeste de São Paulo. O mediador foi Leão Serva, diretor de jornalismo da emissora. Nos bastidores, Serva comemorou a boa audiência do debate e a repercussão que o embate entre os candidatos teve nas redes sociais.

Foram convidados todos os candidatos filiados a partidos com representação no Congresso. São eles:

  • Bruno Covas (PSDB)
  • Joice Hasselmann (PSL)
  • Andrea Matarazzo (PSD)
  • Orlando Silva (PCdoB)
  • Márcio França (PSB)
  • Guilherme Boulos (PSOL)
  • Jilmar Tatto (PT)
  • Celso Russomanno (Republicanos)
  • Marina Helou (Rede)
  • Arthur do Val (Patriota)

No primeiro bloco, respondendo a perguntas sorteadas pela jornalista Vera Magalhães, candidatos repetiram as mesmas falas feitas anteriormente no debate da TV Band, que aconteceu no final de setembro.

Jilmar Tatto, por exemplo, voltou a criticar as políticas de Bruno Covas (PSDB) e do governador João Doria (PSDB) para a região da cracolândia. Arthur do Val (Patriota) voltou a reforçar que não usa dinheiro público em sua campanha, e Marina Helou (Rede) usou o termo "lacração na internet" para criticar seus rivais.

"Eu vou voltar o programa Braços Abertos, um programa exitoso do governo Fernando Haddad", prometeu o petista Jilmar Tatto, sobre o programa do ex-prefeito de São Paulo para a região da cracolândia. "Aquelas pessoas precisam de carinho, amor, precisam de tratamento médico, assistência social, de moradia, de emprego. O Bruno Covas esparramou as pessoas junto com o [governador João] Doria. No meu governo isso não vai acontecer, vou dar carinho a essas pessoas", repetiu Tatto (PT).

"Quero deixar claro antes de mais nada que sou o único candidato de todos aqui que abriu mão do fundo eleitoral para fazer campanha", reiterou Arthur do Val. "O único candidato que não está usando o dinheiro do seu imposto para fazer campanha eleitoral no meio da pandemia."

"Eu também estou porque sei que a política é a principal forma de transformar as realidades, mas não essa política ruim com mesmas ideias, nomes, partidos de sempre, nem essa política de lacração na internet", disse Marina Helou (Rede).

Boulos, por sua vez, também repetiu que é o "único candidato que vive na periferia" entre os postulantes à Prefeitura. Ele mora no bairro do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

Joice acusa Covas de tirar férias

No segundo bloco, Joice Hasselmann (PSL) acusou o atual prefeito, Bruno Covas, de tirar "férias demais". Segundo ela, Covas foi para a Croácia com amigos em um momento de crise da cidade.

"Prefeito, todo trabalhador tem que trabalhar um ano para tirar férias. Com sete meses, você tirou férias e foi para a Croácia com alguns amigos se divertir. O senhor também esteve na Europa em uma viagem pessoal, enquanto São Paulo estava embaixo d'água, pessoas morreram em enchentes", atacou a candidata do PSL.

Covas, em sua defesa, disse ter tirado apenas 50 dias desde que assumiu como vice-prefeito.

"Em quatro anos como vice-prefeito e prefeito, tirei menos de 50 dias de férias, cerca de um mês por ano. Você tem dois meses de férias e não fez nada para mudar isso. Meu vice tem oito anos de serviço prestado e não responde a nenhum processo. Não é notícia falsa que mudará isso."

Tabelinhas contra Covas

Em determinados momentos, Boulos e Tatto tabelaram para criticar Bruno Covas. As duas chapas alinhadas à esquerda disputam eleitorado, em especial na periferia, mas formaram dupla contra o atual prefeito e Celso Russomanno, que figura entre os candidatos que podem aparecer no segundo turno.

Joice Hasselmann, outrora alinhada ao bolsonarismo, também participou das tabelinhas. Ela fez dobradinha com o petista Jilmar Tatto para criticar a atuação das subprefeituras na gestão de Bruno Covas.

"Infelizmente hoje os subprefeitos ocupam um cabidão de emprego, são pessoas que perderam a eleição, são ligadas ao prefeito e mal conhecem o bairro. Na minha gestão, o subprefeito será raiz. Morador do bairro, que conhece o problema", disse Joice.

Outro que entrou na ofensiva contra Covas foi Márcio França (PSB). Ele e Jilmar Tatto tabelaram para criticar o principal padrinho do tucano, o governador João Doria (PSDB). "Você sabe, Márcio, que para os tucanos é sempre enxugar a máquina e tirar direito das pessoas", disse Tatto, quando questionado sobre sua posição sobre os servidores públicos.

"Eu fui servidor público, tenho muito orgulho de ter feito só escola pública. Costumo dizer que eles são definitivos, nós [governantes] somos passageiros, por isso tem que resgatar o ânimo deles. Vi uma fala do Doria, que representa o Covas, chamando os servidores de vagabundos, isso é uma ofensa", respondeu França, endossando Tatto.

Pedidos de resposta

Joice, Boulos e Russomanno realizaram pedidos de resposta à moderação do debate, alegando ataques pessoais.

A comissão que avaliou as solicitações era formada dois jornalistas e um integrante do departamento jurídico da TV Cultura. Na primeira vez que o trio foi acionado, negou o pedido de Joice Hasselmann (PSL) que reclamava de o prefeito Bruno Covas (PSDB) acusá-la justamente de fake news na propaganda na TV.

Diante da negativa, ela não escondeu a irritação. O mediador foi até ela no intervalo e a plateia inteira ouviu Joice gritando "é mentira, é mentira". A expressão corporal demonstrava descontentamento.

Desconcertado, em determinado momento, o moderador Leão Serva, para responder a um pedido do candidato Guilherme Boulos, disse que o pedido seria analisado pelo "VAR" —sistema usado no futebol para analisar em vídeo possíveis faltas cometidas. No caso, o pedido foi negado.

Russomanno foi o único a ter o pedido atendido, após Boulos chamá-lo de "sem-vergonha" e acusá-lo de querer trazer o "gabinete do ódio para São Paulo". "Tenho muito orgulho de andar com sem terra, sem-teto, só não ando com sem-vergonha, igual você", disse Boulos.

"Eu queria dizer que desqualificar a fonte não impede a irregularidade. O mesmo que colocar a culpa no termômetro pela febre que a pessoa tem. O que os eleitores de São Paulo precisam saber, sem meias-palavras, é como o candidato que ostenta a soberba honestidade e usa empresas fantasmas para inventar despesas de campanha. Isso tem que ser explicado", disse.

Fake news

Russomanno repetiu na TV Cultura fake news já usada ontem contra o candidato Guilherme Boulos (PSOL). Ontem, a Justiça Eleitoral determinou que o Google retirasse imediatamente do ar um vídeo com informações falsas produzido pelo blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio.

A decisão acatou um pedido feito pelo psolista e prevê aplicação de multa diária em caso de descumprimento. Durante o debate UOL/Folha de ontem, Russomanno questionou Boulos sobre supostas empresas fantasmas que teriam recebido dinheiro de Boulos.

"Estamos pedindo a apreensão do seu celular, desse meliante com quem você se aliou, com pedido de bloqueio e abertura das suas contas bancárias e da dele para saber quem paga. Quem está pagando, Russomanno, por suas fake news em São Paulo? Vem do dinheiro público? Vou te dar uma oportunidade de responder isso", disse Boulos.

O candidato Arthur do Val (Patriota) também acusou Boulos de "queimar pneus e botar fogão em prédio na avenida Paulista. O psolista e líder do MTST (Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto) rebateu a fala de Do Val dizendo se tratar de "fake news" e tentativa do seu oponente de "lacração".

Covas lidera; Russomanno derrete

Este foi o segundo e último debate entre os candidatos realizado por uma TV aberta antes do primeiro turno, que acontece no domingo (15) —apenas a Band havia realizado o encontro entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo.

Em setembro, o SBT anunciou que cancelaria o debate "em virtude da pandemia e do elevado número de postulantes". Globo, Record e RedeTV! também cancelaram os seus respectivos debates.

Atual prefeito, Bruno Covas lidera com 32% nas intenções de voto na disputa pela reeleição à Prefeitura de São Paulo, segundo pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha, encomendada pelo jornal Folha de S. Paulo em parceria com a TV Globo.

Guilherme Boulos (PSOL) surge em segundo lugar com 16% e Celso Russomanno (Republicanos) tem 14% —quando foi realizado o primeiro debate, na TV Bandeirantes, em outubro, Russomanno tinha 24% das intenções, segundo o Ibope.

Já Márcio França (PSB) está com 12%, enquanto Jilmar Tatto (PT) e Arthur do Val Mamãe Falei (Patriota) seguem empatados com 4% das intenções de votos.

A pesquisa chegou a ser censurada pela Justiça a pedido da campanha de Russomanno, mas ontem houve autorização para sua divulgação.

*Colaboraram Carolina Marins, Douglas Maia, Felipe Oliveira, Gilvan Marques, Marcelo Oliveira e Pedro Ungheria.