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Caso Beto Freitas, que indignou brasileiros, é ignorado por candidatos

João Alberto Silveira Freitas foi assassinado por seguranças do Carrefour em Porto Alegre - Reprodução / Internet
João Alberto Silveira Freitas foi assassinado por seguranças do Carrefour em Porto Alegre Imagem: Reprodução / Internet

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

28/11/2020 11h25Atualizada em 28/11/2020 16h16

O assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos que foi espancado e asfixiado por seguranças em uma loja do Carrefour em Porto Alegre, recebeu pouca atenção dos candidatos a prefeito das 18 capitais onde haverá disputa de segundo turno.

Apenas cinco dos 36 postulantes ao cargo do Executivo fizeram menções diretas ao caso, conforme checagem feita pela reportagem do UOL. O levantamento leva em conta manifestações divulgadas nos últimos dias nos canais oficias dos candidatos, como sites e redes sociais, além de declarações veiculadas na imprensa.

As cenas em que o cliente aparece agonizando por quase quatro minutos diante de 15 testemunhas geraram uma onda de protestos e reacenderam o debate em torno da violência racial no país, mas não ecoaram nem mesmo entre prefeituráveis autodeclarados negros e cujas campanhas evocam a bandeira antirracista.

Dentre aqueles que citaram publicamente o caso estão Manuela d'Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB), que duelam pela prefeitura da capital gaúcha, onde aconteceu o assassinato; Guilherme Boulos (PSOL) e Bruno Covas (PSDB), rivais em São Paulo; e Vanderlan Cardoso (PSD), que concorre à Prefeitura de Goiânia (GO) contra Maguito Vilela (MDB) - atualmente, internado com covid-19.

"O espancamento até a morte do João Alberto em um supermercado em Porto Alegre é mais um triste alerta no Dia da Consciência Negra para avançarmos, enquanto humanidade e nação, na luta contra o racismo", afirmou Cardoso. A última pesquisa Ibope, divulgada na terça-feira (24), informa que ele registra 37% dos votos válidos (excluindo brancos, nulos e indecisos) e seu adversário lidera a corrida na capital de Goiás com 63%.

De acordo com a compilação do UOL, boa parte dos demais candidatos a prefeitos das 18 capitais se limitou a divulgar mensagens genéricas por ocasião da efeméride histórica, mas sem qualquer referência ao episódio que vitimou Beto Freitas.

No Nordeste, região que concentra o maior número de prefeitos negros eleitos neste ano - 932, no total - as campanhas também se posicionarem de forma protocolar.

Foi assim, por exemplo, em Teresina (PI), onde o candidato Dr. Pessoa (MDB) publicou um card em menção à data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares.

"Sou preto, de origem humilde e mesmo tendo me tornado um grande cidadão, ainda sofro racismo todos os dias. Minha missão é lutar por mais dignidade para as pessoas que sofrem o que sofro. Estamos juntos nessa luta!", escreveu em uma rede social.

porto alegre -  Agência Brasil e Assembleia do Rio Grande do Sul . -  Agência Brasil e Assembleia do Rio Grande do Sul .
Manuela D'Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB) disputam a prefeitura de Porto Alegre
Imagem: Agência Brasil e Assembleia do Rio Grande do Sul .

Candidatos de Porto Alegre debatem

Em Porto Alegre, ao se manifestar pela primeira vez sobre o episódio do Carrefour, Sebastião Melo (MDB) lamentou a morte de Beto Freitas e repudiou a conduta dos autores do crime. Ele, no entanto, se referiu à vítima como sendo "uma pessoa", sem dizer o nome de Beto nem citar a questão racial, tanto por meio de um vídeo quanto em uma peça publicada em rede social.

No texto que acompanha a gravação, porém, o nome de Beto Freitas foi incluído. Procurada pelo UOL, a campanha de Melo não se manifestou até a publicação da reportagem.

Criticada pela família da vítima, a exploração política do caso foi parar na polícia.

Na quarta-feira (25), o emedebista registrou um boletim de ocorrência afirmando que Manuela d'Ávila (PCdoB) "insinuou que ele fosse racista".

A reação de Melo é contra uma propaganda adversária que o relaciona ao vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), para quem "no Brasil, não existe racismo."

Manuela nega a acusação e afirmou que ajuizaria uma ação de dano moral por injúria e difamação, além de denunciação caluniosa.

Nas redes sociais, ela disse que o adversário "tenta criar um fato eleitoral diante da incapacidade de dizer que discorda das declarações literais de seus aliados".

A pesquisa Ibope da última terça-feira (24) mostrava Sebastião Melo com 54% dos votos válidos contra 46% de Manuela.

sãopaulo - Divulgação/TV Cultura - Divulgação/TV Cultura
Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) disputam a prefeitura de São Paulo
Imagem: Divulgação/TV Cultura

Covas e Boulos se pronunciam

Já em São Paulo, apesar de o racismo ser um tema reivindicado pela esquerda, a morte de Beto Freitas entrou no radar da campanha de Bruno Covas, candidato à reeleição.

Além de repudiar o crime no Carrefour, o tucano se comprometeu a cassar alvarás de estabelecimentos que cometerem atos de racismo.

A promessa é um aceno ao deputado federal Orlando Silva (PC do B), que acabou deixando a disputa no primeiro turno. O comunista optou por apoiar Boulos no segundo turno.

"A gente terá uma legislação. Provavelmente na semana que vem a gente deve se reunir com o deputado Orlando Silva e a expectativa é já na semana que vem encaminhar um projeto à Câmara Municipal", assegurou Covas em sabatina do UOL em parceria com o jornal Folha de S. Paulo.

Por sua vez, Boulos declarou que a morte de Beto Freitas é um caso de "racismo puro". "Alguém consegue imaginar aquela cena acontecendo com uma pessoa branca engravatada naquele mercado?"

Na reta final da campanha eleitoral paulistana, Covas marca 54% dos votos válidos e o Boulos, 46%, mostra a última pesquisa Datafolha.

Termômetro eleitoral

Na avaliação do professor Cristiano Rodrigues, do Departamento de Ciências Políticas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o comportamento de um candidato diante de temas como o racismo dependerá do seu espectro político e do termômetro eleitoral do momento.

Em geral, explica Rodrigues, políticos alinhados às pautas de esquerda e aos movimentos sociais tenderão a se manifestar sobre a questão, enquanto aqueles mais à direita irão silenciar.

"Em lugares em que a esquerda cresceu muito e essa agenda da esquerda se fez presente, os candidatos vão tender a falar a respeito. Foi o que aconteceu, por exemplo, em São Paulo, com o Bruno Covas, que tem um gabinete inteiro de pessoas brancas, o vice dele é um bolsonarista. Covas inclusive divergiu do vice-presidente Hamilton Mourão, que falou que não existe racismo no Brasil", disse Rodrigues ao UOL.

Para o pesquisador, que se debruça em estudos relacionados a movimentos sociais e antirracismo na América Latina, assim como Covas, Sebastião Melo (MDB) foi instado a se manifestar em Porto Alegre para marcar posição política.

"Aqueles que são premidos por uma situação política atípica, que é o caso do Covas, acabam sendo induzidos e conduzidos a falar sobre isso. E em Porto Alegre, óbvio, porque é a cidade em que o fato ocorreu e tem a esquerda crescendo, ou seja, um candidato do MDB tendo que se pronunciar sobre tema caro àquela localidade", analisa o especialista.