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Por que eventos bolsonaristas têm bandeiras de Israel e falas de apoio?

07.set.2022 - Ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo - Wagner Vilas/Onzex Press e Imagens
07.set.2022 - Ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Wagner Vilas/Onzex Press e Imagens

Thiago Varella

Colaboração para o UOL

08/09/2022 11h28

Pode até passar despercebido para alguns, mas em todo evento bolsonarista, no meio do mar de pessoas vestindo verde e amarelo, sempre aparece uma bandeira de Israel ou alguma faixa de apoio ao país. Os dizeres "Deus abençoe Israel" também são bem presentes entre os entusiastas dos atos do atual governo —a frase foi dita inclusive pela primeira-dama Michele Bolsonaro no discurso feito no desfile de 7 de Setembro.

Mas, o que tem a ver o Estado de Israel com bolsonarismo? A resposta está nos evangélicos.

Quem não tem familiaridade com o meio evangélico pode achar estranha essa relação entre o protestantismo, sobretudo o pentecostal, e um estado judeu. Acontece que, para parte dos evangélicos, ir contra Israel é ser contra a vontade de Deus.

Segundo o teólogo Ronilso Pacheco, colunista do UOL, existem quatro principais razões para isso.

A primeira delas está lá no primeiro livro do Antigo Testamento, na Bíblia, Gênesis, quando Deus oferece uma bênção às nações que apoiassem a descendência de Abraão, fundador do monoteísmo dos hebreus. Isso é interpretado por alguns evangélicos como apoiar Israel.

Ainda segundo interpretação de Gênesis, os judeus são descendentes de Abraão e, por isso, povo escolhido de Deus. Logo, Israel, terra dos judeus, deve ser apoiada sob qualquer circunstância.

Um cristão mais atento poderia argumentar que a vinda de Jesus acabaria com a razão de Israel ser o povo escolhido já que a salvação de Deus seria oferecida agora a todos. Mas, para esses evangélicos, isso muda com a volta de Jesus e aí vem a terceira razão apresentada por Pacheco.

O fim, segundo essa interpretação, estaria próximo e isso seria provado pelo restabelecimento do Estado de Israel. Aliás, para esses evangélicos, Israel tem papel fundamental no julgamento das nações e dos povos que teriam negado a Cristo, incluindo a própria nação israelense.

A vinda de Jesus seria inclusive marcada pela libertação de Jerusalém do domínio dos gentios, ou seja, dos não-cristãos.

Por fim, para Pacheco, é possível argumentar que o apoio evangélico a Israel está enraizado na crença em uma cultura ocidental compartilhada, incluindo religião, ética, tradições, costumes e etiqueta.

O jornalista Diogo Bercito, em seu blog Orientalíssimo, na Folha, explica que, em 1970, um autor relativamente desconhecido chamado Hal Lindsey, graduado em um seminário de Dallas, publicou a obra "The Late Great Planet Earth" ("A Agonia do Grande Planeta Terra").

O livro foi um sucesso de vendas e popularizou a ideia de que o Apocalipse dependia de três coisas:

  1. a nação judaica ser recriada na Palestina,
  2. a reconquista de Jerusalém e
  3. a reconstrução do templo sagrado.

Em 1970, data do lançamento do livro, os dois primeiros itens já tinham sido concretizados. Assim, evangélicos passaram a acompanhar de perto a geopolítica do Oriente Médio, enxergando naquela região os sinais apocalípticos da Bíblia.

Portanto, essa aproximação de evangélicos e Israel também é bastante explorada nos Estados Unidos e ajuda a ditar a política externa norte-americana.

Como o protestantismo brasileiro tem ligações históricas com o protestantismo americano, até porque parte do surgimento das igrejas evangélicas no Brasil passa pela vinda de missionários americanos ao nosso país, é natural que essas ideias que se popularizaram nos EUA tenham vindo para cá.

Israel também se aproveita muito dessa relação. Primeiramente, porque ganha apoio político em países de forte presença evangélica, como os Estados Unidos e agora o Brasil do governo Bolsonaro. E também porque recebe dinheiro das peregrinações de evangélicos à Terra Santa.

Quando veio ao Brasil, em 2018, o então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, se reuniu com lideranças cristãs e afirmou que os evangélicos seriam os melhores amigos de Israel.