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A renúncia foi um ato de "grande humildade" do papa, diz Frei Betto

Frade dominicano e escritor, Frei Betto - Enrique De La Osa-28.jan.2013/Reuters
Frade dominicano e escritor, Frei Betto Imagem: Enrique De La Osa-28.jan.2013/Reuters

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília

11/02/2013 15h20

Foi um ato de “grande humildade”. Foi assim que Frei Betto, religioso dominicano e escritor, avaliou a declaração da renúncia do papa Bento 16 nesta segunda-feira (11). Para ele, o fato de o pontífice ter um perfil “mais intelectual e menos administrador” fez com que a decisão não fosse uma surpresa. 

“Foi um ato de grande humildade, porque o cargo é vitalício. Embora haja precedente, ele é o quinto papa a renunciar em pouco mais de 2.000 anos da história da Igreja Católica", afirmou em entrevista ao UOL.

Frei Betto argumenta que os intelectuais não gostam de assumir funções administrativas. “Porque isso os tira da leitura, dos livros, dos que querem escrever, das pesquisas que querem fazer. E como [Joseph] Ratzinger é fundamentalmente um intelectual, eu pressenti que o papado seria uma honra, mas, ao longo do tempo, um incômodo.”

O religioso também destaca que Bento 16 é um caso raro de papa que conseguiu se dedicar à publicação de livros.

“Ele fez um enorme esforço e conseguiu escrever e publicar a trilogia sobre Jesus. É um caso raro de papa-autor. Geralmente, os papas assinam documentos pontifícios que são escritos por assessores”, apontou.

“Acho que ele optou, para o resto de vida que ele tem, recolher-se a oração e a vida intelectual”.

Para o frei, a principal marca de Bento 16 foi a de incentivar o estudo da teologia. Ao mesmo, ele evitou que a Igreja Católica debatesse o que Betto chamou de “temas-tabu”, como o celibato sacerdotal, a união civil entre homossexuais e o sacerdote das mulheres.

“Ele trancou a porta do debate na Igreja. Tudo isso ficou no reino do tabu. Ele não quis avançar. Ele não fez a Igreja [Católica] se adequar ao mundo atual. Ele é um homem conservador e não quis avançar. Isso criava muito problema dentro da Igreja”, completou.

A partir de agora, acredita Frei Betto, dependerá dos cardeais que votarão se pretendem escolher um pontífice que queira avançar ou não nas polêmicas que foram deixadas de lado por Bento 16. “Gostaria muito que [o próximo papa] fosse um homem aberto, progressista, que ousasse abrir o debate na Igreja para os chamados ‘temas-tabu’”, ressaltou.

Quem é Frei Betto

Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido Frei Betto, 68, é frade dominicano e escritor. Assessorou movimentos sociais e é autor de mais 50 livros.

Ganhou duas vezes o prêmio literário Jabuti, pelas obras: "Batismo de Sangue" (1982) e "Típicos Tipos" (2005).

Foi coordenador da Mobilização Social do Programa Fome Zero do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre os anos de 2003 e 2004.

Frei Betto é membro do Conselho Consultivo da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e sócio fundador do Programa Educação para Todos.

O religioso é adepto da Teologia da Libertação, movimento de teologia política que reúne várias correntes que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais.

O movimento foi duramente criticado por Bento 16, que  chegou a fazer discursos alertando aos bispos dos “perigos” do que chamou de teses e metodologias provenientes do marxismo.

 

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