Sem estrutura, haitianos no Brasil buscam ajuda para parentes vítimas do furacão

Talita Marchao e Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Danilo Verpa/Folhapress

    Haitiano é flagrado entre escombros em Port Salud

    Haitiano é flagrado entre escombros em Port Salud

Para os haitianos que vivem no Brasil, acompanhar as notícias sobre a tragédia humanitária do Haiti após a passagem do furacão Matthew e não conseguir ajudar os familiares deixados no país é a parte mais difícil. Desconfiados da ação de organizações não governamentais desde o terremoto de 2010, muitos dos que estão no Brasil tentam, até mesmo de formas bem simples, dar o mínimo suporte aos familiares.

Entre os que estão tentando se mobilizar para ajudar os parentes está o estudante Jean Ricardo Jules, 35, mestrando da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, que perdeu dois familiares na passagem do furacão. Especialista em Entomologia Médica, o haitiano tenta angariar fundos e voluntários ligados aos setores de saúde e construção civil para reconstruir e auxiliar as vítimas de doenças da comunidade em que vivem no Departamento Sul do Haiti, onde ele cresceu e seus pais estão desabrigados.

Reprodução/Facebook
Jean Ricardo Jules
Jean Jules não conseguiu contato com a família desde a tragédia. Teve notícias do pai e da mãe, com 67 e 65 anos, apenas pela irmã, que conseguiu chegar até a casa em que eles viviam depois que ONGs e o governo abriram novos acessos --pontes e estradas foram destruídos na passagem do furacão. Seus pais estão vivendo nos escombros da casa em que moravam, que perdeu o telhado na tragédia. A irmã de Jean conseguiu levar alguns alimentos e roupas secas, já que tudo o que o casal tinha ficou molhado. 

"O teto caiu completamente, e eles deram um jeito de ficar, não tinham para onde ir. Só que se voltar a chover, não dá para continuar na casa. A gente torce para o tempo continuar firme, com sol. Nos dias após o furacão, não teve muito sol, e aí as roupas não secaram. Eles não têm nem roupas limpas para usar", diz Jean Jules.

"Consegui arrecadar US$ 200, que enviei para a minha irmã para ajudá-los. A situação deles me deixa triste demais, é duro pensar na forma como estão vivendo. Não os vejo há três anos, e sei que a minha presença agora seria muito importante para eles. Mas a passagem é muito cara, e vivo como bolsista no Brasil, com minha mulher e minha filha de 2 anos, pago aluguel. É muito difícil", contou em entrevista ao UOL.

Jean Jules gravou áudios para enviar aos amigos por WhatsApp e fez posts nas redes sociais em uma tentativa de conseguir ajuda financeira para reconstruir a casa dos seus pais e da comunidade em que eles vivem. Muitos oferecem roupas e alimentos, mas o transporte desse material por conta própria é uma missão impossível. "Só posso levar uma mala, isso não é suficiente para todos que precisam de ajuda". 

Agora, ele busca o apoio de alguma ONG ou entidade interessada em ajudá-lo com a logística para levar não só as doações, mas principalmente os voluntários. "A ajuda destas grandes organizações se concentra nas cidades. Nunca chega nada para os que vivem na roça. Ainda mais agora que nem estrada tem", afirma Jean Jules. "Minha preocupação é que, como nesta área não tem nada, já esperamos a seca, a falta d'água, a fome e as epidemias."

Haitianos brigam em fila por suprimentos

O especialista veio ao país pela primeira vez em 2012 em uma parceria do governo haitiano com o Brasil para formar profissionais especializados no combate ao cólera e à malária. Com a oportunidade de seguir os estudos no Rio, trouxe a mulher grávida e tiveram a primeira filha aqui no país. Ele conta que muitos amigos estão interessados em ajudar nos trabalhos de prevenção e apoio aos doentes, mas que esta é uma ação que depende também do apoio de alguma entidade, já que eles não poderiam chegar a um país do dia para a noite para fazer atendimentos médicos sem medicamentos e infraestrutura.

"O Ministério da Saúde haitiano já não tem condições para responder às epidemias. Se não tiverem ajuda, não vão dar conta", afirma Jean Jules, ao lembrar da situação política no país, cujo governo se encontra paralisado. No começo do ano, o resultado da eleição foi anulado em meio às acusações de fraude. O ex-presidente Michel Martelly deixou o cargo sem um sucessor, que seria escolhido em uma nova votação neste mês --o pleito foi cancelado por conta do furacão.

Eric Ruiz Garcia/Reprodução/Facebook
Jean Woolmay Denson Pierre
A ânsia para ajudar os compatriotas também levou Jean Woolmay Denson Pierre, 20, a uma iniciativa pessoal de arrecadar fundos, roupas e remédios para levar ao seu país. Modelo profissional -- e estudante, que prestará o Enem em novembro para tentar entrar em um curso de medicina no Brasil --, ele pretende encher as malas com os mantimentos e entregar a colegas seus no Haiti que fazem trabalho voluntário.

Jean Pierre chegou ao Brasil em agosto do ano passado, com planos de fazer faculdade de medicina no país. Antes de chegar a São Paulo, onde faz cursinho para prestar o Enem, morou em Joinville (SC) com o pai, que está no país há quatro anos. Além da preparação para a prova e da atuação como modelo -- "é bom, tem bastante trabalho por aqui" --, ele colocou a ajuda aos compatriotas como prioridade. A ideia foi lançada em sua página no Facebook.

"Tenho um amigo haitiano, aqui no Brasil, que vai para lá em novembro. Estou tentando ir também, depois do Enem, só que ainda preciso do dinheiro para pagar a passagem", conta. "Também estamos tentando arrecadar dinheiro para pagar o custo das malas", diz. "Várias pessoas compartilharam e muitos me mandam mensagem para saber como ajudar."

Desconfiança com ONGs

HECTOR RETAMAL/AFP
Policial haitiano agride multidão desesperada pela entrega de alimentos da ONU

As iniciativas pessoais também estão relacionadas à desconfiança que Jean Pierre e outros haitianos têm de organizações que oferecem ajuda no Haiti. "Tem que se cuidar com isso. Tem muita gente que só coloca um site no ar, diz que é para ajudar o Haiti mas na verdade fica com o dinheiro para si. Eu tenho uma carreira como modelo e a uso como ferramenta para divulgar a campanha. Não vou jogar minha carreira fora fazendo mal uso do dinheiro dos outros", diz.

"Outro cuidado que vamos ter é quando chegar lá, porque sabemos que tem gente que recebe roupas e remédios e depois revende. Por isso vamos cuidar muito bem disso, com meus colegas modelos, que já fazem trabalho voluntário por lá."

O especialista da Fiocruz Jean Jules gostaria ainda que as compras de bens e produtos para ajudar os haitianos do interior fossem feitas na capital, Porto Príncipe, gerando renda para os próprios haitianos. "No terremoto, quem lucrou foi a República Dominicana, já que ONGs do mundo todo compraram coisas lá para ajudar o Haiti. A nossa capital não foi afetada pelo furacão e devemos ajudar os comerciantes haitianos".

No ano passado, a Cruz Vermelha foi acusada de má gestão e desperdício com os fundos arrecadados em doações. Segundo a acusação, eles teriam construído somente seis casas, apesar de terem levantado mais de US$ 500 milhões em doações com a promessa de construir moradias para 132 mil haitianos.

Além disso, um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA acusou forças de paz da ONU de trazer a cólera ao país, que estava livre da doença até 2010. Integrantes da missão da ONU provenientes do Nepal, onde a cólera é endêmica, teriam despejado dejetos infectados em um rio. 

 Associação de haitianos no Brasil tenta organizar campanha

Estabelecida há dois anos na zona central de São Paulo, a União Social dos Imigrantes Haitianos tenta organizar uma campanha para ajudar as vítimas, arrecadando dinheiro e mantimentos em uma conta específica para as doações. A ideia é que um dos integrantes da USIH leve o que for arrecadado para distribuir no país.

"Sabemos que tem muito trabalho para ser feito lá, vamos precisar da ajuda de todos para que possamos fazer algo não somente para as vítimas do furacão Matthew, mas também para que o país inteiro seja beneficiado", disse a associação em nota.

Além das doações para as vítimas do furacão, a USIH também busca contribuições, por meio de uma vaquinha online, para reformar sua sede em São Paulo.

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