Entenda qual é a estratégia do presidente venezuelano para se manter no poder

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Ariana Cubillo/AP

A convocação feita pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para a realização de uma nova Assembleia Constituinte não passa de uma tentativa de ganhar tempo e evitar todas as eleições que deveriam ser realizadas neste e no próximo ano, e somente enfrentar as urnas quando o partido governista for eleitoralmente competitivo outra vez. Esta é a avaliação de Risa Grais-Targow, diretora da consultoria Eurasia Group para a América Latina.

"Ele está tentando encontrar um meio de criar condições para, quando efetivamente forem realizadas as eleições, ele possa ganhar", diz Risa em entrevista ao UOL por telefone.

Manifestantes estão nas ruas há mais de um mês em atos convocados pela oposição contra Maduro. Até agora, mais de 30 pessoas morreram nos enfrentamentos entre forças de segurança e a população. Após o anúncio da constituinte, os confrontos aumentaram –Maduro poderá escolher quem participará do processo e controlá-lo, assegurando a manutenção do chavismo e excluindo a oposição das negociações.

Christian Veron/Reuters

Qual é a estratégia de Maduro?

Para Risa, a estratégia de Maduro é clara: além de evitar a realização de eleições locais, regionais e até a presidencial no país enquanto o PSUV não é eleitoralmente competitivo, o presidente espera ainda que a proposta de "reescrever" a Constituição aprovada por Hugo Chávez em 1999 divida a oposição, atraindo grupos mais moderados e enfraquecendo o atual momento dos opositores, que cada vez congrega mais apoio da população.

Em sua análise, Risa afirma ainda que a estratégia de Maduro é "perigosa e um pouco desesperada", ainda que ele tenha hoje total controle institucional, e esta estratégia deve aprofundar a crise política no país. "Primeiramente porque ela dá aos opositores um componente adicional para dar-lhes mais impulso", diz.

Outro ponto, de acordo com a especialista, é o fato de que a proposta de Maduro não mudará a dinâmica estrutural da economia do país. "O aumento da agitação social deixou o governo ainda mais relutante em realizar o ajuste cambial necessário e outras reformas, o que significa que o sistema atual e as distorções resultantes dele continuarão, com o banco central imprimindo dinheiro sem parar e a inflação em espiral", diz, citando dados da consultoria Ecoanalítica, 

Qual é a diferença dos protestos realizados no último mês?

Esta é a onda de manifestações mais significativa vista desde os atos de 2014, quando Leopoldo López foi preso. A diferença, de acordo com a especialista da Eurasia, é que desta vez a oposição está muito mais unida em uma estratégia comum do que jamais estiveram, e assim dão impulso aos manifestantes.

"O chavismo ainda tem uma base grande de apoio, em termos de eleitores. São pessoas que contam com benefícios do governo e vão às ruas para defendê-lo. Mas a cada protesto, é possível notar que esta agitação e o ultraje da população das ruas não são exclusivos de partidários da oposição. Há mais pessoas que seriam simpatizantes típicas do chavismo participando dos atos por se sentirem muito frustradas", reflete Risa.

"Os venezuelanos estão mais frustrados. As pessoas estão nas ruas e não voltam para suas casas apesar da repressão do governo durante as manifestações porque sentem que esta pode ser uma chance única: é isso ou a miséria", afirma."É claro que existe um novo senso de desespero na população, que foi agravado pelos movimentos recentes do governo, como cortar os canais institucionais".

A especialista aposta ainda que a pressão internacional também é um fator relevante nos acontecimentos das últimas semanas, já que o panorama político atual é bem diferente do que o de alguns anos atrás. "Os governos na região são mais conservadores e querem ver Maduro fora do poder", diz.

Ariana Cubillos/AP

Quais são os próximos passos?

De acordo com a avaliação de Risa, o único catalisador que levaria as principais partes interessadas a abandonar o apoio a Maduro seria uma explosão social que a Guarda Nacional Bolivariana e a Polícia Nacional seriam incapazes de conter. Quem reprimiu os atos contra Maduro até agora foi a guarda, a polícia e as milícias armadas. Em um cenário de explosão social de grande porte, Maduro precisaria contar com a ação das Forças Armadas para defender o regime, e então a situação pode se complicar para o governo.

"Sabemos que o Exército não quer ir às ruas e abrir fogo contra a população para defender o chavismo. Acho que se Maduro pedir ajuda aos militares para reprimir as manifestações e atirar contra os venezuelanos, teremos uma situação um pouco mais complicada, em que eles podem optar por não defendê-lo", afirma a diretora.

"Até agora, o Exército basicamente apoia Maduro. Os oficiais de mais altas patentes mantêm seus negócios, suas oportunidades, seus aluguéis e têm imunidade. E eles se preocupam em perder tudo isso se o governo mudar. É uma questão de interesses pessoais. Eles não se comprometem com o chavismo como uma ideologia".

Esta explosão social ainda teria um longo caminho pela frente, e dependeria da intensidade, do número de manifestantes nas ruas e persistir por várias semanas. "É muito difícil prever o momento preciso de tal explosão social, mas os eventos nas últimas semanas sugerem que estamos nos aproximando de um ponto de inflexão, que Maduro vai lutar para permanecer no poder além do fim de seu mandato."
 
No caso de uma transição do chavismo, Risa acredita que seria algo caótico, mas rápido. Este cenário inclui novas eleições gerais, nas quais a oposição estaria bem posicionada para vencer. 

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