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A tensão entre a Coreia do Norte e os EUA pode afetar o Brasil?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Gabriel Melo

Do UOL, em São Paulo

15/08/2017 08h43

A troca de ameaças entre a Coreia do Norte e os EUA provoca tensão a ponto de se falar na possibilidade de conflito nuclear.

O negativismo em relação ao futuro provocou incertezas em todo o mundo e teve um pequeno impacto na economia dos EUA.

Em meio a este cenário de tensão, qual seria a sua implicação ao Brasil? O país poderia ser afetado? O UOL ouviu alguns especialistas para analisar os cenários da tensão entre EUA e Coreia do Norte e como ela afetaria o Brasil.

A tensão atual pode afetar a economia brasileira?

As ameaças entre os EUA e a Coreia do Norte têm ocorrido desde os primeiros meses de mandato de Donald Trump, porém a tensão aumentou após o presidente americano afirmar que os EUA irão responder às ameaças norte-coreanas com "fogo e fúria".

A afirmação não só elevou o nível de tensão como também fez com que os principais mercados financeiros (de ações) do país caíssem, o índice do dólar, que mede o valor da moeda americana com relação a um grupo de seis moedas, caiu 0,1%. A insegurança perante as ameaças também fez com que diversos investidores buscassem os chamados "refúgios", como o franco suíço e metais preciosos, como o ouro, que tiveram um aumento no mesmo dia.

Com essas mudanças no mercado norte-americano preocupações a respeito de um possível impacto na economia mundial também surgiram, o que poderia afetar a economia brasileira, pois mudanças no valor do dólar, por exemplo, seriam capazes de afetar as importações e exportações do país.

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Porém para os especialistas entrevistados pelo UOL a tensão atual não é capaz de afetar a economia brasileira.

"Não vejo problemas agora que possam impactar a economia mundial, isso assumindo que a China está administrando a Coreia do Norte... Se as coisas continuarem como estão podemos ter somente algumas flutuações, mas nada que afete a economia do Brasil", diz Roberto Dumas Damas, professor de economia do Insper.

Para ele se as coisas continuarem como estão nada "relevante" irá acontecer, porém se acontecer seria o "fim" e causaria uma "bruta crise" econômica. Segundo ele, também não existe "meio termo" ou é "tranquilo" como está agora ou é "muito feio".

O professor de economia da USP, Gilmar Masiero, acredita que a tensão atual não irá impactar no valor do dólar. "É um conflito muito pequeno para ter oscilações na moeda norte-americana", disse Gilberto.

Em caso de guerra, a economia brasileira seria afetada?

Os especialistas entrevistados divergem em relação aos impactos econômicos que uma guerra entre a Coreia do Norte e os EUA poderia causar ao Brasil.

Para Gilmar Masiero, um conflito entre os países, mesmo sendo bélico, não causaria um movimento homogêneo (como quebra das grandes bolsas mundiais) como nos grandes conflitos anteriores, que pudesse afetar a economia brasileira, pois a bolsa brasileira não faz parte das sete grandes bolsas mundiais.

"Nós temos sete grandes bolsas no mundo e a brasileira não é uma delas. As duas maiores, que são americanas, somam mais do que as outras cinco.", disse Gilberto.

Para ele o Brasil só poderia ter a economia afetada se houvesse uma crise financeira internacional, porém, essa guerra não deflagraria uma crise financeira internacional e o único público afetado seria o norte-americano.

"Conflitos bélicos com norte-coreanos, sírios e iraquianos não deflagram crise financeira internacional... Quem é afetado é o público interno norte-americano", disse Masiero.

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Já o professor Roberto Dumas acredita que no caso de uma guerra, o conflito não iria ficar somente entre os EUA e a Coreia do Norte e seria algo regional.

"A coisa não vai ficar somente entre Coreia do Norte e Estados Unidos. A China não quer que a Coreia do Norte caia. A Coreia do Sul é um 'satélite' dos EUA e a China não vai permitir uma Coreia unificada com todas as ogivas nucleares dominadas pelos EUA", disse Roberto.

Para ele o conflito regional iria causar uma ruptura na cadeia produtiva de todo o mundo, o que impactaria as exportações mundiais e, consequentemente o Brasil.

Uma pesquisa da "Capital Economics", uma empresa de consultoria econômica de Londres, indica, por exemplo, que se a Coreia do Sul fosse impactada pela guerra a cadeia produtiva mundial poderia ficar desorganizada. Segundo o estudo, a Coreia do Sul representa cerca de 2% da produção econômica global e em uma guerra se houvesse uma queda de 50% no PIB sul-coreano, 1% do PIB mundial seria atingido. Além disso, há os efeitos indiretos, a Coreia do Sul é a maior produtora de displays de cristal líquido do mundo, por exemplo, e se os sul-coreanos fossem atingidos na guerra, haveria uma escassez do produto no mundo todo.

Em tempos de guerra, alguns países exportadores que possuem fortes ligações com os países em conflito acabam se beneficiando economicamente, porém os especialistas entrevistados pelo UOL concordam que essa guerra entre EUA e Coreia do Norte não traria nenhum benefício para o Brasil.

Para o coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec, José Luiz Niemeyer, a guerra é sempre "algo ruim" para o sistema internacional.

"A guerra é sempre ruim em um sistema internacional tão interligado...Ela não seria positiva para o Brasil, pois gera uma instabilidade internacional e qualquer tipo de crise diplomática faz com que o preço do petróleo aumente, as compras internacionais mudam e os fluxos de comércio exterior ficam comprometidos.", disse José Luiz Niemeyer, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec.

Qual seria a postura do Brasil em meio a um agravamento nas tensões?

De acordo com o professor de relações internacionais da FAAP, Lucas Leite, o Brasil seguiria a tradição da política interna (diplomática) de usar organismos multilaterais, como a ONU, para recorrer a maneiras de não se usar a força e de se buscar uma cooperação entre os dois países.

Segundo ele, na década de 50, quando estava ocorrendo a guerra das Coreias, os EUA pediram tropas brasileiras para ajudarem e o Brasil recuou, pois isso "não condizia com a ideologia do país" e para ele, hoje, o Brasil seguiria com a mesma postura caso ocorresse o mesmo.

"O Brasil seguiria com a mesma postura, pois o país está em um momento de fragilidade. A gente não tem qualquer tipo de relação com essa tensão e nossas preocupações são mais internas.", disse Lucas.

Embaixada norte-coreana em Brasília - Reprodução/GoogleStreetView
Embaixada norte-coreana em Brasília
Imagem: Reprodução/GoogleStreetView

O professor José Luiz Niemeyer, também concorda que a postura do Brasil seria a de não apoiar nenhum dos países.

"O papel do Brasil como membro das Nações Unidas é o de condenar as ações norte-coreanas e também norte-americanas.", disse José Luiz.

Em relação ao risco do Brasil ser um possível inimigo e alvo da Coreia do Norte, a chance seria pequena.

Segundo Lucas Leite, o Brasil não tem relações "profundas" com a Coreia do Norte, mas não tem problemas diplomáticos.

"O Brasil não tem relações profundas com a Coreia do Norte, mas também não possui problemas diplomáticos e inclusive possuí uma embaixada em Pyongyang.", disse Lucas.

7.ago.2017 - Imagem divulgada pelo departamento de Defesa dos EUA mostra um B-1B da Força Aérea americana sobrevoando a região próxima da península coreana - Força Aérea dos EUA via AFP
7.ago.2017 - Imagem divulgada pelo departamento de Defesa dos EUA mostra um B-1B da Força Aérea americana sobrevoando a região próxima da península coreana
Imagem: Força Aérea dos EUA via AFP

Uma guerra está próxima?

Os especialistas concordam que é muito difícil prever a possibilidade de uma guerra.

Para eles o embate diplomático e a troca de ameaças entre os países têm feito com que o clima atual pareça "muito pior do que realmente é" e isso contribui para um "aumento da relevância da ameaça nuclear".

"Existem duas lideranças com perfis parecidos que trabalham com noticiais falsas e uma retórica de conflito e não da cooperação. Parece que a coisa está mais grave do que está porque eles utilizam este tipo de retórica.", diz José Luiz Niemeyer.

O professor Lucas Leite acredita que uma guerra é muito "difícil de acontecer" e que a ameaça nuclear ganhou relevância devido à retórica do presidente dos EUA.

"O que a gente vê na verdade é uma radicalização da retórica que foi feita pelo presidente Trump, e isso aumentou a relevância da ameaça nuclear, algo que a nossa geração [gerações mais novas] não imaginavam", disse Lucas.

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