Sem governo efetivo, Somália enfrenta terrorismo islâmico que preocupa até Trump

Do UOL, em São Paulo

A Somália, palco de um atentado duplo que deixou mais de 300 mortos no último sábado (14), na capital Mogadício, vive em estado de guerra e caos desde 1991. Naquele ano, o ditador Mohamed Siad Barre foi derrubado, o que deixou o país sem um governo efetivo e sob ameaça de milícias radicais islâmicas.

Arte UOL

A maior ameaça é o Al-Shabab, que significa "juventude" em árabe. Mesmo sem reivindicar o ataque, o grupo é apontado pelo governo somali como único suspeito pelos atentados. Ouvido pela agência Associated Press, Matt Bryden, especialista em assuntos de Segurança relacionados à África, afirmou que "nenhum outro grupo na Somália tem capacidade de construir uma bomba desse tamanho".

O Al-Shabab frequentemente ataca áreas de Mogadício e preocupa os Estados Unidos, que trabalham com o governo somali para combater os terroristas. Neste ano, o Exército norte-americano aumentou o número de ataques com drones e outros esforços contra o Al Shabab, resultando na morte de um líder dos militantes, Ali Jabal, em 30 de julho.

A Somália é um dos países no polêmico veto migratório idealizado por Trump, que restringe a viagem de cidadãos de oito países aos Estados Unidos --segundo a Casa Branca, as medidas pretendem "melhorar a capacidade e os processos de vigilância para detectar a tentativa de entrada nos Estados Unidos de terroristas ou novas ameaças à segurança pública".

Até hoje, os ataques de militantes do Al-Shabab se limitaram à Somália e países vizinhos como Quênia e Uganda, --as ações se concentraram nesses países porque ambos estiveram presentes nas tropas militares da União Africana que atuaram na Somália.

Apesar disso, já houve ameaças diretas aos Estados Unidos, com militantes pedindo, em fevereiro de 2015, que seus "simpatizantes no Ocidente" praticassem atentados em solo norte-americano. Os ataques, no entanto, não se concretizaram.

Farah Abdi Warsameh/AP
Ataque é o mais letal da história do país desde que o grupo surgiu

Governo fraco, terrorismo em alta

A comunidade internacional, incluindo os EUA, a ONU e a União Africana dão respaldo ao governo somali, comandado pelo presidente Mohamed Abdullahi Mohamed desde fevereiro deste ano.

O líder foi eleito indiretamente pelo Parlamento do país em uma eleição não convencional: os 275 deputados que o elegeram haviam sido escolhidos por 14.025 delegados designados em função de um complexo repartição de poder entre os diferentes clãs do país. A eleição, que teria voto direto, estava inicialmente programada para agosto de 2016, mas teve data e sistema alterados devido à falta de segurança.

Apesar da falta de representatividade, o pleito parlamentar e a eleição do presidente foram um avanço com relação à convocação em 2012, na qual só 135 líderes tribais se encarregaram de formar um parlamento de consenso que desse os primeiros passos da transição democrática, marcada por governos interinos e de transição desde a queda de Siad Barre em 1991.

Feisal Omar/Reuters
Integrantes do Al-Shabab em Mogadício, em foto de setembro de 2011

Grupo controla zona rural

Nesse contexto, o Al-Shabab surgiu em 2006 com o objetivo de objetivo de derrubar o governo somali e instaurar uma lei baseada no wahabismo, com uma interpretação radical do islamismo, semelhante à visão do Estado Islâmico.

O grupo ganhou força ao longo dos anos e passou a dominar parte do território do país, mas foram expulsos da capital em 2011 por tropas somalis e da União Africana. Os rebeldes, no entanto, continuam controlando as zonas rurais e executam atentados com estratégia de guerrilha contra os militares, o governo e alvos civis.

Segundo Tricia Bacon, consultora de contra-terrorismo e especialista em Somália ouvida pelo "New York Times", o Al-Shabab executa ataques mais significativos quando se sente "sob pressão", situação em que se encontra agora em virtude da intensificação dos bombardeios americanos.

Apesar disso, ela considerou o atentado duplo em Mogadício um "erro de cálculo" para os terroristas porque possivelmente levará a população a apoiar o governo contra os militantes. (Com agências internacionais)

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