Ação militar no Zimbábue é intervenção na política e conta como golpe, diz especialista

Daniel Buarque

Colaboração para o UOL, de Londres

A ação do Exército do Zimbábue, que assumiu o controle do país para supostamente proteger o presidente Robert Mugabe, deve ser entendida como um golpe de Estado, segundo uma pesquisadora especializada na história política do país.

Para Sara Rich Dorman, mesmo que o Exército negue, não há outro nome para o que acontece no país nesta quarta-feira (15).

"É um golpe. É uma intervenção militar na política. Eles alegam que estão agindo para defender os interesses de Mugabe, que constitucionalmente é o presidente, mas não está claro se ele pediu isso. Não há motivo para achar que ele pediu. Conta como golpe. Não vejo como chamar de outra coisa", disse Dorman em entrevista ao UOL.

Cientista política especializada em questões africanas, Dorman é professora da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e editora sênior da revista acadêmica "Journal of Southern African Studies". Ela também é autora de "Understanding Zimbabwe - From Liberation to Authoritarianism" (Entendendo o Zimbábue - Da Liberação ao Autoritarismo), publicado no ano passado, em que analisa a história política do país.

Segundo ela, entretanto, a ação militar "é um tipo peculiar de golpe, com um padrão diferente, que não vimos em outros lugares", disse. Em vez de derrubar o governante e o grupo do poder, os militares parecem querer assumir o governo dizendo que estão defendendo-o.

"Dada a posição de Mugabe e esta tradição, parecia improvável que alguém tentasse derrubá-lo. Daí o que estamos vendo, uma intervenção militar que aparentemente não o tirou do poder. Assim eles conseguem assumir o governo sem precisar romper de forma tão definitiva com o sistema. Eles fizeram um golpe em defesa do partido que está no poder. É um modelo distinto de golpe", disse.

Dorman afirma que isso acontece porque é raro haver golpes no Sul da África, pois a maioria dos países da região tem sistemas partidários fortes. Muitos grupos que conquistaram a independência continuam no poder. Isso garantiu um nível de legitimidade para governos civis, o que tornou difícil ver intervenções militares contra esses governos.

Arte UOL

Segundo ela, se a ação der certo, este modelo peculiar de golpe pode ser exportado e intervenções assim podem acontecer em outros países do continente.

"Este modelo de intervenção pode ser atraente para outros países em que a maioria das disputas acontece dentro dos partidos dominantes. Não havíamos visto os militares agindo de forma aberta assim em questões deste tipo. Agora que isso se torna possível, abre-se a possibilidade de trajetórias semelhantes em outros lugares. Não daria para ver claramente onde, mas é uma nova forma de jogar a política africana, e, se der certo, as pessoas podem tentar repetir", disse.

Ação militar

Apesar de negarem um golpe, militares bloquearam o acesso de veículos ao Parlamento, à sede do partido no poder, o ZANU-PF, e ao Supremo Tribunal. Os escritórios onde o chefe de Estado reúne seus ministros também foram cercados.

A ação ocorre em meio a uma crise entre Mugabe e o líder do Exército após a destituição do vice-presidente, Emmerson Mnangagwa.

Mnangagwa foi destituído uma semana depois de ter discutido com Grace, mulherde Mugabe e primeira na linha de sucessão do marido, de 93 anos. O ex-vice-presidente tem fortes vínculos com o Exército, após ter ocupado o cargo de ministro da Defesa.

No início da semana, o comandante do Exército, Constantino Chiwenga e advertiu para uma intervenção dos militares.

Mugabe é o decano dos chefes de Estado em atividade e dirige o Zimbábue desde a independência do país, em 1980. Sob o seu regime autoritário, o país africano empobreceu muito e desde o início dos anos 2000 lida com alto desemprego e crise econômica. Mugabe anunciou que concorreria em 2018 a um novo mandato.

Silêncio

O silêncio de Mugabe em meio à intervenção do Exército é o que está ocorrendo de mais estranho no desenrolar dos fatos nas últimas horas, segundo a pesquisadora ouvida pelo UOL. "A falta de resposta do regime é sem precedente. Isso é o principal indicador de que estamos vendo algo novo na política do Zimbábue". Segundo Jacob Zuma, presidente da África do Sul, Mugabe está "encarcerado em sua casa", mas "está bem". Zuma  teria conversado por telefone com Mugabe.

É difícil saber o lugar de Mugabe no futuro do país após esta ação militar. "Qualquer pessoa que acompanhe a política do Zimbábue sempre soube que não havia chance de Mugabe renunciar ao poder. O Exército parece ter desenvolvido um cenário em que ele pode continuar no poder, mas não ter poder de verdade durante um processo de transição. Isso demonstra respeito a ele, que é crucial no país e dá legitimidade à ação, e permite que ele saia do poder sem conflito. Isso é importante para as pessoas que têm aspirações políticas no país, pois elas não têm espaço para romper definitivamente com ele."

Para Dorman, a tradição histórica de golpes na África é evitar derramamento de sangue, e é normal militares agirem com discurso de restauração, falando em restabelecimento dos processos democráticos, mesmo que isso não aconteça. Apesar dessa história, os próximos dias vão ser de tensão, diz.

"O Zimbábue tem uma história difícil de violência política e conflitos entre facções no governo. Há potencial de instabilidade e violência, mas, se a liderança política for tão estratégica quanto ela está parecendo ser, ela vai tentar projetar uma imagem de estabilidade política nas próximas semanas, o que pode acalmar a situação."

Estabilidade

Segundo ela, entretanto, o vice-presidente destituído, Mnangangwa, antes visto como um possível sucessor de Mugabe, pode gerar risco para a estabilidade do país.

"O problema é que ele é uma figura perigosa, que esteve envolvida em alguns do episódios mais brutais da história política do Zimbábue. Apesar de achar que a estabilidade pode ser conquistada nas próximas semanas, sem violência, a trajetória futura pode não ser tão estável quanto a história política do país foi até agora. Este processo é um ruptura na forma como as coisas acontecem, e vai ser difícil reequilibrar o poder no Zimbábue", afirma.

Um outro ponto importante para entender a movimentação política no país é o envolvimento da China, que tem investido muito na África. "Pesquisas no continente mostram que a China defende estabilidade, e quando o poder muda de mãos de forma rápida, eles vão junto com a mudança. O que não interessa a nenhum investidor internacional é a instabilidade e a incerteza. O que eles querem é uma definição clara de quem está no poder e para onde a política caminha. Se alguém puder restaurar a ordem e criar este ambiente, independente de quem seja, os investidores vão manter a relação sem problemas."

O Ministério de Relações Exteriores da China confirmou nesta quarta-feira que o chefe do exército do Zimbábue, o general Constantine Chiwenga, visitou o país na semana passada, mas negou qualquer relação dessa viagem com a tensão que vive o país africano.

"Tratou-se de um intercâmbio militar normal", disse hoje o porta-voz de Relações Exteriores chinês, Geng Shuang, que também negou outras informações que afirmavam que o ex-vice-presidente zimbabuano, Emmerson Mnangangwa, também tinha viajado para a China.

O porta-voz chinês acrescentou que seu país, "como amigo do Zimbábue, acompanha de perto o desenvolvimento da situação" e ressaltou que "a paz e a estabilidade servem aos interesses fundamentais do Zimbabué e dos países vizinhos".

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