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Maioria dos venezuelanos é levada para área com maior desemprego de São Paulo

Rovena Rosa/Agência Brasil
Venezuelanos chegam no abrigo da Prefeitura de São Paulo em São Mateus Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

13/04/2018 04h00

"Há pouca oportunidade de trabalho e venezuelanos demais [em Roraima]." Essa era a tônica dos refugiados que aguardavam em Boa Vista as viagens do governo federal para outras partes do país em março. Um mês mais tarde, mais da metade dos refugiados venezuelanos que desembarcaram em São Paulo foi instalada na região da cidade com maior índice de desemprego.

São 128 refugiados recebidos pela Prefeitura de São Paulo no CTA (Centro Temporário de Acolhimento) de São Mateus, na zona leste. Segundo dados da Fundação Seade, a área em que o bairro de São Mateus está localizado registrou 20,2% de desemprego no ano passado --a maior taxa na capital paulistana; na cidade toda, a taxa é de 17,3%. 

No total, 199 venezuelanos foram trazidos pelo Exército para São Paulo. A maior parte sob responsabilidade da prefeitura, que acolheu ainda 33 venezuelanos em um abrigo de Santo Amaro, na zona sul. Os demais estão em abrigos da sociedade civil, na região central.

São Mateus fica a cerca de 20 km do centro, onde está instalada a maior parte das ONGs e instituições que trabalham com o acolhimento e a adaptação de imigrantes e refugiados. O CTA de São Mateus está próximo do terminal de ônibus e fica na frente da futura estação do monotrilho da Linha 15-Prata, cuja entrega está atrasada há 8 anos. A inauguração da estação está prevista para junho, segundo o Metrô. Mas, durante a chegada dos imigrantes ao local, ainda era possível ver muito entulho e obras em curso.

Antônio Cruz/Agência Brasil
Venezuelanos vindos de Boa Vista durante o voo para São Paulo, com escala em Cuiabá Imagem: Antônio Cruz/Agência Brasil

Estrangeiros na periferia

Uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope Inteligência afirma que, em toda a zona leste da capital, 53% das pessoas dizem não encontrar trabalho onde moram.

Na zona leste, de acordo com a pesquisa feita em dezembro de 2017, 17% dos moradores trabalham com carteira assinada, enquanto 5% trabalham sem registro em carteira; a porcentagem de pessoas que trabalham por conta própria chega a 30%, enquanto 1% são empresários ou profissionais liberais. O número de desempregados em busca de emprego chega a 16%.

Em entrevista ao UOL, o secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Filipe Sabará, afirmou que a escolha de mandar os venezuelanos para São Mateus ocorreu por causa da baixa utilização do centro de acolhimento. "Como os venezuelanos não têm nenhum vínculo em São Paulo e não têm preferência por estarem no centro ou não, faz muito mais sentido colocar estas pessoas em locais que são recém-abertos e que menos pessoas têm que ser realocadas", afirmou. "Para os venezuelanos não faz diferença nenhuma a questão do território onde eles estão, já que eles não têm vínculos com São Paulo ainda".

"As pessoas estão nas ruas de Roraima, foi um pedido da ONU e é uma questão humanitária, e a gente precisa atender. Além disso, nós priorizamos as regiões centrais geralmente para a população em situação de rua porque é onde eles preferem, justamente para não prejudicar os brasileiros e paulistanos", acrescentou. 

O secretário afirmou ainda que os venezuelanos parte do programa de interiorização terão acesso ao transporte já oferecido atualmente aos usuários dos CTAs e também ao que será oferecido pela Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), como para entrevistas de emprego. Mas o secretário negou que os venezuelanos terão direito a qualquer tipo de gratuidade no transporte coletivo na cidade. 

Especialistas criticam marginalização

"O envio do grupo de venezuelanos para a periferia faz parte de uma estratégia de limpeza do centro. Limpeza étnica, social e também econômica, no sentido da valorização imobiliária da região central. Não é à toa que hoje se criam centros de atendimento para população de rua nas regiões mais isoladas da cidade", afirma Luis Felipe Aires Magalhães, pesquisador do Observatório das Migrações em São Paulo.

" A estratégia do poder público é muito clara: retirar e afastar estes setores sociais do centro da cidade", conclui.

Especialistas em imigração na capital apontam um fluxo recente de estrangeiros e refugiados para a periferia da cidade. No caso dos bolivianos, por exemplo, a mudança para a periferia é explicada pela mudança da indústria de confecção de roupas, que passou a deixar a região central para evitar a fiscalização do Ministério do Trabalho.

Um levantamento do Instituto de Relações Internacionais da USP avaliou que o bairro de São Mateus faz parte da 5ª subprefeitura com maior número de imigrantes na cidade, atrás da Sé, Mooca, Penha e Vila Maria. Com base em dados do CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais), da Prefeitura de São Paulo, o estudo afirma ainda que bolivianos são a maioria dos imigrantes no bairro (representam 74,1% dos cadastrados), seguidos de japoneses (4,1%), portugueses (4,1%), paraguaios (3,1%) e chilenos (2,3%).

Dentro do programa de interiorização, a Prefeitura promete oferecer programas de capacitação e direcionar os venezuelanos para vagas de emprego, e uma empresa espanhola estaria disposta a oferecer algumas vagas para os venezuelanos justamente para atendimento em espanhol, segundo afirmou o ex-prefeito João Doria (PSDB). No entanto, quando perguntada, afirmou que não havia parceria com a prefeitura sobre empregos.

A Prefeitura diz ainda que aulas de português serão oferecidas dentro dos CTAs, mas o venezuelano que depender de apoio de entidades assistenciais a imigrantes e refugiados deve buscar o contato com estes grupos por conta própria.

No Brasil, venezuelanos representaram, no ano passado, mais da metade dos pedidos de refúgio: 17.865 solicitações de 33.866, segundo a Acnur, citando dados da Polícia Federal. Os pedidos no Estado de São Paulo (9.591) só perdem para Roraima em quantidade (15.955). 

Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo
Em São Mateus, 30% dos moradores dizem trabalhar por conta própria Imagem: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

Bairro dormitório

A edição mais recente do Mapa da Desigualdade, também produzido pela Rede Nossa São Paulo, afirma que a remuneração média do trabalhador formal em São Mateus é de R$ 1.906,50 (76º colocação entre os 96 distritos da capital paulista, sendo que o mais alto é o Campo Belo, com remuneração média de R$ 10.079,98).

Os venezuelanos instalados nesta região agora enfrentarão as mesmas dificuldades que a população que vive ali: além da falta de oferta de trabalho, a ausência de serviços públicos e espaços culturais. Eles terão acesso ao sistema de saúde por meio do SUS, que assegura a universalidade do atendimento, e ao sistema de educação, determinado pela nova lei de migração, aprovada no ano passado.

Em São Mateus, ainda segundo o Mapa da Desigualdade, o tempo médio de espera para consultas em Clínica Geral na rede pública é de 54 dias. Já o tempo médio para consultas de médico do programa Saúde da Família é de 23 dias.

Deisy Ventura, que coordenou o estudo do IRI-USP "São Paulo Cosmópolis" lembra que ter acesso ao serviço público não é sinônimo de qualidade, já que as dificuldades para um migrante podem ser ainda maiores. "Nas pesquisas, a gente identifica diversos problemas que vão desde a sobrecarga de determinadas unidades de saúde nas áreas de concentração de migrantes, mas não em função deles, mas sim da densidade populacional e das características socioeconômicas da região", afirma a professora.

Ela cita ainda a questão da experiência e do preparo para lidar com a população refugiada, já que não existe política pública para migrantes. "Muitas vezes, o problema não é a discriminação. Às vezes ocorre até mesmo a incompreensão, como com determinados idiomas. Em uma unidade de saúde na Sé, por exemplo, que tem uma enorme experiência em atendimento de migrantes, é possível ver que eles tomaram iniciativas para tentar se aproximar da população migrante. Mas são iniciativas isoladas, não existe nada disso como uma política", diz.