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Bolsonaro foge de nomes 'óbvios' e escolhe diplomata pró-Trump: Ernesto Araújo

Divulgação
Imagem: Divulgação

Bruno Aragaki e Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

14/11/2018 16h42Atualizada em 14/11/2018 19h05

O diplomata anunciado por Jair Bolsonaro (PSL) para o Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ernesto Araújo, 51, surpreendeu a comunidade diplomática. É, conforme havia adiantado Bolsonaro, um titular bastante jovem para a função.

O chanceler no posto hoje em dia é Aloysio Nunes Ferreira, de 73 anos. O titular anterior da pasta, ainda sob o governo de Michel Temer, foi José Serra, 76, e o último nome do MRE sob Dilma foi Mauro Vieira, 67.

O nome de Ernesto Araújo não figurava entre os "favoritos". O atual ministro, Aloysio Nunes Ferreira, disse ter recebido a indicação "com muita satisfação, sentimento partilhado por meus colaboradores no Brasil e no exterior" e chamou Araújo de "um servidor exemplar do Itamaraty". "Está mais do que talhado para bem servir ao Brasil nas elevadas atribuições que lhe são agora confiadas", afirmou no comunicado.

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Funcionário de carreira do Itamaraty, Araújo foi diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos. Foi recentemente promovido à diplomata de primeira classe e é autor de pelo menos três livros de ficção: "A Porta de Mogar", "Quatro 3" e "Xarab Fica".

"A política externa brasileira deve ser parte do momento de regeneração que o Brasil vive hoje. Informo a todos a indicação do embaixador Ernesto Araújo, diplomata há 29 anos e um brilhante intelectual, ao cargo de ministro das Relações Exteriores", disse Bolsonaro nesta quarta-feira (14).

"Ele escreveu um artigo chamado 'Trump e o Ocidente' uma vez na revista do Itamaraty. Foi uma bomba, uma espécie de declaração da posição política dele. Ele se posicionou claramente simpático ao Trump", disse um funcionário do Itamaraty, sob a condição de anonimato, ao UOL

"Ele jogou muito aberto, fez jogo limpo, não é um cara de intriguinha. Queimou as naus e levou", disse.

Blog pessoal

Reprodução
Autorretrato do diplomata Ernesto Araújo retirado de seu blog Imagem: Reprodução
O futuro chanceler é descrito como um diplomata extremamente erudito, profundo conhecedor da história antiga e exímio escritor --do tipo que “fará os próprio discursos”, diz o funcionário do Itamaraty. Acima de tudo, um “ideólogo”.

O blog que manteve para fazer apoio explícito à campanha de Jair Bolsonaro, chamado "Metapolítica 17", é um exemplo atípico entre diplomatas, que, no geral, preferem não explicitar suas posições. 

A página, ainda no ar, traz críticas ao PT, à esquerda e ao marxismo. "Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista", escreve ele em um texto introdutório. 

O diplomata define: "Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história."

A diretriz do Itamaraty sobre pronunciamentos pessoais é que sejam acompanhados sempre de um “disclaimer”, ou seja, um aviso de que determinada manifestação não reflete a posição oficial do governo. O blog de Araújo acrescentou o “disclaimer” após receber críticas.

É de se esperar das relações exteriores brasileiras sob seu comando uma aproximação com os EUA e com outros governos de perfil afinado a Bolsonaro. O diplomata nunca se manifestou, no entanto, sobre a questão da Palestina, muito cara ao Itamaraty. O Brasil mantém relações diplomáticas oficiais com a Palestina desde 1975, mas essas relações estão agora em risco com a constante aproximação de Bolsonaro e o governo de Israel.

Ainda que de posições consideradas radicais, porém, Araújo é visto como alguém "versátil" e que transita com certa liberdade entre diferentes círculos. "Nunca ouvi falar de casos de atrito grave. É uma pessoa de trato leve", diz o funcionário do Itamaraty.