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Bolsonaro mantém ajuda e manda chanceler para enfrentar crise com Venezuela

Luciana Amaral, Felipe Amorim e Luis Kawaguti

Do UOL, em Brasília e no Rio

21/02/2019 18h56Atualizada em 21/02/2019 20h24

O porta-voz da Presidência da República, general Otávio Santana do Rêgo Barros, afirmou hoje à noite que, no momento, não há possibilidade de conflito na fronteira do Brasil com a Venezuela e que o envio da ajuda humanitária está mantido.

"O governo brasileiro não identifica, neste momento, possibilidades de fricção na região, porque o ponto focal é a ajuda humanitária", disse a jornalistas no Palácio do Planalto. O ditador venezuelano Nicolás Maduro ordenou o fechamento da fronteira terrestre do país com o Brasil numa tentativa de evitar o que ele chamou de "show" para invadir o país militarmente e tirá-lo do poder.

De acordo com o porta-voz, o planejamento realizado pelo governo brasileiro para o envio de apoio humanitário no sábado (23) prosseguirá com a oferta de alimentos e remédios, sem modificações. A ação limítrofe da ajuda é a própria fronteira. Ou seja, caso o acesso à Venezuela seja cortado, os mantimentos serão estocados do lado brasileiro.

Hoje à noite um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) levará ao menos 22,8 toneladas de leite em pó e 500 kits de primeiros-socorros para Roraima. O governo federal ainda aguarda a chegada dos caminhões venezuelanos para transportar a ajuda para o território do país vizinho.

"As tropas brasileiras permanecem em operação na operação Acolhida e na faixa de fronteira nos 150 km que é responsabilidade segundo os decretos de Garantia da Lei e da Ordem. A operação é de normalidade. Há pouco falei com o comandante da brigada. A fronteira estava aberta e com fluxo normal", disse Rêgo Barros.

Segundo o pronunciamento de Maduro, o fechamento da fronteira ocorrerá a partir das 20h de hoje (horário de Caracas; 21h em Brasília). Maduro disse ainda que pode adotar a mesma medida na fronteira venezuelana com a Colômbia, na cidade de Cúcuta, onde toneladas de ajuda humanitária enviadas pelos EUA aguardam permissão para entrar em solo venezuelano.

Indagado sobre o motivo da demora da resposta do governo federal à decisão de Maduro de fechar a fronteira --anunciada no início da tarde--, Rêgo Barros afirmou que o "processo decisório é contínuo" e Bolsonaro se reuniu com os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Santos Cruz (Secretaria de Governo), além de manter contato com Ernesto Araújo, do Ministério das Relações Exteriores.

No início da noite, Araújo afirmou no Twitter que, "seguindo determinação de Bolsonaro", viajará amanhã para Cúcuta, na fronteira colombiana com a Venezuela, a fim de participar de evento promovido pelo presidente Iván Duque e, no sábado (23), irá para Roraima a fim de acompanhar o repasse da ajuda humanitária.

Na segunda (25), estará em Bogotá, também na Colômbia, junto ao vice-presidente brasileiro, general Antônio Hamilton Mourão (PRTB), em reunião do Grupo de Lima para discutir a situação política na Venezuela.

Fronteira fechada?

Mais cedo, em fala ao jornal Folha de S. Paulo, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), afirmou que a fronteira havia sido fechada pelo país vizinho. Depois, disse que apenas carros estavam impedidos de passar, o que é um procedimento normal para o horário.

Segundo o governador, só seria possível ter certeza sobre o fechamento da fronteira na manhã desta sexta-feira. "Nós tivemos informações de que já começou durante a tarde um fechamento parcial, e vai depender agora de ter a confirmação do fechamento às 19h, até 21h, e nós vamos ter conhecimento amanhã de manhã a partir de 6h da manhã se vai ficar fechada em definitivo ou não", disse o governador.

Há venezuelanos que entraram à tarde no Brasil para comprar comida, medicamentos e outros itens com receio de que os produtos se esgotem no país vizinho. Questionado como o governo federal procederá caso a fronteira seja fechada antes de retornarem, o porta-voz falou apenas que serão orientados, sem dar mais detalhes.

O que dizem os militares sobre a crise

Militares da cúpula das Forças Armadas ouvidos pelo UOL se disseram preocupados com a possibilidade de o país ser arrastado para um eventual conflito. Segundo eles, o risco no momento é baixo, mas não foi descartado.

O principal fator de preocupação é a política externa que vem sendo adotada pelo governo Bolsonaro, com uma aproximação crescente com os Estados Unidos, que é opositor ao governo de Maduro, segundo afirmou à reportagem um general envolvido na análise da crise.

A promessa de fechamento da fronteira da Venezuela em Roraima é analisada por militares, por ora, como uma escalada do discurso de Maduro destinado mais ao seu público interno.

"Entendo que, ao fechar a fronteira para evitar a entrega de ajuda humanitária, Maduro manda um recado para seu próprio povo. Mas ele sai perdendo no discurso independentemente do desfecho do episódio. Se ele impedir que os mantimentos cheguem, vai ser criticado por não permitir que o povo seja ajudado. Se permitir, vão afirmar que ele já não tem controle do país", disse o general da reserva Paul Cruz, um dos ex-comandantes brasileiros da ONU no Haiti, que não integra o governo Bolsonaro.

A Venezuela posicionou blindados de transporte de tropas em seu lado da fronteira. Segundo Paul Cruz, imagens do local mostram que eles aparentam servir para dissuadir venezuelanos de tentarem cruzar a fronteira à força, mas não representam ameaça ao Brasil.

Segundo ele, o fechamento da fronteira aparenta fazer parte de uma escalada de discursos mais duros que, por ora, não têm potencial para levar a um conflito. Porém unidades do Exército devem ficar em alerta.

Nesse ambiente, "qualquer pequeno incidente tem potencial para gerar uma crise", disse um oficial ligado à ala militar do governo Bolsonaro.

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