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'Tempo vai mostrar se isenção de visto aos EUA foi correta', diz embaixador

21.mar.2019 - Sergio Amaral dá entrevista na embaixada do Brasil em Washington - Luciana Amaral/UOL
21.mar.2019 - Sergio Amaral dá entrevista na embaixada do Brasil em Washington Imagem: Luciana Amaral/UOL

Luciana Amaral

Do UOL, em Washington

22/03/2019 04h00Atualizada em 22/03/2019 11h42

Aos 74 anos, o atual embaixador do Brasil em Washington, Sergio Amaral, chamou a visita do presidente Jair Bolsonaro a Donald Trump, encerrada na última terça-feira (19), de "um novo encontro" marcado por uma grande "convergência de valores".

"Desta vez, estes valores de democracia, direitos humanos, economia de mercado, influenciaram bastante os resultados", afirmou em entrevista ao UOL.

Já aposentado, Amaral havia voltado à carreira diplomática a pedido de Michel Temer (MDB). Diz considerar "natural" sua substituição por Bolsonaro. "Tive uma opção temporária e, encerrado o governo, já tinha tomado a decisão de voltar ao Brasil."

Ele já faz planos para o futuro. Diz ter sido convidado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para o conselho do Instituto Fernando Henrique. "Gostei muito [do convite] porque o conselho é um lugar muito interessante de discussão sobre a realidade brasileira e internacional."

Para ocupar sua vaga nos próximos meses, há dois candidatos favoritos. Nestor Forster Junior, atualmente ministro de segunda classe --um degrau abaixo de embaixador na carreira do Itamaraty--, é apoiado pela ala do governo influenciada pelo filósofo Olavo de Carvalho. Já o cientista político Murillo de Aragão tem a preferência dos militares, especialmente de dois ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Paulo Guedes (Economia).

Ao UOL, ele analisa os acordos fechados durante a viagem, como a isenção de visto para os norte-americanos sem reciprocidade ao Brasil e o apoio à entrada na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e fala que os dois países "estão direcionados para os mesmos objetivos".

Diz ainda que os EUA têm dado mais atenção a países da América Latina devido à competição entre as grandes potências e à crise na Venezuela. Veja os principais trechos da entrevista.

UOL - Gostaria que o senhor definisse em uma palavra, se possível, a visita oficial do presidente Jair Bolsonaro ao presidente Donald Trump?

Sergio Amaral - Eu diria que é um novo encontro entre o Brasil e os Estados Unidos.

Qual o balanço do senhor em relação à visita?

É um novo encontro que é marcado, em primeiro lugar, por uma grande convergência de valores que nós tivemos sempre com os Estados Unidos, mas que, desta vez, estes valores de democracia, direitos humanos, economia de mercado, eles influenciaram bastante o resto. Influenciaram bastante os resultados.

E que influências esses valores tiveram? Em primeiro lugar, você teve resultados concretos importantes. Acho que o acordo de salvaguardas é um desses resultados porque abre espaço para uma cooperação mais ampla num setor que cada vez cresce mais no mundo, que é o setor do espaço.

Camiseta - Brendan Smialowski / AFP - Brendan Smialowski / AFP
Presidente dos EUA, Donald Trump segura uma camiseta do Brasil em seu encontro com Bolsonaro
Imagem: Brendan Smialowski / AFP

Segundo, permitiu o apoio americano à candidatura brasileira na OCDE, que acho que é outro passo importante. Estive conversando com o ministro [Paulo] Guedes e ele acha esse o [passo] mais importante, porque isso vai dar mais segurança aos investidores. E você tem todo um setor importante na área de cooperação em defesa e segurança. Vinha caminhando, mas adquiriu agora uma dimensão maior. Sobretudo no que diz respeito a uma cooperação, um trabalho comum na segurança das fronteiras, que é muito importante para o combate à criminalidade no país.

Terceiro aspecto, além da convergência, além dos resultados concretos, é que ele abriu toda uma agenda de trabalho que não apresenta resultados necessariamente agora, mas que vai apresentar resultados importantes nos próximos meses ou anos em vários setores. Na área de comércio, investimentos, espacial, porque tem toda uma programação que vem depois e que vai bastante importância.

Eu não incluo agora a designação do Brasil como grande parceiro fora da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], porque não sei muito bem no que isso poderá significar. Com o tempo, mesmo não sei se a relação do Brasil passaria a ser apenas de grande parceiro ou de presença na Otan como membro, porque depende de uma série de regulamentos da própria Otan ou depende também da avaliação do Brasil em saber se os custos compensam os benefícios.

Como o senhor enxerga essa mudança na relação com os Estados Unidos?

Eu enxergo como uma convergência. É um momento em que os dois países estão naturalmente direcionados para os mesmos objetivos. Segundo, é uma afinidade entre os dois presidentes. Acho que essa relação espelha o caminho que o Brasil está buscando trilhar que é semelhante ao caminho que o presidente Trump está trilhando. Os próprios presidentes, as trajetórias deles são semelhantes. São "outsiders" do sistema político, ainda que o Bolsonaro tenha sido deputado por um bom tempo, mas nunca esteve numa posição central do Executivo. Fizeram campanhas extremamente muito singulares com base na mídia social e numa atração da população pela capacidade de conexão com ela.

jantar - Alan Santos/PR - Alan Santos/PR
Ao lado de Olavo de Carvalho, presidente Jair Bolsonaro acompanha o discurso do embaixador brasileiro nos EUA, Sergio Amaral
Imagem: Alan Santos/PR

Num balanço da visita em evento aqui em Washington, diretores do FMI [Fundo Monetário Internacional] e pesquisadores brasilianistas afirmaram que é preciso antes promover reformas no Brasil, como estruturais, da Previdência Social, tributária, para os resultados da visita se efetivarem. O senhor concorda?

Concordo e talvez vá um pouco mais além. Não é que é para a relação cumprir com tudo aquilo que ela promete. O Brasil precisa fazer essas reformas para o seu interesse próprio. É difícil pensar que a economia tem condições de fazer uma caminhada sustentável sem essas reformas. É difícil dizer que você poderá resolver dois dos problemas também. Explico a eleição do presidente. Uma parte, todos sabem, foi a questão da corrupção e da criminalidade. Sem que haja mudanças importantes na forma de o país enfrentar essas duas questões, que são graves e não de curto prazo.

Ao longo da visita, houve muitas críticas no Brasil pelo fato de a isenção dos vistos só ser para os americanos, sem reciprocidade. Essa questão dos vistos era um pleito antigo do Ministério do Turismo e, na gestão do ex-presidente Michel Temer, o Itamaraty era radicalmente contra. Como o senhor avalia?

Acho que essa avaliação é difícil no momento. O Itamaraty trabalha em geral com a ideia de reciprocidade com a qual eu concordo. Agora, o argumento usado pela indústria do turismo é que a isenção de vistos não pode ser considerada somente sob a ótica da reciprocidade, porque o maior beneficiário seríamos nós mesmos.

Aí o tempo vai mostrar se isso será assim mesmo. Se nós sofrermos um aumento substancial no ingresso do turismo por causa desse fato, acho que a medida vai se mostrar correta.

Há especialistas que argumentam que o Brasil terá de ceder demais na OMC [Organização Mundial do Comércio] em troca do apoio formal dos Estados Unidos para a entrada do Brasil na OCDE. A gente viu que a Argentina no ano passado conseguiu o apoio dos EUA, mas sem sucesso na OCDE. Como avalia? Foi feita uma troca de prioridade da OMC pela OCDE por parte do Brasil?

De certa forma, sim, porque isso foi uma demanda. Os Estados Unidos são muito bons negociadores. E eles gostam de, se eles dão uma coisa, gostam de ganhar outra do outro lado. No início eles pensaram em trocar por liberalização agrícola. Depois nas últimas conversas levantaram essa questão. Veja bem, é muito difícil você comparar duas coisas tão diferentes quanto o que é a OCDE, que, neste momento, o que se discute é apenas o apoio a certos candidatos para negociarem com a OCDE.

A partir daí vai se iniciar o processo de negociação. No caso do Brasil, essa negociação talvez seja mais fácil do que outros países, porque temos uma parte do caminho já andada. Nós assinamos e participamos de 72 protocolos. Quer dizer, em várias áreas nós avançamos no sentido de aproximarmos de práticas dos países mais desenvolvidos. Só quando se reunir o conselho da OCDE é que vai ser possível iniciar a negociação. E a próxima reunião do conselho vai certamente apoiar o Brasil, porque só faltava o apoio americano. Esse processo leva quanto tempo? Dois anos ou um pouco mais. Depende de quanto desse caminho você já percorreu. No nosso caso acho que o caminho que falta é relativamente pequeno.

Agora, o que é mais importante para o Brasil? A entrada na OCDE ou a preservação da categoria de país em desenvolvimento?

A entrada na OCDE, na verdade, tem um valor mais simbólico do que outro valor efetivo. Qual a mensagem dela ao mundo? Que o Brasil tem práticas econômicas avançadas e que são uma garantia para o investidor

Não tem como medir quantos investidores entraram por causa dessa segurança. Eu acho que muitos. Agora, na OMC, pertencer à categoria de países em desenvolvimento nos deu no passado algumas vantagens. Mas isso não quer dizer que essas vantagens serão retiradas. O Brasil poderá deixar de pleitear em algumas novas questões objetivas examinadas na OMC o mesmo critério diferenciado e mais favorável. O Brasil não está na OMC para manter o status em desenvolvimento. O Brasil está lá para se desenvolver. Então, acho que é difícil avaliar se o país terá resultados ou perdas concretas.

Na campanha, Trump nunca se voltou muito para a América do Sul, nossa região prioritária. Qual a opinião do senhor sobre a forma como os Estados Unidos veem o Brasil e os países latino-americanos como não prioritários na política externa deles? Enxerga alguma mudança, principalmente com essa visita?

Sim. Diria que no primeiro ano do governo Trump a atenção para a América Latina tenha sido pequena. Acho que hoje essa atenção é maior. E por quê? Porque estamos vivendo um outro momento que não é mais o multilateralismo.

Estamos vivendo um período de competição entre as grandes potências e certamente a América Latina é uma região que desperta o interesse de outros países e acredito que os Estados Unidos queiram consolidar sua presença nesta região.

O segundo fator é o fato Venezuela, que também preocupa os países da região. E, finalmente, acho que neste momento, nessa nova postura diante da América Latina surgiu a oportunidade de uma relação mais forte, mais convergente e que apresenta oportunidades para os dois lados, que foi a eleição do presidente Bolsonaro e agora essa visita.

Vemos que o Trump tem uma posição mais enérgica em relação aos imigrantes ilegais. Como o senhor enxerga a situação dos brasileiros irregulares aqui? Qual a perspectiva para o futuro?

Existe por parte do presidente Trump uma política mais rigorosa em relação aos imigrantes que estão irregulares ou sem documentação. Mas não há nada que tenha ocorrido nesses dois últimos anos desde que estou aqui que possa ter atingido ou tido como alvo a comunidade brasileira. Ela não é alvo. Existem outros países que têm contingente muito maior do que nós temos de imigrantes nos Estados Unidos que são alvo. Nós não somos.

Evidente que há medidas de caráter geral nos atingindo. Particularmente, uma medida que é seguramente de lamentar foi a separação das crianças de seus pais, mas isso nós conseguimos resolver em menos de um mês. O Brasil foi o país que resolveu de forma mais rápida.

Não acredito que isso vai se alterar nos próximos meses ou anos. Existe por vezes uma sensação de insegurança em meio às comunidades brasileiras, mas acho que os consulados têm trabalhado muito nesse sentido em contato com elas.

Eduardo - Luciana Amaral/UOL - Luciana Amaral/UOL
Filho do presidente, Eduardo Bolsonaro foi elogiado por Trump durante a viagem e mostrou alinhamento com ideias do americano
Imagem: Luciana Amaral/UOL

Se o Trump construir o muro na fronteira com o México, como pode nos afetar?

Esse muro, se construído, vai estar muito longe de nós. Tem outros países que terão um efeito maior. Mas o que é interessante observar é que, independentemente do muro, a entrada de imigrantes está se reduzindo. Então, uma contribuição maior do que o próprio muro seja o fato de que o México tenha aceitado, pelo menos tacitamente, ser uma espécie de colchão na fronteira, dando condições para aqueles que se dirigem para lá tenham o atendimento de que precisam enquanto o visto não é concedido. O muro virou questão de política interna, então é difícil saber o que vai acontecer efetivamente.

Em discursos, Bolsonaro disse que seus antecessores no Planalto nos últimos anos, Lula e Dilma, eram antiamericanos. Concorda?

Não comento declarações de outras pessoas. Só elas podem esclarecer alguma dúvida que a imprensa tiver.

A jornalistas, Bolsonaro reclamou que estaria sendo visto no exterior como racista, homofóbico, entre outras acusações. Ele refuta isso e anunciou a troca de embaixadores no exterior, inclusive o senhor. Como avalia esse posicionamento?

Mais uma vez, não vou comentar as declarações dele, mas a informação que eu tive aqui é que não se aplicaria a mim. Porque nós temos feito um trabalho muito amplo de divulgação do Brasil. A gente atua muito na mídia.

Depois, a ideia que tenho presente em relação a mim é que não mudaria muito, porque foi uma decisão que tomei quando acabou o governo Temer de voltar a me aposentar. Não voltei à carreira diplomática. Tive uma opção temporária e, encerrado o governo, já tinha tomado a decisão de voltar ao Brasil. O ministro já tinha conversado com ele [Bolsonaro] e acho que é absolutamente natural que eu saia. Anunciei no jantar [de domingo] que deverei sair proximamente. Espero que talvez em dois meses eu esteja partindo daqui.

O ministro Ernesto Araújo fez uma coletiva de balanço sobre a viagem. Ele cobrou reconhecimento pelos resultados da visita e chegou a usar uma expressão de que não foi o "Papai Noel que entregou os presentes". Disse que o que Brasil atingiu aqui é decorrente de suas ideias. Como o sr. avalia essa atitude?

Não costumo comentar declarações de outras pessoas. Só elas poderão esclarecer se ficou alguma dúvida.

Qual o balanço o senhor faz desta sua volta à embaixada?

Eu diria que esses dois anos e meio em que eu estive aqui foram alguns dos anos mais interessantes e fascinantes da minha carreira diplomática. Tive condições de observar, a partir de um posto privilegiado, que é Washington, um processo de profundas transformações no cenário global, tanto políticas como econômicas. Tive a possibilidade de observar e, de certa forma participar, de um processo muito grande que está ocorrendo nos EUA e nas relações Brasil-EUA. Espero poder ter contribuído para a melhoria dessas relações. Nestas últimas semanas ou meses, tive a possibilidade de ver a assinatura do acordo de salvaguardas, pelo qual me empenhei muito e pessoalmente, e depois uma visita presidencial, de grande dimensão. Acho que elas são o coroamento desse período.

Está satisfeito?

Estou satisfeito. Fechei com chave de ouro.

E para o futuro?

Vou voltar à minha vida, como eu disse no jantar [durante a visita, com a presença do presidente e de ministros]. Vou me reaposentar. Mas eu queria tranquilizar o ministro Guedes que essa reaposentadoria não vai ter qualquer impacto sobre os custos da Previdência Social.

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