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Viagem de Bolsonaro a Israel consolida guinada ideológica, dizem analistas

Fernando FRAZAO / AGENCIA BRASIL - 28.dez.2018/ AFP
Jair Bolsonaro durante reunião com o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, no Rio, em dezembro Imagem: Fernando FRAZAO / AGENCIA BRASIL - 28.dez.2018/ AFP

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

2019-03-30T04:00:00

2019-03-30T21:15:00

30/03/2019 04h00Atualizada em 30/03/2019 21h15

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) embarca hoje para Israel em uma viagem que deve consolidar a guinada na política externa brasileira, realinhando os interesses internacionais ao direcionamento dado pela direita brasileira antiglobalista e pelo "novo Itamaraty" proposto pelo chanceler Ernesto Araújo. Apesar dos acordos econômicos que devem ser assinados durante a visita, a missão de Bolsonaro, segundo a avaliação de analistas, é essencialmente ideológica.

Bolsonaro chega a Tel Aviv no domingo. Ele será recebido pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no mesmo dia, quando ambos assinarão os acordos previstos na viagem. O brasileiro, que viaja com uma comitiva de ministros e seus filhos, o deputado federal e presidente da Comissão de Relações Internacionais da Câmara, Eduardo, e o senador Flávio, envolvido em uma série de denúncias.

"Essa viagem, junto com as duas anteriores, para os EUA e o Chile, cumpre uma função simbólica. Aliás, todo o desenho do giro de Bolsonaro nas últimas semanas seguem este padrão: tem base no 'trumpismo', no pinochetismo e no liberalismo econômico chileno que tanto inspira o Paulo Guedes", afirma David Magalhães, professor de relações internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Agora, em Israel, a dimensão é mais religiosa, cultural e antiglobalista, já que o Estado israelense e o próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu desempenham um papel importante no imaginário de parte da direita brasileira que apoia Bolsonaro, afirma o professor da PUC-SP. "A própria figura do premiê representa algo que é bastante defendido por uma ala do governo brasileiro, que é a figura da direita populista e as críticas à ONU, às normas internacionais. Isso os coloca na mesma escola antiglobalista a qual Trump pode ser associado, assim como o Bolsonaro", avalia Magalhães.

Samuel Feldberg, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, também afirma que a viagem de Bolsonaro para Israel "é uma questão retórica e de imagem".

"A relação econômica entre o Brasil e Israel vai de vento em popa. O Brasil importa de Israel tudo o que pode, e hoje há pouca coisa que o Brasil pode exportar para Israel. Quanto frango ou café 8 milhões de israelenses podem consumir? Aqui não é um mercado para produto brasileiro, principalmente quando o país tem os árabes consumindo milhões de dólares nestes produtos", explica o professor.

A visita de Bolsonaro, da forma como foi desenhada, dá mais sinais das disputas internas que existem pelo controle da política externa brasileira --uma dessas questões é a da mudança da embaixada, que não deve ser anunciada na viagem. "Isso lança luz sobre as divergências entre a posição mais realista e pragmática dos militares com a visão mais do grupo dos olavistas [que seguem o pensamento do escritor Olavo de Carvalho]", diz Magalhães.

Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), encorpa essas análises: "É claro que existe uma dimensão comercial e de tecnologia, que vem sendo muito bem explorada pelo governo. Mas a dimensão ideológica é o que guiou, desde o princípio, as promessas de campanha e o começo do governo Bolsonaro".

Ele lembra ainda que o núcleo olavista dentro do governo Bolsonaro "tem um interesse muito forte em consolidar esse eixo antiglobalista composto pelo Netanyahu, pelo premiê húngaro, Viktor Orbán, pelo vice-premiê da Itália, Matteo Salvini, e todos os políticos conservadores, populistas e antiglobalistas que aparecem pelo mundo. Isso consolida a narrativa da tríade EUA-Brasil-Israel em prol do Ocidente e a mobilização judaico-cristã", diz Casarões.

"Essa aproximação de Israel e o não-constrangimento do governo brasileiro em mudar o voto [o Brasil votou pela primeira vez contra os palestinos na ONU], esta guinada de 180 graus em relação a certos temas mostram que essa política externa brasileira compõe a narrativa de que os olavistas estão ali para transformar radicalmente o Brasil, e não só para reproduzir uma política externa feita pelo estado brasileiro e por pessoas sem alma e sem uma preocupação normativa, muito pragmática, só preocupadas com o dinheiro", opina o professor da FGV.

Dawisson Belém Lopes, diretor-adjunto de relações internacionais da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), lembra ainda que a viagem de Bolsonaro, feita dias antes de Netanyahu disputar a reeleição, é uma espécie de troca de favores.

"É uma retribuição pela vinda de Bibi [apelido do premiê] à posse de Bolsonaro. O Netanyahu foi o convidado de maior expressão. Além disso, concretiza essa aproximação entre os dois países, com bases muito mais subjetivas, ideológicas e religiosas do que propriamente técnica e econômicas, seguindo este viés mais ideológico, mais religioso, já que as vertentes cristãs neopentecostais e o judaísmo se aproximam", destaca Lopes.

Samuel Feldberg acredita ainda que o discurso oficial do governo brasileiro para justificar a aproximação com Israel, de que o Brasil tem muito a ganhar em termos de transferência de tecnologia, de parcerias entre as Forças Armadas, dos projetos de engenharia, da dessanilização de água, parece "pretextual". "Acho que tudo o que está sendo colocado é mais tentativa de justificar publicamente a investida de Bolsonaro, que é muito mais religiosa e simbólica", argumenta o professor da Universidade de Tel Aviv.

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