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Condomínio de estrangeiros e sem provador: uma brasileira na Arábia Saudita

Arranha-céus no centro de Riad, capital da Arábia Saudita. - Diogo Schelp/UOL
Arranha-céus no centro de Riad, capital da Arábia Saudita. Imagem: Diogo Schelp/UOL

Luciana Amaral

Do UOL, em Riad (Arábia Saudita)

31/10/2019 05h08Atualizada em 31/10/2019 10h42

Condomínio exclusivo para estrangeiros, motorista particular, uso de túnica preta chamada abaya e nada de provador para mulheres em lojas de roupas. Assim é a vida de uma brasileira que mora na Arábia Saudita, último país visitado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) em giro pela Ásia e pelo Oriente Médio.

Em conversa com o UOL, uma brasileira que se mudou para o país há três anos para acompanhar o marido, também brasileiro, relata a rotina e as diferenças culturais vividas. Por questões de segurança, ela prefere não se identificar. A reportagem utilizará o nome fictício de Daniela.

Segundo Daniela, a Arábia Saudita ainda sofre com um desconhecimento muito grande por parte dos estrangeiros. Ela mesmo admite que não sabia o que esperar quando o marido recebeu uma proposta de emprego numa multinacional instalada no país e, por mais que pesquisasse na internet, não tinha noção de quão complexas e milenar são suas tradições.

"É um país difícil de ler por fora. Você não entende enquanto não mora", avalia.

A Arábia Saudita é considerada o berço do islamismo. As duas cidades mais sagradas para a religião, Meca e Medina, ficam no país. A maioria da população é formada por muçulmanos sunitas. Eles acreditam em um único Deus, Alá, e no profeta Maomé como o mensageiro final da palavra transmitida por Alá. As mensagens foram reunidas no Alcorão, livro sagrado do islamismo.

Os sauditas praticam uma interpretação mais conservadora das leis islâmicas do que seus vizinhos. No país, por exemplo, não é permitida a venda de bebida alcoólica e as mulheres precisam da autorização do pai, marido ou irmão para atividades como trabalhar ou viajar.

Elas também precisam usar uma espécie de túnica preta chamada abaya que cobre todo o corpo, além de véu na cabeça. Grande parte ainda costuma cobrir o rosto, deixando apenas os olhos visíveis.

Famílias sauditas em parque de diversões em Riad. - Diogo Schelp/UOL - Diogo Schelp/UOL
Famílias sauditas em parque de diversões em Riad.
Imagem: Diogo Schelp/UOL

Estrangeiras são dispensadas de cobrir o cabelo e de vestir a abaya em algumas localidades, como no aeroporto.

"A primeira impressão [que tive] foi de um pouco de receio de tudo, porque a expatriada lá só usa a abaya, não precisa cobrir o rosto. Então, eles identificam rapidamente que você é expatriada. Minha sensação era que estava todo mundo me observando, mas, ao mesmo tempo, me sentia segura", falou.

"É um país muito seguro mesmo. Não se compara com o Brasil. Os homens, apesar de olharem para você, porque vê que é expatriada, não mexem. Eles respeitam", completou.

Daniela mora com a família em um condomínio —chamado de 'compound' no país— exclusivo para estrangeiros. Árabes não entram, nem para trabalhar. A restrição se deve às diferenças culturais e religiosas.

A administração do local é feita, em sua maioria, por indianos, paquistaneses e filipinos, que saem de seus países em busca de uma vida melhor. A mão de obra é muito barata, e, por isso, às vezes são discriminados pelos árabes, disse.

O condomínio funciona como uma minicidade norte-americana e conta com mercado, creche, academia, quadras de esporte, piscina e até praia privativa. Toda a manutenção das residências, como jardinagem e encanamento, é de responsabilidade da administração.

O aluguel de uma casa pode chegar a R$ 25 mil por mês, mas os custos relativos à moradia costumam ser pagos pelas empresas que contratam os estrangeiros a fim de atraí-los.

Dentro do condomínio é possível consumir bebidas alcoólicas, promover festas e usar roupas ocidentais livremente. "A vida dos expatriados é muito boa, tem certo luxo. É como se fosse um resort no Caribe", afirmou.

Os filhos de estrangeiros costumam estudar em escolas internacionais voltadas a imigrantes. Ela afirma que a maioria dos expatriados fica de três a cinco anos na Arábia Saudita. Depois, voltam aos países de origem ou buscam novas oportunidades.

"A gente [estrangeiro] vive numa bolha, na verdade. Quando a gente sai daquela bolha, a gente começa a cansar um pouco das limitações", relatou.

Arquitetura em cidades sauditas tem mistura de prédios modernos e tradicionais. - Diogo Schelp/UOL - Diogo Schelp/UOL
Arquitetura em cidades sauditas tem mistura de prédios modernos e tradicionais.
Imagem: Diogo Schelp/UOL

Aos poucos, o país tem se mostrado mais aberto ao mundo e liberado certas atividades para as mulheres, como tirar carteira de motorista.

"A gente tem visto uma transformação muito grande no país no último ano, como as mulheres dirigindo. Muitas mulheres começaram a tirar os panos cobrindo o rosto. Quando cheguei, não via isso e agora começamos a vê-las mais descobertas. Muitas estão começando a entrar no mercado de trabalho também", relatou.

Nem todas as estrangeiras, porém, podem dirigir no país. Por ser legalmente dependente do marido, Daniela não pode guiar. Ela conta com um motorista particular e usa um ônibus do próprio condomínio que faz rotas diárias para os principais pontos de interesse da cidade.

Questionada sobre o que mais sente falta de fazer, Daniela admite ser ficar à frente do volante, mas ressalta o trânsito complicado. "Eles não respeitam nada. Não existe lei de trânsito. É uma loucura, te dá muito medo. Correm muito, atravessam na frente, fazem o que querem", disse.

Um costume que surpreendeu Daniela quando chegou ao país é o fato de rezarem cinco vezes ao dia. Nos momentos das orações, todo o comércio é fechado. Se estiver numa loja, por exemplo, ela será fechada, evacuada e reaberta apenas após o fim das orações.

"É bem complicado, porque o seu horário tem de ser todo cronometrado em função das rezas", disse.

Lojas em rua de Riad. A cidade conta com cerca de 6 milhões de habitantes. - Luciana Amaral/UOL - Luciana Amaral/UOL
Lojas em rua de Riad, cuja região metropolitana conta com cerca de 7 milhões de habitantes.
Imagem: Luciana Amaral/UOL

Daniela disse nunca ter sido abordada pela polícia religiosa e hoje nem ver mais a corporação nas ruas. No entanto, não se sente confortável em pensar de participar de reuniões que expressem outras fés que não a islâmica.

Por ficar no meio do deserto e, consequentemente, ser muito quente durante o dia, os sauditas costumam sair mais às ruas a partir das 16h e dar preferência a locais com ar condicionado.

Cinemas, shows e teatros começam a ser permitidos no país, inclusive com patrocínio do governo saudita para incentivo da cultura. Por ser uma novidade para a população, Daniela afirma que ingressos nem sempre são fáceis de conseguir. Já os restaurantes são divididos em áreas para famílias e solteiros.

"Os árabes são muito família. Isso é de se admirar. Estão sempre juntos", falou.

Um dos maiores choques culturais é que nas lojas de roupas não há provadores para mulheres, lembra. A alternativa é experimentar só em casa ou fazer do banheiro do shopping o provador. Se não ficar bom, já realiza a troca.

Indagada sobre como enxerga a relação das mulheres sauditas com regras não vistas no Brasil, por exemplo, Daniela acredita haver uma "mistura de sentimentos". Por um lado, acredita que as mais privilegiadas financeiramente são felizes por viverem com conforto e até mesmo luxo. Por outro, com o maior acesso à internet e às redes sociais, querem mais liberdade, avalia.

"Tenho a impressão que a questão de usar a abaya é mais uma exigência da sociedade do que apenas religioso. No [país vizinho] Bahrein pode tomar bebida alcoólica, pode vestir roupas normais. Quando vemos elas cruzando para o Bahrein de carro, vemos elas já tirando a abaya e as coisas do rosto", ponderou.

* A jornalista viajou a convite do governo da Arábia Saudita.

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