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Vídeo mostra explosão, Irã nega míssil: o que se sabe sobre avião que caiu

Wanderley Preite Sobrinho e Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

10/01/2020 10h49

De vítima de um ataque americano há uma semana a suspeito de cometer um erro que tirou a vida de 176 pessoas cinco dias depois, o Irã rebate a acusação de ter atingido acidentalmente o avião da Ukraine International Airlines na quarta-feira (8), apesar de um vídeo divulgado sugerir o contrário.

Até agora, o que se sabe sobre a queda do avião pouco mais de 48 horas após o incidente?

    O vídeo

    Na tarde de ontem, um vídeo divulgado pelo jornal The New York Times reforçou as suspeitas de míssil atingindo a aeronave. A gravação mostra um clarão em uma aeronave, que não explode totalmente e, por isso, tenta retornar ao aeroporto iraniano.

    "Uma pequena explosão ocorreu quando um míssil atingiu o avião, mas ele não explodiu, segundo o vídeo", escreveu o diário. "O jato continuou voando por vários minutos e tomou o rumo de volta para o aeroporto, segundo apurou o Times. O avião voou em chamas rumo ao aeroporto antes de explodir e cair rapidamente, conforme mostrado por outros vídeos verificados pelo The Times."

    Destino era a Ucrânia, e boa parte dos passageiros era canadense

    Há dois dias, um Boeing 737 caiu às 6h12 (23h42 do dia anterior em Brasília), cinco minutos depois de decolar do aeroporto de Teerã, no Irã, com destino a Kiev, na Ucrânia.

    Autoridades canadenses, americanas e inglesas anunciaram a suspeita de que a aeronave teria sido abatida por um míssil de fabricação russa utilizado por iranianos.

    "Isso pode ter sido acidental", afirmou o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. "É extremamente importante que haja uma investigação completa."

    O Canadá é parte interessada nas investigações já que 63 dos 176 a bordo eram canadenses.

    As outras vítimas eram de:

    • Irã: 82
    • Ucrânia: 11
    • Suécia: 10
    • Afeganistão: 4
    • Alemanha: 3
    • Reino Unido: 3

    Ucrânia adota cautela

    O presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, afirmou o que a possibilidade de um míssil ter derrubado o avião não está descartada, mas que preferia tratar o assunto com cautela.

    "Dadas as declarações recentes dos líderes dos Estados na mídia, exortamos todos os parceiros internacionais, especialmente os governos dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, a enviar dados e evidências relacionados ao desastre à disposição da comissão de inquérito", afirmou Zelensky em comunicado.

    "Cientificamente impossível", alega o Irã

    As autoridades iranianas disseram ter certeza de que o Boeing ucraniano "não foi alcançado por um míssil". Segundo o chefe da Organização de Aviação Civil do Irã, Ali Abedzadeh, é "cientificamente impossível que um míssil tenha atingido" a aeronave.

    "Não têm lógica", disse. "Se um foguete ou um míssil atinge um avião, ele cai em queda livre." Ele lembrou que, depois de decolar, a aeronave continuou voando por cinco minutos, e que "o piloto tentou voltar ao aeroporto, mas não conseguiu".

    Em comunicado, o porta-voz do governo, Ali Rabiei, disse que "ninguém assumirá a responsabilidade por uma mentira tão grande."

    "É lamentável que a operação psicológica do governo dos EUA, e aqueles que o apoiam de maneira consciente e inconsciente, estejam aumentador a dor das famílias enlutadas propagando essas falácias", afirmou.

    Quanto tempo vai durar a investigação?

    As caixas-pretas do avião serão "abertas" hoje. Nenhuma informação adicional foi fornecida sobre quem vai examinar os dados, mas Ali Abedzadeh, disse preferir que seu país lidere a operação de extração de dados.

    "Preferimos fazer o download das caixas pretas no Irã. Mas se percebermos que não podemos fazer isso porque as caixas estão danificadas, procuraremos ajuda", afirmou ele em entrevista coletiva.

    Toda a investigação pode se estender até o próximo ano, segundo as autoridades. Dependendo da dificuldade dos trabalhos, ajuda externa pode ser requisitada.

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    Qual a relação da Ucrânia com o Irã?

    O episódio colocou mais um país em meio ao já conturbado xadrez geopolítico desse conflito.

    Paulo Velasco, professor de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), afirma que, tradicionalmente, a Ucrânia tem se alinhado politicamente aos Estados Unidos e, consequentemente, em contraponto com a Rússia.

    "Desde o fim da Guerra Fria, a Ucrânia entra um pouco na lógica dos países da antiga União Soviética e do leste europeu, que identificaram nos Estados Unidos uma espécie de libertador da opressão soviética", afirma.

    "Não que vivamos uma guerra fria no Oriente Médio, mas é uma maneira de a Rússia mostrar sua envergadura militar e também colocar uma linha vermelha, impor um limite às ações norte-americanas", afirma.

    EUA já derrubaram avião do Irã por engano

    O cenário de uma possível derrubada acidental do Boeing 737 da Ukraine International Airlines por forças militares do Irã presume a repetição de um erro cometido pelos Estados Unidos na região do Oriente Médio há pouco mais de 30 anos.

    Em 3 de julho de 1988, um Airbus A300 da Iran Air que transportava 290 pessoas —entre elas, 66 crianças— foi derrubado por um míssil disparado a partir do navio de guerra americano USS Vincennes.

    Segundo os americanos, a aeronave comercial foi confundida, no radar, com um caça militar F-14 que poderia atacar o navio -e, por isso, foi abatida. Todas as pessoas a bordo do avião morreram.

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