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Biden marca troca de poder nos EUA, mas não o fim do isolamento brasileiro

19.jan.2021 - Presidente eleito Joe Biden e Jill Biden participam de evento antes de cerimônia de posse em Washington - JIM WATSON/AFP
19.jan.2021 - Presidente eleito Joe Biden e Jill Biden participam de evento antes de cerimônia de posse em Washington Imagem: JIM WATSON/AFP

Dimalice Nunes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/01/2021 04h00

Governo após governo, o Brasil sempre manteve boas relações com os Estados Unidos, a ponto dos governo petistas, alinhados à centro-esquerda, preferirem a abertura dos republicanos ao protecionismo dos democratas, como lembra Celso Amorim, ex-ministro das Relações Internacionais (2003-2010) e ex-ministro da defesa (2011-2015). O tempo dilui essa percepção e, agora, com início do mandato do democrata Joe Biden, seu partido pouco importa diante da desastrada política exterior do governo de Jair Bolsonaro.

O problema hoje não é saber se democratas ou republicanos são melhores para se relacionar com o Brasil, o problema é aqui. O Brasil está com um governo anormal, então qualquer que seja a situação lá será ruim."
Celso Amorim, ex-ministro das Relações Internacionais

A história sobre um melhor relacionamento com republicanos corre há anos, mas, atualmente, a alternância de poder nos Estados Unidos significa pouco diante da posição em que o Brasil se encontra hoje.

O governo de Jair Bolsonaro (sem partido), especialmente na figura do chanceler Ernesto Araújo, fez uma opção em sua política externa: trocar uma longa tradição diplomática que tinha no diálogo e no pragmatismo a base para a defesa dos interesses brasileiros por uma postura movida à ideologia e enfrentamento.

O isolamento internacional já é uma consequência visível dessa postura, mas uma nova fatura desta conta deve chegar com a posse do democrata Joe Biden na presidência dos Estados Unidos. "Não nos damos bem com ninguém e não vamos nos dar bem com os Estados Unidos", afirma Amorim.

Especialistas ouvidos pelo UOL são unânimes em afirmar que a sucessão de erros na condução da política externa já colocou o Brasil na posição de pária internacional, o que se aprofunda com a chegada de Biden. O democrata promete reestabelecer o multilateralismo no comércio exterior, abandonado por Trump e rechaçado, à reboque, por Bolsonaro.

"Vai ficar caracterizado o absoluto isolamento do Brasil", reforça Amorim. Para o ex-chanceler, o Brasil não tem aliados nem mesmo entre os governos de direita, como ficou claro no recente episódio da compra de vacinas da Índia. O governo brasileiro não tem mais a quem se dirigir quando precisa de alguma coisa porque tem péssimas relações com os vizinhos e com as grandes potências", avalia.

O mesmo se dá com a China. Após sucessivas postagens ofensivas contra os chineses por parte de membros do governo — a mais célebre delas, do ex-ministro da educação Abraham Weintraub —, o país asiático espera uma retratação formal do governo brasileiro para seguir exportando insumos para a produção da Coronavac pelo Instituto Butantan.

Mesmo antes da posse, o cenário já é de desgaste. Para Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, o governo Bolsonaro fez "uma escolha sem lastro de racionalidade", sem seguir os preceitos da política externa, que é agir em benefício do país.

Existe uma irracionalidade na forma como o Brasil estruturou as relações com os Estados Unidos, não foi uma relação entre estados, e sim uma relação entre figuras no poder, entre Bolsonaro e Trump."
Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da PUC-SP

"Torcida" bolsonarista

O presidente Donald Trump ouve o assessor internacional da Presidência brasileira, Filipe Martins, ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro, ministro Ernesto Araújo e o secretário de Governo americano, Mike Pompeo, na Casa Branca - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Em 2019, Trump se reúne com Filipe Martins, Eduardo Bolsonaro, Ernesto Araújo e o secretário de Governo americano, Mike Pompeo, na Casa Branca
Imagem: Reprodução/Twitter

Donald Trump, derrotado nas eleições norte-americanas, sempre foi apresentado por Bolsonaro como um aliado de primeira hora, embora o Brasil não tenha colhido frutos concretos desta aliança. Tal relação fez Bolsonaro, seus filhos e membros de seu governo quebrarem outra regra que alicerça as relações internacionais e tomarem partido de Trump publicamente.

Um chefe de Estado não poderia ter feito torcida, deixado clara a sua predileção na eleição de outro país. A despeito de qualquer relação pessoal, o que está à frente são os interesses comerciais e diplomáticos, num espaço de negociação e diálogo."
Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Mackenzie

Questão climática deve ser grande nó na relação

Para além da disputa retórica, a mudança de rumo na política dos Estados Unidos em diversas áreas deve trazer consequências práticas ao Brasil. Como já mostrou o UOL, o grande ponto de discordância entre o governo Biden e Bolsonaro será a agenda ambiental. Biden já sinalizou que vai iniciar seu governo dando ênfase a quatro pautas centrais: social, saúde, econômica e meio ambiente.

O país se tornou um pária climático global, vai haver uma tensão, inclusive, com os produtos agropecuários brasileiros perdendo prestígio internacional."
Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da PUC-SP

Murta acredita, ainda, que o governo Biden tentará criar uma pauta econômica global em torno da recuperação pós-pandemia. Mas, com o Brasil defendendo o fim do multilateralismo, numa fuga clara da tradição diplomática brasileira, o país pode ser alijado deste processo.

"O Brasil sai da sua trajetória histórica na diplomacia e adere a uma política ideológica que nos isola daquele que era o último grande parceiro, mesmo que de forma retórica", afirma Murta.

Entrada de brasileiros nos EUA durante pandemia

O primeiro capítulo desta nova novela diplomática já está no ar. Trump, num aceno aliado, anunciou na segunda-feira, 18, o fim da proibição de entrada de brasileiros em território norte-americano a partir de 26 de janeiro. Em minutos Biden reagiu e disse que manterá as restrições.

"Este caso, embora pontual, mostra que, se o governo brasileiro não mudar sua postura, não retomar sua tradição diplomática, entrará num enfrentamento perigoso, no sentido de um Brasil ainda mais isolado globalmente", pondera o professor da PUC-SP.

Para além desta primeira medida prometida, Amorim não acredita em ações mais radicais ou imediatas por parte dos Estados Unidos contra o Brasil, o que não quer dizer que o Brasil poderá contar com o apoio dos norte-americanos em demandas futuras.

"Somos um país grande e muito importante no cenário internacional. Governos passam e o país fica. O relacionamento entre os presidentes será muito difícil, e isso terá repercussões no comércio e na representação do Brasil em organismos internacionais", avalia Amorim

Agora vai se desfazer a ilusão de que o Brasil tinha os Estados Unidos como aliado, que haveria um relacionamento especial que poderia nos trazer algum tipo de benefício", finaliza.
Celso Amorim, ex-ministro das Relações Internacionais

À frente, apenas uma mudança radical de atitude poderia iniciar um processo de retomada de alianças e reconquista do respeito internacional perdido na condução da política externa brasileira.

"Em política, o impossível é quando morre. No mais, tendo boa vontade, diálogo, disposição, e uma dose de humildade, é possível reverter a situação", acredita Rodrigo Prando. Para o professor, a situação atual com os Estados Unido é um capítulo importante, mas é um desdobramento da política de enfrentamento internacional.

Nada é imutável, mas essa reversão tem que partir do Brasil, com a substituição da agenda ideológica e das afinidades pessoais por questões do interesse do Brasil."
Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Mackenzie

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