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Como Taleban tomou principais cidades afegãs 20 anos após o 11 de Setembro

12.ago.2021 - Vista geral da bandeira do Paquistão e da bandeira do Taleban ao fundo, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão - Abdul Khaliq Achakzai/Reuters
12.ago.2021 - Vista geral da bandeira do Paquistão e da bandeira do Taleban ao fundo, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão Imagem: Abdul Khaliq Achakzai/Reuters

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo*

13/08/2021 04h00

O grupo extremista Taleban ganha cada vez mais terreno dentro do Afeganistão, despertando alerta na comunidade internacional. O grupo havia perdido força desde a entrada das tropas norte-americanas no país, mas viu um espaço perfeito se abrir com a retirada delas nos últimos meses.

Ontem, o grupo tomou o poder em Herat, a terceira maior cidade do país, e à noite anunciou a ocupação de Kandahar, a segunda maior. Antes, os talebans já haviam tomado Ghazni, a 150 km da capital Cabul. A estratégia do grupo está sendo formar um cerco em torno da capital, onde habita mais da metade da população.

O Taleban já conseguiu avançar em 16 das 34 capitais provincianas do país, enquanto outras 18 estão sob ameaça de serem tomadas, segundo o site Long War Journal, da Foundation for Defense of Democracies (Fundação para a Defesa das Democracias, em tradução livre), projeto que monitora a guerra dos EUA contra a Al-Qaeda.

A queda após o 11 de Setembro

A formação do Taleban remonta aos anos 90, quando mujahideens afegãos e guerrilheiros islâmicos se uniram para combater a ocupação soviética no Afeganistão. O grupo ganhou apoio popular e governou o país de 1996 até a invasão americana de 2001.

Os Estados Unidos enfrentavam outro grupo extremista, a Al-Qaeda, do então líder Osama bin Laden. Em 1999, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) adotou uma resolução que vinculou Al-Qaeda e Taleban como entidades terroristas e impôs diversas sanções contra os grupos.

Atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 nos EUA - REUTERS/Sean Adair - REUTERS/Sean Adair
Atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 nos EUA
Imagem: REUTERS/Sean Adair

Em 11 de setembro de 2001, membros da Al-Qaeda sequestram quatro aviões, jogando dois no World Trade Center em Nova York, um no Pentágono em Washington DC e o último em um campo em Shanksville, na Pensilvânia.

O então presidente americano, George W. Bush, declarou a "guerra ao terror", prometendo caçar Osama bin Laden no Afeganistão. O republicano falou diretamente ao Taleban ao pedir que o grupo "entregasse às autoridades dos Estados Unidos todos os líderes da Al-Qaeda que se escondem em sua terra", ameaçando com "o mesmo destino" a eles, caso não o fizessem.

Suspeitando que o Taleban estivesse abrigando Bin Laden, forças americanas e britânicas bombardearam o país em outubro do mesmo ano. Logo em seguida, em uma incursão terrestre, forçaram a retirada dos talebans das grandes cidades. Bin Laden, no entanto, conseguiu fugir. A ONU convidou depois as principais facções afegãs para formarem um governo provisório.

O acordo de paz com os EUA

Do governo Bush até o sucessor, Barack Obama, a presença das tropas americanas só aumentou. Ao assumir o cargo em 2009, o presidente democrata reforçou a importância estratégica do Afeganistão para o combate ao terrorismo e anunciou o envio de mais tropas. Ao mesmo tempo, ele prometia um cronograma de retirada das forças americanas do Iraque.

O governo Obama ficou marcado por tentativas de acelerar a retirada do Exército também do Afeganistão, mas com temores sobre o vácuo de poder que poderiam deixar. Ao mesmo tempo, acordos com o Taleban avançavam e regrediam, com ataques nas regiões de fronteira com o Paquistão.

O republicano Donald Trump, quando foi eleito, em 2016, fez a promessa de acabar com "as guerras infinitas" e de tirar as tropas americanas do Iraque e do Afeganistão. Enquanto isso, os ataques do Taleban em Cabul se intensificaram.

Foi a época em que o país fez o maior avanço no sentido de um acordo de paz com as forças afegãs. Assinado no início de 2020, tinha, dentre vários termos, uma completa retirada das forças americanas em troca de o país não mais se tornar um refúgio de terroristas.

Havia um grande obstáculo: fazer o Taleban e o governo afegão concordarem. A retirada precoce das tropas americanas causava o temor em analistas e no povo afegão de uma nova escalada da violência. Além disso, o histórico de nunca ter cumprido promessas jogava suspeitas sobre o Taleban.

A retirada das tropas americanas com Biden

Em 14 de abril de 2021, o presidente Joe Biden, do exato mesmo lugar onde Bush havia declarado a guerra ao terror 20 anos, anunciou a retirada das tropas até 11 de setembro deste ano.

Agora sou o quarto presidente dos Estados Unidos a presidir a presença de tropas americanas no Afeganistão: dois republicanos e dois democratas. Não vou passar essa responsabilidade para um quinto.
Joe Biden em 14 de abril

Ainda restam cerca de 3.500 soldados americanos no Afeganistão, que devem ser retirados independentemente de um progresso nas negociações de paz.

Confirmando os temores de quem achava a retirada precoce, o Taleban mais do que triplicou o número de distritos controlados desde o anúncio de Biden. De 73 que controlava antes, a maioria na fronteira, o grupo passou a controlar 221, de acordo com o Long War Journal, cada vez se aproximando da capital.

A conquista de Herat hoje é a maior vitória do grupo, não só pelo tamanho como pela importância geográfica e comercial. Além disso, o controle de Ghazni também é crucial, pois permite barrar o tráfego de munição e comida para as forças afegãs que estão ao sul do país, aumentando a pressão sobre a frágil frota aérea do país.

Em apenas uma semana, o governo afegão de Ashraf Ghani perdeu 12 capitais provinciais e nove províncias. Segundo o jornal americano The New York Times, a cúpula do Exército dos EUA no Afeganistão teme que o país seja dominado pelos talebans em 30 dias.

Dezenas de países já pediram a retirada imediata de seus cidadãos do Afeganistão. Estados Unidos e Reino já comunicaram o envio de tropas para proteger a capital Cabul.

O vizinho Tajiquistão, ao ver o avanço do Taleban, promoveu o maior exercício militar de sua história e já se prepara para proteger as fronteiras. O país conta com diversas bases militares russas que podem auxiliar e retaliar caso sofra avanços do grupo.

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