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Internacional

Tomada de Cabul: o que tornou a saída do Afeganistão um desastre para Biden

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

18/08/2021 04h00

As imagens da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão estão rodando o mundo. Mesmo programada há anos, a saída dos Estados Unidos do país asiático depois de duas décadas não saiu como o esperado — e repercute diretamente na imagem do presidente Joe Biden.

Com acordo selado com o ex-presidente Donald Trump desde 2020, a tomada do país pelo Taleban não só não foi uma surpresa como acontecia há meses com anuência norte-americana. As imagens de Cabul, capital do país, no último domingo (15) mudam o jogo internacionalmente.

Desastre na execução

A ocupação do Afeganistão, invadido em 2001 após os atentados de Nova York, custou cerca de 300 mil vidas e se tornou um impasse para os EUA nos últimos anos, sem saber como deixar o país. A saída era especulada desde o segundo mandato da gestão Barack Obama (2013-2016), mas avançou realmente em fevereiro de 2020, quando Trump se encontrou com representantes do Taleban em Doha, no Catar.

Em novembro, o republicano perdeu as eleições e coube a Biden executar o plano. Em 14 de abril de 2021, do mesmo lugar onde o ex-presidente George W. Bush havia declarado a "guerra ao terror" 20 anos antes, o democrata anunciou a retirada das tropas até o fim deste mês.

Homens do Taleban guardam entrada do Ministério do Interior, em Cabul - Javed Tanveer/AFP - Javed Tanveer/AFP
Homens do Taleban guardam entrada do Ministério do Interior, em Cabul
Imagem: Javed Tanveer/AFP

O governo norte-americano já sabia do avanço do grupo extremista pelo interior do país, mas foi surpreendido com a velocidade com que chegou à capital, onde moram quase 4,5 milhões de pessoas.

"A decisão política já havia sido tomada há muito tempo, o grande problema foi a execução", afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da FAAP. "Eles sabiam da aproximação do Taleban, mas não esperavam esta velocidade. A inteligência americana não tem capacidade de equacionar isso? Pega muito mal."

Há 10 dias, saiu um relatório do serviço secreto [dos EUA] dizendo que ia levar alguns meses [para o Taleban chegar a Cabul]. Tudo bem, Biden já pretendia sair. Dois dias depois, [a previsão se tornou] dois meses. De repente, caiu. Acontece, mas mostra que eles não tinham noção do que realmente estava acontecendo."
Reginaldo Nasser, professor da PUC

Nasser, que lança um livro sobre a ocupação dos EUA no Afeganistão em setembro, avalia que a "sensação de surpresa" passada pelos eventos de domingo também mostra um profundo desconhecimento por parte dos Estados Unidos (e do mundo como um todo) pelo que acontece no país.

"A população do Afeganistão é de 75% a 80% rural. Lá, acham que Cabul é outro país. Ninguém deveria viver aquela confusão [do domingo], mas não representa o que ocorreu. O Taleban está tomando o país há muito tempo. Fazendo acordos com lideranças tribais. Não é só pela força, não. Há quem veja aqueles homens barbados e ache que são radicais irracionais. Nada disso, sabem ser astutos", afirma Nasser.

"Cabul, internacionalizada, obviamente vai encarar de outra forma. Toda a questão de retirada dos direitos das mulheres, um governo repressivo, ditatorial etc. Mas o país é outra realidade, com centenas de lideranças tribais — parece que os americanos não entenderam isso até hoje", completa.

umulto no aeroporto de Cabul, no Afeganistão - Reprodução - Reprodução
Tumulto no aeroporto de Cabul, no Afeganistão
Imagem: Reprodução

A força das imagens

O avanço do Taleban no sábado (14) gerou pânico em Cabul e fez com que milhares de pessoas se dirigissem ao aeroporto, onde aviões tentavam tirar as tropas norte-americanas, civis e cidadãos de diversos países. Um vídeo com pessoas tentando se segurar nas rodas da aeronave e caindo rodou o mundo.

Para Poggio, a avaliação política, que acaba recaindo sobre Biden, é de desorganização e mau planejamento. Embora as tropas no país não tivessem um número tão expressivo de soldados (cerca de 3.500), o exército mobilizou quase 8 mil homens internacionalmente para fazer a operação às pressas.

É exatamente por isso que o tempo importa, por causa das imagens que ficam. Que o Taleban, com todos as suas questões, ia assumir o poder não era novidade. Mas se eles tivessem saído sem esta imagem de pânico e desespero, a avaliação seria outra."
Carlos Gustavo Poggio, professor da FAAP

As fotos de pessoas tentando subir no avião logo foram comparadas à retirada do exército americano de Saigon, em 1975, com o fim da Guerra do Vietnã, quando o Vietnã do Sul, apoiado pelos EUA, foi derrotado pelo Norte e milhares de pessoas foram à embaixada norte-americana para tentar fugir do país.

Em imagem de 1975, evacuados tentam embarcar em helicóptero americano próximo à embaixada em Saigon - EFE/EFE - EFE/EFE
Em imagem de 1975, pessoas tentam embarcar em helicóptero americano próximo à embaixada em Saigon
Imagem: EFE/EFE

"Tanto do ponto de vista interno como externo, há a percepção de derrota, de retirada, mesmo que não tenha havido confronto. Embora as circunstâncias sejam diferentes, não dá para descartar as similaridades com a retirada do Vietnã imageticamente falando", argumenta Poggio.

Nasser ressalta, no entanto, que, desta vez, o exército norte-americano estava em uma posição muito mais "confortável" do que em 1975 porque eles não estavam sob ataque e o pânico nas ruas se deu por causa do medo do Taleban.

"Em 1975, as pessoas foram à embaixada dos EUA porque a cidade estava destruída e não apoiavam o regime comunista. Mas os americanos estavam em guerra. Agora, não. O medo é de um regime que eles já conhecem, só que não houve ataque. Foi uma tomada", argumenta o professor da PUC.

Por isso, avalia Nasser, a imagem da retirada "fica ainda pior". "Você associa diretamente aos Estados Unidos, que estavam ocupando o país e apoiando o governo que fugiu", diz.

Internamente, impacto é menor

Biden foi à TV na noite de segunda (16) fazer um pronunciamento à nação. Embora os especialistas concordem que a retirada não pegou bem para a sua imagem, também avaliam que o assunto deve ter pouco impacto interno e não atrapalha seu futuro na presidência.

É muito raro que política externa seja decisiva em uma eleição americana. Há exemplos pontuais, como a Guerra do Iraque [iniciada em 2003], mas é raro. Claro que vai ser explorado pelos republicanos, mas o eleitor dos EUA é mais focado em assuntos internos."
Carlos Gustavo Poggio, professor da FAAP

Ele brinca que a trilha sonora do discurso de Biden é "Non, Je Ne Regrette Rien" ("Não, Não Me Arrependo de Nada", em tradução livre), da cantora francesa Edith Piaf. "É um discurso político, voltado ao país. Quando ele fala na execução, admite pequenas falhas, mas é isso", afirma.

"Daqui a pouco, todo mundo já esqueceu. As imagens são impactantes, a questão das mulheres, que repercutem na mídia, mas tanto os americanos quanto outros países vão seguir com as suas questões. Amanhã há um bombardeio em algum lugar, um atentado em outro e a página vira", analisa Nasser.

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