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Guerra da Rússia-Ucrânia

Notícias do conflito entre Rússia e Ucrânia


Quem é o 'Papa' de Putin e qual sua influência sobre guerra contra Ucrânia

O presidente russo, Vladimir Putin, e o patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscou e de todo o pais, Kirill - Alexander Zemlianichenko/EFE
O presidente russo, Vladimir Putin, e o patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscou e de todo o pais, Kirill Imagem: Alexander Zemlianichenko/EFE

Matheus Brum

Colaboração para o UOL

30/03/2022 04h00

Passado mais de um mês do início da Guerra na Ucrânia, religiosos de diferentes credos e diferentes Nações repudiam o conflito bélico que acontece no Leste Europeu. Todas as críticas recaem sobre Vladimir Putin, o presidente russo que ordenou o ataque ao país vizinho.

No entanto, há uma figura que caminha lado a lado com o mandatário russo. Trata-se de Vladimir Mikhailovich Gundyayev, mais conhecido como Cirilo I. É o Patriarca de Moscou e Toda a Rússia, principal liderança da Igreja Ortodoxa Russa.

Com 76 anos, está à frente da religião no país desde 27 de janeiro de 2009. Foi o primeiro patriarca escolhido após o fim da União Soviética. Logo após o início do conflito no Leste Europeu, Cirilo deu declarações ambíguas. Por um lado, lamentou a guerra; por outro, tirou a responsabilidade russa sobre o início do conflito.

"[Que] Deus não permita que uma terrível linha de sangue dos nossos irmãos seja traçada entre a Rússia e a Ucrânia. Este conflito não começou agora. Estou firmemente convencido de que seus promotores não são os povos da Rússia e da Ucrânia, que são unidos em uma fé comum e compartilham um destino histórico. [a Guerra é] parte da estratégia geopolítica desenvolvida, em primeiro lugar, para enfraquecer a Rússia", escreveu o Patriarca em uma carta enviada para o Conselho Mundial de Igrejas.

A postura de Cirilo mostra um alinhamento com o xará Vladimir Putin.

Polêmica na história do Patriarca é o que não falta. Na década de 1990 foi divulgado um relatório em que dizia que ele era um agente da KGB (serviço secreto russo). Segundo o documento, ele teria a missão de difundir os ideais soviéticos em instituições como Conselho Mundial da Paz e Conselho Mundial das Igrejas. O Patriarca sempre negou ter sido agente do serviço secreto.

O líder religioso também foi acusado de fazer importação ilegal de tabaco para a antiga União Soviética na década 1980. Tanto que passou a ser chamado de "metropolita do tabaco", o que ele nega. Outra polêmica é uma foto de 2012 em que, já como Patriarca, aparece com um relógio Breguet, estimado em US$ 34 mil (R$ 150 mil nos dias atuais). Dias depois, a Igreja divulgou uma foto sem a presença do relógio. No entanto, não convenceu, pois o reflexo do objeto aparecia nesta nova imagem.

Ligação com Putin

Cirilo I se coloca como um anticomunista e anticapitalista. Em entrevista à revista Forbes, em 2021, criticou os dois sistemas econômicos e ideológicos.

"Nós, que passamos a era do comunismo, sabemos bem que a ideia de justiça social, transformada em ideologia agressiva, destrói tudo ao nosso redor. Centenas de milhares executados ilegalmente por sua fé, a criação de um gueto social para classes hostis. Esta é a realidade do 'paraíso comunista na terra. Não menos perigoso é o 'evangelho capitalista', que considera a queda do comunismo como prova de sua impecabilidade e sem alternativa", afirmou na ocasião.

Antes das eleições de 2012, o religioso chamou Putin de "milagre de Deus" e agradeceu por toda a ajuda dada pelo político à Igreja Ortodoxa. A religião foi muito perseguida durante o período soviético, que fazia uma separação entre o Estado e a Religião. Diversos templos religiosos foram destruídos ao longo das décadas.

Influência sobre Putin

Apesar do apoio dado à Guerra e a Putin, analistas internacionais não consideram que Cirilo I seja um guru do presidente russo.

"[A Igreja Ortodoxa] teve surpreendentemente pouco sucesso em perseguir seus objetivos políticos quando estes não coincidiam com os interesses do Kremlin. É, portanto, errôneo ver a Igreja Ortodoxa como uma espécie de estatal russa; do mesmo modo, é ingênuo supor que ela tenha muito poder para alcançar objetivos políticos a despeito do Estado", explicou o analista George Sokora, da Universidade de Harvard, em trecho divulgado no site Gazeta do Povo.

Na visão de especialistas, Putin é quem dá as cartas no fim das contas. Ele quer o apoio da Igreja, mas não é um fator determinante nas ações do líder político.

"De forma geral o governo de Putin vê, desde o ponto de vista político, a Igreja Ortodoxa como um importante órgão inspirador da identidade nacional e do patriotismo, onde o clero deve conduzir a Igreja e a Igreja deve ajudar e ser parceira do Estado", explicou o jornalista Daniel Sender, também em trecho divulgado no site Gazeta do Povo.

"Em linhas gerais, pode-se dizer que a verdade se encontra em algum lugar no meio destes termos, uma vez que o governo russo se apoia na Igreja como elemento fundador e legitimador da identidade nacional russa, e a Igreja conta com o Estado para defender sua posição preponderante de árbitro moral da sociedade russa", finalizou Sokora.