Cidade para aposentados na Flórida vive isolada e simboliza o apoio a Trump

Nicolas Bourcier

  • Getty Images/iStockphoto

    The Villages, comunidade para aposentados localizada na Flórida, EUA

    The Villages, comunidade para aposentados localizada na Flórida, EUA

Visitar The Villages de carro é meio que arrombar a porta de um Estados Unidos feliz, dos idosos, dos aposentados brancos e ricos, todos aqueles que hoje formam o cerne eleitoral de Donald Trump. Uma categoria que, em sua esmagadora maioria, permitiu que o candidato republicano bilionário, até as últimas semanas, seguisse de perto sua adversária democrata, apesar de suas gafes e provocações.

É aqui que esses Estados Unidos vivem isolados, atrás das grades e muros altos das "gated communities", condomínios fechados e protegidos. Nesse lugar que fica a uma hora de carro de Orlando, na Flórida, também se cultiva uma certa nostalgia. São os Estados Unidos profundos, visceralmente contrários às elites de Washington, onde o Partido Republicano beira sistematicamente 70% dos votos, com 80% de participação.

Em poucos anos, The Villages se tornou a cidade de crescimento demográfico mais impressionante dos Estados Unidos. De 8.300 pessoas em 2000, hoje ela chega a mais de 120 mil habitantes, um crescimento exponencial controlado por regras comunitárias rígidas, que proíbem a instalação de famílias com filhos menores de 19 anos e que requerem que pelo menos um de seus membros tenha mais de 55 anos.

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Disneylândia para adultos

Essa regra faz do condado de Sumter o mais velho do país (uma média de 63 anos) e do The Villages uma residência gigante para aposentados, pontuada por 49 campos de golfe, e atravessada por estradas limpíssimas e ruas comerciais onde a música ambiente raramente vai além de hits dos anos 1970.

"Estamos em uma Disneylândia para adultos", dizem Denise e Fred, um casal de aposentados de risada franca. Ambos são de Chicago. Ele é ex-pequeno empreendedor, com 50 anos de trabalho e um boné do Donald Trump enfiado na cabeça. "Sempre fui republicano", afirma Fred. Já Denise sempre foi democrata desde muito jovem. "Ele sempre me disse que eu estava enganada, e no fundo ele tinha razão", ela diz sorrindo. "Os democratas hoje levaram este país à sua ruína econômica e moral."

Nos anos 1980, eles acompanharam Ronald Reagan e sua onda conservadora, e começaram a exprimir sua frustração e sua desconfiança em relação aos burocratas e lobistas da capital. Eles seguiram os princípios do Estado mínimo defendidos então pelo ex-governador californiano. Com leniência, eles observaram os movimentos anti-impostos crescerem ao longo dos anos. "Trabalhei e suei durante tantos anos, e não vejo por que devo pagar tantos impostos. Não quero continuar enchendo os bolsos daqueles que não merecem", diz Fred.

Denise concorda: "Assim como a maioria dos americanos, acho que precisamos de uma mudança de verdade, algo de novo, ainda que radical."

É verdade que eles lamentam algumas das declarações do candidato Trump. "Mas que homem nunca falou como ele uma vez na vida entre amigos?", questiona Fred.

Denise acrescenta, com o olhar um tanto tenso: "Com todos esses vídeos e pseudo-revelações, não falam mais na Hillary, sobre suas histórias de corrupção e seus e-mails, a mídia é parcial."

John Mash, 70, era contador em Rhode Island. Assim como todos os dias, ele se senta para ler os jornais em uma das livrarias de The Villages, sempre lotadas. John comprou sua casa por quase US$ 150 mil (cerca de R$ 480 mil) há dois anos, em 2014. "Hoje ela custaria US$ 180 mil" (cerca de R$ 571 mil), ele diz com um sorriso. "Algumas custam mais de US$ 1 milhão e as construções não param" (cerca de R$ 3,17 milhões). Ele também se diz feliz de viver ali: "Estamos entre nós, em segurança, e ainda com uma série de atividades 365 dias por ano."

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Críticas à política migratória

Assim como tantas outras pessoas que encontramos, John diz ter visto a classe média encolher. Ele sentiu o declínio, a perda de confiança no sonho americano, além da desindustrialização e da desestruturação da unidade familiar. As palavras de seu pai, entregador de leite, lhe vêm à mente: "Ele sempre dizia que na época os imigrantes moravam em quatro ou cinco famílias no mesmo apartamento e que uma das mães cuidava da casa e das crianças. Hoje, todos eles têm sua casa e ninguém quer cuidar das crianças". Ele critica a política migratória e todos esses auxílios públicos dos quais ele mesmo se beneficiou, mas cujo uso hoje só "mergulha comunidades inteiras no assistencialismo". E diz ainda: "O mundo mudou, e isso não é bom."

John votará em Donald Trump, "ou melhor, contra Hillary". Segundo ele, a ex-secretária de Estado diz o contrário daquilo que ele pensa: "Afaga o povo durante o dia e trabalha pelos grandes empresários à noite". Ele diz que seu adversário republicano, pelo menos, "não pode ser acusado de não ser transparente! Francamente, que homem não fala desse jeito depois de beber uma cerveja?". Lembrar que o magnata do setor imobiliário diz não beber uma gota de álcool não muda em nada o pensamento de John.

Considerando seu peso demográfico e sua fidelidade eletiva, The Villages virou uma parada obrigatória para republicanos e conservadores. O ex-vice-presidente Dick Cheney, os candidatos Sarah Palin, Mitt Romney, Paul Ryan, Ben Carson e Mike Pence realizaram comícios no local. Megyn Kelly, a famosa apresentadora da Fox News, pretende passar ali depois das eleições para autografar seu último livro. Quando H. Gary Morse, fundador da cidade de aposentados e notório mecenas republicano morreu em 2014, o senador Marco Rubio chegou a saudar esse homem que "soube observar os pastos e as pradarias da Flórida e viu o sonho americano."

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"Empurrar a Flórida para o lado de Trump"

Por duas vezes The Villages viu passar uma carreata de carrinhos de golfe cobertos de cartazes em apoio a Donald Trump. "Ele é o único que pode salvar o país", afirmou Bill Garner, veterano do Exército americano e coordenador local da campanha do candidato.

Aqui, o procedimento do voto antecipado, em geral favorável aos democratas, é utilizado por 47% dos republicanos do condado, o mais elevado índice da Flórida. "Nossa mobilização sempre foi muito forte", lembra uma aposentada militante que prefere não revelar seu nome. "Mas precisamos de ainda mais mobilização para empurrar a Flórida para o lado de Trump." Mas, segundo as últimas pesquisas, após semanas de empate, Hillary Clinton está mais de 3 pontos à frente de seu adversário.

No cinema Old Mill, o filme ativista anti-Clinton "Hillary's America" esteve em cartaz durante mais de um mês no último verão. "O público foi mais do que razoável", explica a jovem caixa, moradora do condado vizinho. Jeff Flynn, aposentado do setor de seguros de Connecticut e porta-voz do pequeno Partido Democrata local, brigou para abreviar seu período de exibição. Em vão. Em 2010, o democrata Kendrick Meek, que concorria ao Senado, não havia sido autorizado a fazer campanha em The Villages.

Barbara Kunz dá de ombros. Ex-embalsamadora de Nova York, ela é uma das poucas em The Villages a colar, atrás de uma das janelas de sua sala, um cartaz de Hillary. "Aqui há muitas pessoas ricas, e elas se sentem ligadas a um empresário como Trump", ela diz. "Existem conservadores pesados, nativistas e racistas também, como antigamente". Ela pensa que talvez seja necessário mudar de política, "mas não assim". Há alguns dias a jovem aposentada viu na rua um grupo de pessoas erguer discretamente o dedão quando passaram de carro. "O gesto foi discreto, mas ele estava lá, e é algo totalmente novo."

Tradutor: UOL

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