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Por que tantas áreas dos EUA estão debaixo d'água

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Inundação do rio Mississippi em torno de casas no Missouri Imagem: Getty Images/BBC

Ritu Prasad*

2019-06-13T11:10:26

13/06/2019 11h10

Mais de 200 hectares da fazenda de Blake Hurst, no estado de Missouri, nos Estados Unidos, estão debaixo d'água.

"Na primeira rodada de enchentes, tivemos mais de 150 acres (60 hectares) debaixo d'água", lembra Hurst. "Boa parte dessa área estava plantada, então essas colheitas foram perdidas."

Isso foi em março, quando fortes tempestades no Meio-Oeste, juntamente com a neve derretida, fez os rios inundarem as comunidades. "Tem sido uma desgraça depois da outra."

Desde então, a área central dos Estados Unidos teve pouco alívio em relação à chuva. Maio foi o segundo mês mais chuvoso da história do país.

Além da chuva, as tempestades trouxeram uma série de tornados - mais de 500 só em maio, segundo relatórios preliminares do serviço de meteorologia dos Estados Unidos (NWS, na sigla em inglês).

Durante esse tempo, os níveis dos rios e lagos continuaram a subir, quebrando recordes de anos, transbordando, e cobrindo rodovias, pontes e cidades. Houve mais de 35 mortes devido a inundações na região, de acordo com o NWS.

"Os Estados Unidos estão separados em dois por centenas de quilômetros", diz Hurst, que é o presidente do Missouri Farm Bureau, entidade que representa os fazendeiros da região, ao descrever a expansão da água no território americano.

Em 10 de junho, cerca de 200 medidores de rios ao longo dos rios Mississipi, Missouri e Arkansas ainda apontavam níveis de inundação, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

"Nós vimos mais inundações na última década do que vimos nas décadas anteriores. Virou algo histórico".

O cientista ambiental Samuel Munoz, professor da Northeastern University, também diz que 2019 entrará nos livros de História.

É "incomum" para a região das Grandes Planícies e o Meio-Oeste, segundo ele, ter essa quantidade de tempestades fortes repetidas e mau tempo durante a primavera.

Parte disso pode ser devido ao El Niño - fenômeno climático que altera temperaturas da superfície do mar no Pacífico.

"As condições do El Niño tendem a aumentar a precipitação e o mau tempo nas áreas inundadas", explica Munoz.

"As mudanças climáticas provocadas pelo homem intensificam essas variações naturais, causando mais chuva em um ano que já teria sido chuvoso."

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Grandes trechos de rodovia em todo o meio-oeste permanecem fechados devido a inundações Imagem: Getty Images/BBC

Keith Hillman, diretor da equipe de gerenciamento de emergência em Vilonia, no Arkansas, diz que a cidade já viu mais que o equivalente a 1,4 metro de chuva desde janeiro.

"Este ano o nível de chuva já está bem acima do normal e, toda vez que você tem muita chuva, ela tem que ir pra algum lugar", disse. "O juiz do condado me disse que eles acham que o rio não estará em situação normal até o fim de julho."

Quando falei com Hillman na semana passada, a equipe dele estava se preparando para o caso de o Lago Conway, na região, inundar. Em certo momento, as autoridades disseram que os níveis de água no reservatório do lago subiam 30 cm por hora.

"É difícil controlar a mãe natureza", disse Hillman.

No entanto, a maneira como esses grandes rios são gerenciados também pode estar contribuindo para essas enchentes históricas.

O sistema do rio Mississipi tem uma elaborada rede de barragens e represas, administradas pelo grupo de engenheiros do Exército dos EUA, segundo Munoz.

"Esses esforços de gerenciamento tornaram o rio mais íngreme e mais estreito. E nossa pesquisa mostrou que essas mudanças fazem com que as águas da enchente corram cada vez mais rápido".

Tais estruturas são, sem dúvida, necessárias do ponto de vista econômico, mas Munoz diz que o problema é que esses sistemas foram projetados para um clima de meados do século 20.

"Como o clima continua mudando, precisamos ter uma conversa nacional e global sobre como vamos viver e trabalhar em áreas mais baixas", diz ele.

"Se ignorarmos este problema, nossos sistemas de gerenciamento de água continuarão a ficar sobrecarregados - e continuaremos a ver desafiadas as nossas suposições do que seria 'seguro' contra inundações."

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Moradores do Missouri usam um barco para se locomover, enquanto as águas das enchentes do rio Mississippi continuam a subir Imagem: Getty Images/BBC

Diferente de alguns desastres, a inundação - especialmente nesta escala - é muito extensa, diz Lori Arnold, diretora da Cruz Vermelha do Grande Arkansas.

A Cruz Vermelha tem operado 10 abrigos no Arkansas e também em Estados vizinhos. Além de fornecer comida e lugar seguro para centenas de pessoas, Arnold observa que os voluntários também têm prestado serviços de saúde mental.

Os moradores da região se orgulham de serem autossuficientes, diz ela. Muitos tentam, mesmo com as inundações, ficar em suas próprias casas o maior tempo possível. Mas este ano as coisas foram diferentes.

Arnold disse que muitos moradores que se mudaram para abrigos disseram que estavam reticentes em deixar suas casas por causa da quantidade de vezes, no passado, que as advertências oficiais tinham exagerado a real situação.

"Então, para aqueles que realmente tiveram que deixar suas casas desta vez, eles ficaram um pouco em choque porque antes estavam imunes a isso".

O rio Mississipi e seu afluente, o Missouri, formam o maior sistema fluvial da América do Norte. Inundações são esperadas - mas 2019 está entre as piores.

Os rios cheios nesta primavera quebraram uma barragem em um ponto e romperam drasticamente diques na região.

"Em nossa região, você pensa em 1952, 1993, e agora vamos pensar em 2019", diz o agricultor Blake Hurst.

Em 1993, após persistentes tempestades de primavera e verão, as águas do rio Mississipi inundaram 400 mil milhas quadradas (mais de 103 milhões de hectares) em nove Estados. Cinquenta pessoas morreram. Os danos foram de cerca de US$ 15 bilhões - o equivalente, hoje, a quase R$ 58 bilhões.

Choveu quase todos os dias em junho e julho de 1993. As previsões do tempo para 2019 preveem de 33 a 50% de chances de chuvas acima da média no Meio-Oeste - que já está com o solo encharcado.

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Alagamento no rio Mississippi chegou à cidade de Foley, em Missouri Imagem: Getty Images/BBC

Nesta semana, o Serviço Nacional de Meteorologia recebeu alertas de inundação ao longo dos rios Missouri, Illinois, Ohio, Arkansas e Mississippi. As águas estão recuando em partes, mas o NWS relata que 125 indicadores de rio, de Minnesota a Missouri, preveem 50% ou mais de chance de inundação de junho a agosto.

No domingo, o nível do rio Mississipi subiu em St. Louis pouco mais de 14 metros - o segundo mais alto da história, e apenas 1 metro a menos do que o recorde de 1993 -, de acordo com o NWS.

A AccuWeather estima que os danos causados ??pelas inundações ao longo dos rios Mississipi e Missouri já superaram US$ 12 bilhões, o equivalente a R$ 46 bilhões.

Hurst diz esperar que, sem novas tempestades severas, os níveis dos rios possam diminuir. E acrescenta: "Mas só porque não tivemos chuva nos últimos dias, isso não significa que as casas das pessoas estejam secas ou que as fazendas não estejam encharcadas".

E algumas das fazendas que ficaram inundadas, ele diz, ainda estão lidando com os danos causados pelas enchentes locais em 2011.

À medida que a inundação recua e a terra emerge novamente, um longo processo de limpeza precisa ser feito. O recuo da água deixa areia e lama, detritos e esgoto em seu rastro, e leva meses para que os processos adequados de limpeza possam começar.

Hurst diz que alguns fazendeiros acreditam que a mudança climática causou o mau tempo neste ano, enquanto outros culpam uma administração inadequada das operações fluviais pelos alagamentos.

"Não importa se o nosso problema é causado por má gestão ou mudança climática, precisamos descobrir como fazer melhor", ele diz. "Tendo dito tudo isso: será que algum tipo de gerenciamento do rio teria impedido a inundação em 2019? Não. Não há nada que poderia ter evitado isso."

*Colaborou Halle Kendall

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