Intocada? Amazônia tem espécies plantadas por povos antigos, indica estudo

Do UOL, em São Paulo

  • Wikimedia

Espécies de árvores domesticadas e distribuídas na Bacia Amazônica pelos povos indígenas antes de 1492 continuam a desempenhar um papel importante nas florestas modernas, é o que revela um novo estudo que refuta a ideia de que a Floresta Amazônica foram praticamente intocadas pelos seres humanos.

Domesticar uma planta significa que ela foi tirada do seu ambiente natural e plantada de uma forma que possa ser útil aos humanos, como perto de casas, por exemplo. Quando uma planta é domesticada prevalecem características genéticas como frutos maiores, menos caroços ou árvores mais baixas para facilitar a colheita.

Os cientistas identificaram 85 espécies que foram brevemente, parcialmente ou totalmente domesticadas por povos pré-colombianos (civilizações que se desenvolveram na América antes da chegada do colonizador europeu). De acordo com a pesquisa, essas espécies domesticadas eram cinco vezes mais propensas a serem dominantes do que as plantas não domesticadas.

Na Amazônia, a domesticação vegetal começou há mais de 8.000 anos. Durante o estudo, publicado pela revista Science, os cientistas analisaram um conjunto de dados existentes que captura 1.170 parcelas florestais e mais de 4.000 espécies de plantas da região.

A pesquisa realizada por uma equipe internacional de ecologistas e cientistas, foi conduzida pela brasileira Carolina Levis, doutoranda do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas) e da Universidade de Wageningen. Os resultados sugerem que a influência humana desempenhou um papel importante e duradouro na distribuição de espécies de plantas e, teoricamente, poderia ser usada para descobrir áreas não identificadas da civilização anterior.

Hans ter Steege
Castanheira do Pará

Castanheiras

O estudo também identificou regiões da Amazônia que atualmente concentram grande diversidade e populações de espécies domesticadas. A Amazônia Sudoeste, onde grandes povoamentos de castanheiras permanecem como uma base de subsistência dos moradores locais, é um exemplo.

A pesquisa retoma um debate da comunidade científica: os seres humanos enriqueceram as florestas na Amazônia com espécies domesticadas ou escolheram viver perto de matas naturalmente ricas nessas espécies?

Por outro lado, em outras regiões como o Escudo Guiana, as espécies domesticadas estão menos bem representadas e a relação entre elas e os sítios arqueológicos é menos clara, destacando a necessidade de mais estudos sobre a história da ocupação amazônica. 

Para os pesquisadores, também é preciso avaliar o nível até o qual a história recente do assentamento amazônico afetou a distribuição e abundância de espécies domesticadas na Bacia Amazônica.

Embora o número relativamente pequeno de espécies domesticadas utilizadas no estudo tenha sido suficiente para revelar um forte sinal humano em florestas modernas, os autores apontam que esses indícios podem ser ainda mais fortes, uma vez que centenas de outras espécies de árvores amazônicas também foram gerenciadas por povos pré-colombianos, mas não foram domesticados.

Em 2015, um estudo publicado pela revista Proceedings of the Royal Society B apontava que a Amazônia foi profundamente influenciada pelos humanos que habitaram a região há cerca de dois mil anos.

No artigo "A domesticação da Amazônia antes da conquista europeia", os pesquisadores afirmam que a variedade de tipos de plantas úteis aos seres humanos e de um tipo de solo conhecido como terras pretas de índio nos sítios arqueológicos podem ser considerados indícios de que as sociedades da Amazônia antiga intervieram no ambiente.

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