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Havaí quer proibir protetores solares para proteger seu litoral; entenda

Região de barreira de corais no Havaí - Caleb Jones/AP Photo
Região de barreira de corais no Havaí Imagem: Caleb Jones/AP Photo

Thiago Varella

Colaboração para o UOL

09/07/2017 04h00

O Havaí pode ser o primeiro Estado norte-americano a proibir o uso de protetores solares que usam dois tipos de produtos químicos que são eficazes ao filtrarem os raios ultravioletas, mas que podem fazer muito mal aos recifes de corais.

O senador Will Espero apresentou um projeto de lei, ao legislativo estadual do Havaí, que pode banir o uso de protetores solares que contêm oxibenzona ou octinoxato, exceto em casos de prescrição médica. O argumento é de que a proibição visa proteger o turismo local, que depende muito dos recifes de corais.

O projeto de lei ainda precisa ser votado e, caso aprovado, sancionado, mas já vem atraindo a atenção de vários outros locais interessados também em proteger seus corais, como Palau, no Pacífico, e as Ilhas Virgens Britânicas.

A Europa também já propôs a proibição do uso da oxibenzona em cosméticos, mas a lei ainda não está vigente.

Coras da baia de Kaneohe, no Havaí - Caleb Jones/AP Photo
Coras da baia de Kaneohe, no Havaí
Imagem: Caleb Jones/AP Photo

A pesquisa

Segundo o estudo, a oxibenzona tem efeitos nocivos mesmo quando altamente diluída. Como está presente em grande parte dos protetores solares, o produto químico é encontrado em altas concentrações nos oceanos. No Havaí, a proporção varia de 800 partes por trilhão a 1,4 parte por milhão. Isso é mais de 12 vezes a concentração necessária para causar danos em corais.

O estudo foi chefiado por cientistas marinhos de Virgínia, Flórida, Israel e do Aquário Nacional americano e da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

"O uso de produtos contendo oxibenzona precisa ser seriamente discutido nas ilhas e em áreas onde a preservação dos recifes de coral é uma questão crítica", advertiu o principal autor do estudo, Craig Downs, do Haereticus Environmental Laboratory, na Virgínia.

Em 2008, um outro estudo mostrou que a oxibenzona também causa clareamento nos corais.

Reprodução/expertbeacon
Imagem: Reprodução/expertbeacon

Alguns lugares do Brasil restringem uso

No Brasil ainda não há nenhuma lei federal ou estadual que proíba o uso de protetores solares nas praias por conta da oxibenzona.

Alguns banimentos pontuais ocorrem em lugares como a praia de Atalaia, em Fernando de Noronha, conhecida por suas piscinas naturais, e as cachoeiras da Chapada das Mesas, no Maranhão.

Faz mal para gente?

O problema é que a oxibenzona é amplamente usada em fotoprotetores no mundo inteiro, desde a década de 1980, inclusive no Brasil. Isso porque, ela é capaz de proteger a pele de um amplo espectro de proteção UV.

"A oxibenzona combinada com outros filtros solares aumenta a estabilidade das formulações mesmo quando exposta a altas doses de radiação UVA e UVB", explicou Priscila Gava Mazzola, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp.

No entanto, além dos danos aos corais, a oxibenzona também pode nos fazer mal. Isso porque, esse composto é bastante alergênico.

"Além do potencial alergênico, há muitos estudos que discutem os males causados pela oxibenzona em caso de absorção da pele. Um estudo com voluntários, publicado no British Journal of Dermatology, por exemplo, constatou excreção pela urina de benzofenona vários dias após o uso contínuo, comprovando que havia absorção do composto através da pele", disse Mazzola.

"Outros estudos em ratos demostraram acúmulo de oxibenzona e seus metabólitos em órgãos como rins e fígado após uso contínuo. Há estudos que relacionam o uso de oxibenzona com disfunções hormonais. Ainda, há estudos clínicos em humanos que demostraram tanto a absorção de oxibenzona pela pele quanto alteração nos níveis hormonais. No entanto, não há resposta definitiva sobre os males da oxibenzona no nosso organismo", completou.

Para a professora, é possível se proteger dos raios ultravioletas sem precisar fazer uso da oxibenzona. Isso porque, existe no mercado uma grande variedade de filtros solares com composições diversas. Por isso, segundo ela, é possível que o consumidor faça uma escolha consciente. Além disso, ainda há uma constante procura, entre os pesquisadores, de novas alternativas para o desenvolvimento de formulações fotoprotetoras.

"Há busca de ativos naturais, extraídos de plantas, flores e frutos, por exemplo, com ação fotoprotetora para substituir, mesmo que parcialmente, os filtros solares químicos. Em meu grupo de pesquisa temos algumas iniciativas como esta em andamento", contou.

Risco não é consenso

Segundo a revista Nature, alguns cientistas são mais reticentes quanto ao papel da oxibenzona na destruição dos corais. Para Jörg Wiedenmann, do Coral Reef Laboratory, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, proibir o uso de protetores solares não vai resolver o problema, já que existem outros tantos problemas, como a pesca indiscriminada, que podem afetar os corais.

Entre os fabricantes de protetores solares, a L’Oréal afirma que diferentes grupos de pesquisadores devem apresentar evidências que comprovem a ação dos químicos nos corais. De qualquer forma, a empresa está trabalhando na produção de protetores solares sem oxibenzona.

 

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