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3 anos após tragédia, famílias estão proibidas de morar em área de Mariana

Ex-moradora de Bento Rodrigues mostra sua casa saqueada; após o rompimento da barragem, moradores têm entrada em seus terrenos controlada - Gustavo Basso
Ex-moradora de Bento Rodrigues mostra sua casa saqueada; após o rompimento da barragem, moradores têm entrada em seus terrenos controlada Imagem: Gustavo Basso

Gustavo Basso

Colaboração para o UOL, em Mariana (MG)

21/11/2018 04h01

Ex-moradora de Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), Terezinha Quintão, 52, mostra as janelas instaladas com remendos e o teto improvisado da varanda da casa onde morou até 5 de novembro de 2015: “Enquanto estávamos nos hotéis em que nos alojaram após a evacuação do distrito, saquearam as casas daqui. Levaram as janelas, portas e até as telhas novinhas, que eu tinha instalado 15 dias antes do rompimento da barragem de Fundão”. 

Três anos depois, Terezinha continua proibida de morar na própria casa. Um decreto municipal diz que ex-moradores de Bento Rodrigues só podem entrar no distrito às quartas, sábados e domingos das 8h às 18h. Ou seja, não podem passar a noite no local. Nem mesmo na parte alta, onde fica a casa dela, que não foi atingida pelo mar de lama da mineradora Samarco, em um dos maiores desastres ambientais da história.

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“Nos dias que se seguiram, nós não podíamos entrar aqui, mas os ladrões entraram. Como isso?”, Terezinha se pergunta.

Hoje, ela, assim como muitos vizinhos, burlam as proibições e voltam a ocupar a área. Alguns inclusive mantêm pequenas hortas. Por descumprir o decreto, a família de Terezinha foi alvo de um boletim de ocorrência registrado pela Defesa Civil de Mariana no ano passado. 

Segundo o órgão, o documento policial foi registrado apenas como salvaguarda, em caso de alguma ocorrência.

“Nós entendemos que eles têm direito de visitar quando queiram, afinal são as casas deles, as terras deles que ficaram lá”, diz o coordenador da Defesa Civil de Mariana, Welbert Stopa, 38.

Mesmo afastados de suas casas, moradores de distritos de Mariana buscam ocupar seus terrenos enquanto aguardam o reassentamento de 'Novo Bento' - Gustavo Basso
Mesmo afastados de suas casas, moradores de distritos de Mariana buscam ocupar seus terrenos enquanto aguardam o reassentamento de 'Novo Bento'
Imagem: Gustavo Basso

Laços

Três irmãs Quintão moravam na parte baixa de Bento Rodrigues quando a barragem de rejeitos de minério de ferro se rompeu. A mais nova das mulheres, Sandra, era dona de um restaurante que servia contratados da Samarco, empresa pertencente às transnacionais Vale e BHP Billiton.

“Na década de 1970, nosso pai passava o dia observando o vale de Germano com medo de que a barragem se rompesse; infelizmente ele estava certo”, comenta ela, que cultivava animais e verduras em uma área que, um ano depois do desastre, foi alagada pelo lago formado pelo dique S4.

O dique foi construído em 2016, com previsão de desmonte em 2021, para impedir que a lama chegue ao rio Gualaxo do Norte, um afluente do rio Doce. Para evitar danos ambientais maiores, foram alagados cerca de 28 hectares do distrito, deixando debaixo d’água casas e ruínas. A construção foi criticada naquele ano por moradores e pelo MP (Ministério Público), que desejavam a manutenção do espaço como memorial da tragédia.

Restrito

Bento Rodrigues hoje tem acesso controlado por três guaritas de segurança, financiadas pela Samarco, e o distrito é classificado como área de risco máximo.

“De acordo com a legislação criada após a tragédia, áreas em um raio de 5 a 10 minutos de um possível rompimento de barragem, em todo o Brasil, são classificadas assim, porque não há tempo hábil de uma resposta das autoridades”, explica o coordenador da Defesa Civil.

As comunidades às margens do Gualaxo do Norte têm um sistema de sirenes que pode ser disparado tanto pelo município como pela mineradora. Quando o rompimento ocorreu, este sistema não existia. “A empresa fazia reuniões periódicas com a comunidade e afirmava que estava tudo sob controle, mas nunca houve treinamento”, diz o ex-agricultor Mauro Célio Muniz.

Em nota a Samarco disse que "possuía um Plano de Ação de Emergência das Barragens de Mineração que seguia o que determinava a legislação". 

Após o vazamento de 40 bilhões de litros de lama da barragem em 2015, 19 pessoas morreram em Mariana e milhares perderam as casas.

Cruzes em homenagem aos mortos no rompimento da barragem - Gustavo Basso
Cruzes em homenagem aos mortos no rompimento da barragem
Imagem: Gustavo Basso

Retomada da normalidade

Em uma manhã de sábado, Muniz, Silmaria, Terezinha e as filhas plantavam milho e abóbora nos fundos da casa sobrevivente ao desastre.

Eles haviam passado a noite na área interditada pela Defesa Civil. É uma das formas de continuar ocupando o terreno enquanto o reassentamento de Bento Rodrigues, chamado de "Novo Bento" não fica pronto.

A construção foi iniciada em agosto deste ano e tem conclusão prevista para agosto de 2020. A nova comunidade estará localizada a 10 km da original.

A mais velha das irmãs Quintão, Maria, diz preferir voltar à comunidade original a viver no novo bairro planejado.

“Vão nos entregar as casas, mas, se liberarem, voltaremos a morar aqui”, diz, enquanto prepara café na cozinha hoje com poucos móveis. Ela teve que se desfazer da maioria dos objetos que tinha em casa.

Moradores de Bento Rodrigues aguardam o reassentamento da região - Gustavo Basso
Moradores de Bento Rodrigues aguardam o reassentamento da região
Imagem: Gustavo Basso

“Nascemos aqui, é onde passamos 40, 50 anos… e tivemos que sair à força”, diz. A irmã Terezinha conta que, quando foram morar no centro de Mariana, tiveram uma hora para retirar roupas e móveis da casa, escoltados pela polícia.

“Foi uma humilhação como tivemos que desmontar tudo e jogar dentro de um caminhão”, comenta a ex-cozinheira, agora desempregada.

No centro de Mariana, Terezinha teve de aprender a viver uma nova rotina: depois de uma vida colhendo o que comia, aos 50 anos, passou a escolher verduras no supermercado.

Me sinto vivendo a vida dos outros, na casa dos outros, há três anos

As famílias dizem já ter solicitado ao promotor Guilherme Meneghin, da comarca de Mariana, liberação para voltar a morar em Bento Rodrigues. Ele diz que não há previsão para que isso aconteça, pois faltaria um plano de manejo do resíduo contaminado que acabou se depositando no distrito.

A Samarco afirma que os rejeitos são classificados como "inertes e não perigosos" e são compostos de "sílica (areia), minerais de ferro e água".

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