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Meio Ambiente

Quase 500 bebês foram internados por conta de fumaça da Amazônia em 2019

Joao Laet / AFP
Imagem: Joao Laet / AFP

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

26/08/2020 00h01Atualizada em 26/08/2020 11h18

Resumo da notícia

  • Mais de 2 mil pessoas foram internadas por doenças respiratórias atreladas às queimadas na Amazônia em 2019
  • 467 destas internações foram de bebês com menos de 1 ano de idade
  • Outros mil idosos também foram afetados

Ao menos 2.195 pessoas foram internadas por doenças respiratórias em 2019 por conta da fumaça oriunda das queimadas na região amazônica, aponta um estudo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e da HRW (Human Rights Watch) publicado hoje. Desse total, 467 foram internações de bebês com menos de um ano de idade; 1.080 foram de idosos com mais de 60 anos.

O relatório "O ar é insuportável" compilou dados estaduais de saúde para chegar aos números. Foram analisadas estatísticas de internações hospitalares, desmatamento, focos de calor e qualidade do ar, em especial na procura de substâncias associadas às queimadas na Amazônia.

Os pesquisadores analisaram a poluição decorrente das queimadas e como o material particulado da fumaça incide diretamente sobre os problemas respiratórios de quem vive na região. Para isolar o impacto direto das queimadas, levaram em consideração variáveis meteorológicas e tendências que afetam a saúde respiratória.

"O relatório mostra que, a cada ano, há uma crise de saúde ocorrendo na região amazônica que pode ser prevenida. Os incêndios, posteriores ao desmatamento ilegal, envenenam o ar que milhões de brasileiros respiram", diz a pesquisadora Luciana Téllez Chávez, que participou do estudo.

Os dados de focos de calor e desmate foram compilados a partir dos satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os dados de poluição são do Sisam (Sistema de Informações Ambientais Integrado à Saúde Ambiental) e a fonte das internações foi o DataSUS.

"Chama a atenção nas doenças respiratórias principalmente as faixas etárias. (...) E este ano os incêndios serão piores por conta da pandemia, o desmatamento está trazendo uma demanda nova, evitável, e em meio à covid-19 fica pior porque já houve colapso dos sistemas de saúde", disse hoje o diretor-executivo do Ipes, Miguel Lago, em coletiva.

Também foram entrevistadas 67 pessoas, entre médicos, servidores públicos da área da saúde, profissionais da área hospitalar, promotores, procuradores e lideranças indígenas.

"A patologia é mais grave conforme for menor a idade da criança (...). Recém-nascidos prematuros, bebês que usaram aparelhos respiratórios, entre outros, são muito sensíveis a essas condições", diz um médico que é diretor-adjunto de um hospital infantil em Porto Velho, em Rondônia, segundo relatado no estudo publicado hoje.

"Tive que hospitalizar muitos pacientes com doenças crônicas, especialmente doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca", diz outro médico que trabalha no Hospital Geral Santa Juliana de Rio Branco, no Acre.

O relatório corrobora um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do final do ano passado, que mostrou que o número de internações de crianças com problemas respiratórios nas cidades mais afetadas pelo fogo, entre maio e junho de 2019, havia dobrado. O aumento destas internações custou R$ 1,5 milhão aos cofres públicos.

De acordo com o relatório publicado hoje, em agosto do ano passado quase 3 milhões de pessoas em 90 municípios da região amazônica foram expostas a níveis de poluição atmosférica nocivos, acima do limite recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde). No mês de setembro, o número aumentou para 4,5 milhões de pessoas em 168 municípios.

"As queimadas e o desmatamento na Amazônia aumentaram dramaticamente durante 2019 —primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro— e 2020 já está se revelando pior", diz um trecho do relatório, que cita que a atual gestão incentiva o desmate e desrespeita compromissos climáticos.

Em 2019, houve aumento de 30% no número de queimadas registradas na Amazônia, em comparação a 2018, segundo dados do Inpe. Foram registrados 89.178 focos no bioma, contra 68.345 no período anterior. As queimadas acabaram por instaurar uma crise profunda no governo Bolsonaro , que teve de lidar com uma série de críticas dos países considerados desenvolvidos.

Neste ano, mesmo com a pressão de investidores em relação à preservação da Amazônia, o mês de julho fechou com uma alta de 28% nos focos de incêndio na floresta, em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados do Inpe. Foram 6.803 focos de incêndio registrados, o pior mês de julho desde 2017.

Desmatamento por ação humana

O número expressivo de queimadas vem atrelado ao aumento do desmatamento, que registrou no ano passado o recorde de destruição da vegetação nativa em dez anos. Desmatamento e queimadas andam, historicamente, lado a lado. Isso porque a floresta necessita da ação humana para pegar fogo. As queimadas são, por vezes, utilizadas para limpar um terreno previamente desmatado ou para o próprio desmate.

"As pessoas deliberadamente atearam fogo depois de cortar árvores, muitas vezes ilegalmente, para limpar terras para agricultura, pastagem de gado ou especulação de terras", diz Téllez Chávez. Para ela, redes criminosas que coordenam a exploração ilegal dos recursos naturais impulsionam a destruição do bioma.

O dado de desmatamento é compilado também pelo Inpe e leva em consideração o calendário do desmatamento utilizado pelo instituto —de julho a agosto do ano seguinte. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, foram destruídos 9.762 km², um aumento de 29,5% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

No último dia 7, o Inpe mostrou que o sistemas de alertas Deter, ferramenta utilizada no combate ao desmate ilegal com base em dados de satélite, registrou alertas de desmatamento em 9.205 km² de áreas da Amazônia entre 1º de agosto de 2019 e 31 de julho de 2020. O número é 34,5% maior que o os alertas emitidos no mesmo período entre 2018 e 2019.

No ano passado, o governo assinou uma operação de GLO (Garantia da Lei da Ordem) a fim de tentar coibir o desmate ilegal e, consequentemente, as queimadas. A operação perdura, sem data para acabar. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) já afirmou que a GLO pode durar até o fim do mandato de Bolsonaro.

"Não adianta mandar 4 mil soldados para a Amazônia se não tem estratégia", diz a diretora de ciência do Ipam, Ane Alencar, em coletiva de lançamento do relatório hoje. "Ano passado houve, aparentemnte, uma ação efetiva [dos militares na floresta]. Já nesse ano não deu certo. O Exército é uma instituição importante, de fundamental apoio, mas o protagonismo deve ser das agências [Ibama, Icmbio]."

Horizonte cinzento

O documento publicado hoje mostra que a tendência para este ano é que as queimadas aumentem. Além da alta no desmatamento, dizem as instituições, "as previsões meteorológicas indicam a incidência de seca em grande parte da região, o que agravaria as queimadas". Segundo o relatório, não só as queimadas podem ser maiores em 2020 como seu reflexo na saúde pode ser pior por conta da pandemia do novo coronavírus.

"A poluição do ar causada pelos incêndios pode piorar os sintomas da covid-19 e resultar no aumento de mortes pela doença. Também sabemos que o sistema de saúde na região amazônica está sob forte pressão devido à pandemia —em algumas partes ele entrou em colapso", diz a a pesquisadora Luciana Téllez Chávez.

Os funcionários de saúde pública com quem falamos na Amazônia nos disseram que temiam que suas instalações não fossem capazes de fornecer cuidados aos pacientes da covid e às pessoas que adoeceram devido à fumaça dos incêndios

Na semana passada, uma névoa de fumaça oriunda das queimadas, associada ao vento seco, tomou a cidade Belém, capital paraense, e chamou a atenção de moradores. Os focos de incêndio se aliaram às temperaturas altas e secas, que chegaram a 34ºC naquela semana.

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