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Meio Ambiente

Sem provas, Bolsonaro volta a culpar índios; Salles nega desmatamento

Do UOL*, em São Paulo

24/09/2020 19h44Atualizada em 24/09/2020 22h40

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a culpar povos indígenas por focos de incêndio nas regiões do Pantanal e da Amazônia, durante participação em sua live semanal.

"Além do impacto, tem uma cultura regional, o índio que toca fogo no roçado, o caboclo também, o pequeno produtor que toca fogo no roçado. Alguns acham que eu devo mudar a cultura, gostaria que pudesse mudar muitas culturas de uma hora para outra, mas quem fala isso não tem noção do que está falando aqui. Poderia falar de mudar certas culturas para área urbana de São Paulo, que tem certas culturas, que virou cultura, que são prejudiciais ao meio ambiente", justificou Bolsonaro, sem citar do que se trata.

"O Brasil é o país que mais preserva. Agora, por que esse ataque criminoso? Essa desinformação absurda em cima do Brasil? É o jogo econômico", completou, sem comprovar dados.

Ao seu lado, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, negou que a Amazônia esteja sendo desmatada. "É mentira que a Amazônia está sendo devastada. Ora, nós temos 84% da Amazônia preservada. Desde que os portugueses aqui chegaram até hoje, 84%. (...) O que precisa ter na Amazônia é desenvolvimento econômico sustentável. Como disse nosso Paulo Guedes [ministro da Economia], não tem inimigo pior para o meio ambiente do que a pobreza, e a Amazônia foi deixada na pobreza."

Salles culpou políticas adotadas em governos anteriores. "Presidente, o senhor tem repetido, e com razão, que, além do calor evidente, mais seco, temperaturas altas no Pantanal, tem uma série de políticas que foram adotadas lá atrás e que estão equivocadas."

"O pessoal vai lá fora reclamar porque fechamos um monte de torneiras das boquinhas aqui dentro, um monte de entidades, um monte de organizações, um monte de acadêmicos que faziam estudos e não acabavam nunca, mas ficavam tomando dinheiro do governo", disse o ministro, em relação às críticas sofridas pelo governo no Brasil e no exterior. "O pessoal vai lá fora e fala 'olha, todas as queimadas são incêndios criminosos'. Não é verdade Tem uma parte que é criminoso e está sendo investigado pela polícia."

Bolsonaro repetiu a afirmação de que o Brasil seria "o país que mais preserva" florestas tropicais, sem explicar, contudo, que fomos também o país com a maior perda desse tipo de cobertura vegetal em 2019.

"Temos commodities, o que produzimos no campo. Tem países —não quero citar nomes para não ter polêmica, mas o pessoal deve saber qual país europeu está interessado nisso— que nos acusam de ser terroristas ambientais", continuou o presidente.

Manifesto critica presidente

Um manifesto assinado por 48 entidades de várias áreas lançado hoje faz duras críticas ao discurso do presidente Jair Bolsonaro abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na terça-feira, em que acusou índios e caboclos de serem os responsáveis pelos incêndios na Amazônia e Pantanal.

Uma nota técnica divulgada em agosto pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), órgão que estuda a região há 25 anos, mostra que a concentração de focos de incêndio na Amazônia não acontece em áreas já desmatadas da região.

Segundo o levantamento, que foi realizado a partir de dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 30% do fogo registrado na Amazônia em 2019 foi incêndio florestal, ou seja, em área protegida. Outros 34% estão relacionados a desmatamentos recentes.

Além da Amazônia, o Pantanal também sofre com incêndios: a região ultrapassou a marca de 16 mil focos de incêndio somente em 2020, o maior número de queimadas desde 1998, quando o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) começou a registrar os dados.

Comparado com os 12 meses de 2005 (12.536), o pior ano da série histórica até então, o número de focos acumulados em 2020 já é 28,6% maior. Em relação ao ano passado inteiro (10.025), a situação é ainda mais grave: houve aumento de 60,8% — tudo isso em menos de nove meses.

*Com Estadão Conteúdo

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