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Meio Ambiente

Meia tonelada de peixes aparece morta em 3 km de praia em Alagoas

Meia tonelada de peixe é encontrada morta em praias em Alagoas - Divulgação/Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais
Meia tonelada de peixe é encontrada morta em praias em Alagoas Imagem: Divulgação/Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Recife

25/09/2020 21h11

Pelo menos meia tonelada de peixe de cinco espécies diferentes apareceu morta, espalhada em três quilômetros de praia, na Ilha da Crôa, no município de Barra de Santo Antônio (AL), litoral norte do estado, entre ontem e hoje. Pesquisadores a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) afirmam que a mortandade tem característica tóxica e estudam qual material foi derramado nos rios da região que matou os peixes.

A mortandade de peixes ocorreu em um trecho da APA (Área de Proteção Ambiental) Costa dos Corais, considerada a maior unidade de conservação federal da marinha costeira do Brasil.

Desde ontem, peixes mortos começaram a aparecer no rio Santo Antônio, mas, hoje, milhares apareceram na foz em uma faixa de areia de cerca de 3 km na praia da Ilha da Crôa. Segundo pescadores, os peixes mortos correspondem a meia tonelada. 80% dos peixes mortos são da espécie manjuba ou aranque e os demais são pilombeta, bagre, xerete, carabepa e ainda arraias.

Amostras da água e dos peixes mortos foram recolhidas por pesquisadores da Peld (Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais) da UFAL, que monitora a situação de dez áreas no litoral alagoano. O laudo das amostras deverá ser concluído em até 15 dias.

Denúncia ao MPF

A Rede de Mulheres Pescadoras da Costa dos Corais denunciou o caso hoje ao MPF (Ministério Público Federal) por considerar que a morte dos peixes ocorreu em decorrência de crime ambiental.

"Queremos, de fato, que as análises da água e dos peixes mortos sejam apresentadas à comunidade pesqueira, e também que os órgãos fiscalizadores descubram os culpados e haja a devida punição. Não podemos viver esse problema todo ano. Denunciamos esse crime ambiental ao Ministério Público Federal", ressaltou a pescadora Ana Paula de Oliveira Santos, 48, coordenadora da Rede de Mulheres Pescadoras da Costa dos Corais.

Peixes mortos são encontrados em praias em Alagoas; denúncia foi feita ao MPF - Divulgação/Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais - Divulgação/Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais
Peixes mortos são encontrados em praias em Alagoas; denúncia foi feita ao MPF
Imagem: Divulgação/Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Costa dos Corais

A pescadora afirma que esta não é a primeira vez que ocorre grande mortandade de peixes na região e os pescadores suspeitam que algum material tóxico foi despejado no rio. Ela acredita que, ainda amanhã, peixes mortos poderão aparecer na praia porque parte pode ter ficado no fundo do rio.

"Em 2018 ocorreu uma grande mortandade de peixes. Foram três dias aparecendo peixe morto e disseram que a causa foi dejetos de esgotos com a chuva, mas agora não teve chuva. Desde o ano passado sofremos porque teve o problema do derramamento de óleo que atingiu nossas praias, ficamos sem poder vender peixes. Depois veio a pandemia, onde não pudemos sair e também não tinha quem comprasse o peixe, agora ocorre esse desastre ambiental", destaca a pescadora.

As comunidades da Ilha Crôa, Carana e Carreiras, que ficam na beira do rio Santo Antônio, estão prejudicadas com a mortandade dos peixes. Cerca de 300 famílias dependem, direta ou indiretamente, da pesca artesanal na Ilha da Crôa, segundo a Rede de Mulheres Pescadoras da Costa dos Corais.

As famílias pescam peixes para consumo próprio e a sobra é salgada e vendida em feiras. Devido ao problema, segundo a pescadora, as famílias estão em situação financeira vulnerável, porque estão sem poder pescar para não comerem peixe contaminado. "Também não somos irresponsáveis em pescar peixe podre para vender e prejudicar a saúde das pessoas. Não há comprador para o produto", explica.

Causas da mortandade

O engenheiro de pesca e biomédico Emerson Soares, PhD em Ciências Aquáticas, acredita que a mortandade de peixes está ligada a um conjunto de fatores: a poluição do rio com despejo de esgoto, agrotóxicos e fertilizantes, uma vez que não há esgotamento sanitário em sua totalidade no município e há plantações próximas ao rio.

"Com base na experiência que temos, relacionamos o evento com fatores contaminantes mais a somatória de esgotos, uso de agrotóxicos e fertilizantes. A espécie mais atingida foi a manjuba por ser a mais frágil. Colhemos amostras dos peixes e da água para determinar com precisão o que ocorreu para essa quantidade de peixes mortos de uma só vez", explicou Soares, que é professor da UFAL e coordena um projeto de monitoramento ambiental na região.

"Desde o derramamento de óleo que monitoramos a situação de dez áreas no litoral alagoano e, ontem, fomos avisados por pescadores sobre a situação", completa.

Soares alerta que moradores da região não consumam peixes mortos e evitem pescar neste período até que seja determinada a causa da mortandade. "Esses peixes fazem parte do cardápio dessa comunidade, por isso, pedimos que seja evitado o consumo enquanto não descobrimos o que aconteceu, pois o consumo pode acarretar em problemas de saúde", ressalta Soares.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informava o texto, a Peld monitora dez áreas no litoral alagoano, e não dez rios. A informação foi corrigida.

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