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Petróleo, algas? Como água de enorme lago na Venezuela ficou verde

O lago Maracaibo com sua cor esverdeada - Divulgação/NASA
O lago Maracaibo com sua cor esverdeada Imagem: Divulgação/NASA

Do UOL, em São Paulo

15/10/2021 15h23Atualizada em 15/10/2021 15h42

Considerado como um dos maiores lagos da América do Sul, o Maracaibo, na Venezuela, está passando por grandes transformações. Embora tenha sido preenchido por muitos anos com água doce, hoje o lago é uma espécie de estuário, ou seja, um trecho de transição aquático entre rio e mar. E o que chama atenção é sua atual coloração verde, em parte surgida por conta de vazamentos de petróleo, já que a região é um dos polos desta indústria no país.

A cor verde no lago é causada pelas algas que se alimentam dos nutrientes presentes nas águas do lago, conforme explicou à BBC a bióloga Yurasi Briceño. O grande problema é principalmente para os pescadores da região que vivem "uma tragédia", segundo ela.

As algas são constituídas por uma cianobactéria, tipo de bactéria capaz de fazer fotossíntese e que cresce com o consumo de nutrientes como nitrogênio e fósforo. Esses nutrientes vêm de descargas domésticas e industriais poluentes de cidades costeiras e instalações próximas que fazem com que o nitrogênio se acumule e essas algas se multipliquem na superfície do lago.

O Lago de Maracaibo é símbolo da indústria petrolífera do estado venezuelano e um polo de produção de petróleo. "São mais de 10 mil instalações de petróleo e uma rede de dutos que se estende por milhares de quilômetros sob a superfície do lago", afirmou Eduardo Klein, cientista do Centro de Biodiversidade Marinha da Universidade Simón Bolívar, na Venezuela, à BBC.

As instalações são antigas, algumas com mais de 50 anos e pouca manutenção, causando vazamentos constantes.

"E não são apenas as imagens que a Nasa mostra", diz Klein. "Sempre que vemos uma imagem do Lago de Maracaibo, podemos encontrar derramamentos de óleo em diferentes locais, seja no lago ou no litoral, principalmente no leste". O Ministério do Poder Popular pelo Ecossocialismo e o Ministério do Poder Popular pelo Petróleo não responderam à reportagem da BBC sobre os vazamentos.

petróleo - Divulgação/Nasa - Divulgação/Nasa
Lago venezuelano é atingido por vazamentos de petróleo
Imagem: Divulgação/Nasa

Registros fotográficos apontam evolução da poluição

Com pouca informação do governo, as imagens de satélites divulgadas pela Nasa, a agência espacial norte-americana, trouxeram a alarmante situação à tona. Entretanto, as primeiras imagens surgiram pelo satélite no dia 26 de junho de 2004, quando uma lentilha d'água (Lemma) se proliferava rapidamente.

De acordo com publicação da época da Nasa, cientistas do Instituto de Conservação do Lago de Maracaibo (ICLAM), um dos órgãos governamentais encarregados de cuidar do Lago de Maracaibo, afirmavam que provavelmente as algas eram nativas do lago, mas poucos estudos foram realizados no passado para confirmar. Outros cientistas, no entanto, discordavam.

"Esse tipo de Lemna é da Flórida e do Texas. Acreditamos que foi transportado por um navio", afirmou a Dra. Nola Fernandez Acosta, pesquisadora do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade de Zulia em Maracaibo, Venezuela à publicação.

Na época, o governo venezuelano declarou estado de emergência para remover as algas gastando cerca de US$ 2 milhões por mês nos esforços de limpeza (equivalente a mais de R$ 10 milhões).

No entanto, a proliferação foi mais rápida. Naquele ano, chuvas extremas misturaram as águas do Lago Maracaibo com o excesso de nutrientes do fundo do lago, das terras agrícolas e das substâncias dos sistemas de esgoto próximos, desencadeando um grande florescimento que durou oito meses.

Segundo o site de notícias venezuelano Efecto Cocuyo, em 2017, o cosmonauta Sergey Ryasinzkiy, da Agência Espacial Russa (Roscosmos), conseguiu capturar uma foto da bacia do lago Zulia da Estação Espacial Internacional. O intuito era acompanhar uma reportagem sobre o relâmpago de Catatumbo, fenômeno venezuelano. A imagem, por sua vez, chamou atenção pela cor ainda mais verde da água.

Na ocasião, grupos de ambientalistas apontaram que entre 2010 e 2016 ocorreram cerca de 40 mil a 50 mil vazamentos e derramamentos de óleo na Venezuela. Além disso, uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo está localizada sob o Lago Maracaibo, fazendo com que cerca de dois terços do petróleo produzido pelo país tenha origem nessa região, segundo a Revista del Aficionado a la Meteorología (RAM).

Neste ano, três imagens de satélite retomaram a atenção para a questão do lago. A primeira, tirada em 2 de setembro de 2021 pelo MultiSpectral Imager, a bordo do Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia (ESA), mostrou uma proliferação de algas no extremo sul, demonstrando a contaminação.

Uma segunda imagem foi capturada em 10 de setembro pelo Operational Land Imager (OLI) no Landsat 8, cujo relatório apontava que o combustível "está colocando em perigo a vida selvagem, a qualidade da água e a saúde humana". E enfim, a mais recente, da Nasa.

Ainda há registros de lentilhas-d'água em algumas lagoas menores. Entretanto, muito do verde agora vem de abundantes de algas que consomem a grande quantidade de nutrientes disponíveis no lago.

As algas formam uma camada que "bloqueia a luz do sol e impede que a vegetação do leito do lago cresça naturalmente", explica Briceño.

Elas também impedem que outras plantas façam fotossíntese, limitando assim o oxigênio e reduzindo a população de peixes e de outras espécies.

Quando há uma explosão dessas algas, elas passam a consumir o oxigênio dissolvido que está na água e a zona anóxia (ausência quase total de oxigênio) retorna. Não existe mais a mesma disponibilidade de oxigênio para os organismos que precisam dele. Aí começamos a observar uma mortandade de peixes

As imagens da Nasa mostram redemoinhos de cor verde, marrom e cinza que obedecem às próprias correntes naturais e que, segundo especialistas, dispersam os poluentes por toda a extensão do lago.

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