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Tempestades de areia recorrentes acendem alerta para extremos climáticos

Nuvem de poeira em Franca, no interior de São Paulo - Reprodução/Twitter
Nuvem de poeira em Franca, no interior de São Paulo Imagem: Reprodução/Twitter

Colaboração para o UOL, em Santos

05/10/2021 12h16

As tempestades de terra e poeira que atingiram os estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Maranhão nos últimos dias acenderam um alerta sobre a necessidade de ações para conter os eventos climáticos extremos. Cientistas acreditam que a mudança exige não apenas ações locais, mas alterações nas formas de cultivo na agricultura e o combate ao desmatamento na Amazônia.

O relatório anual do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já havia demonstrado que episódios como esses se tornaram cada vez mais frequentes e evidentes. Casos recentes, como os que ocorreram na região de Franca e Ribeirão Preto, chamaram a atenção pela proporção, força e frequência.

Ouvido pelo jornal O Estado de São Paulo, Marcelo Pereira, professor do Departamento de Biologia da USP de Ribeirão Preto, explicou que os registros do fenômeno estão relacionados tanto a fatores locais quanto aos de âmbito mais amplo. Sendo a devastação recorde da Amazônia um dos principais.

O processo de evapotranspiração da floresta, ou seja, a umidade liberada no ambiente pelas árvores, regula o regime de chuvas de outras partes do País, como a região Sudeste.

"A umidade é transportada pelos ventos em direção ao Oceano Pacífico, mas, como tem a Cordilheira dos Andes no meio do caminho, acaba sendo rebatida para o Sul e o Sudeste. E são essas massas de ar que regulam as nossas chuvas. Deixar a Amazônia ter problemas de desmatamento é assinar atestado de óbito para nós", comentou.

Quanto às questões locais, o professor cita as queimadas que liberam fuligem e destroem a vegetação. As partículas entraram em suspensão com a força dos ventos, espalhando componentes prejudiciais à saúde. As tempestades de areia registradas no Brasil são o resultado dessa situação aliada ao calor extremo, ao clima seco e aos fortes ventos.

"A massa de ar frio e úmido se encontra com a de ar quente e seco. O ar úmido é mais denso e tende a ir para baixo, enquanto o ar seco tende a ir para cima. Quando isso acontece, há a movimentação das massas, as frentes de rajada [de vento]. Quanto maior a diferença de temperatura entre as duas massas, mais fortes são essas rajadas", explica Pereira.

Mercedes Bustamante, professora do Departamento de Ecologia da UnB (Universidade de Brasília) acredita que o impacto das rajadas de vento afeta ainda mais o solo já castigado pela seca, pois remove as camadas mais superficiais, onde o solo é rico em nutrientes e microrganismos.

Agricultura deve mudar

A professora diz que é preciso investir no desenvolvimento de novas formas de cobertura vegetal, que estejam prontas para ocorrências de rajadas fortes. Além disso, se torna essencial a recuperação de áreas degradadas, para diminuir a força do vento e contribuir para o restauro da biodiversidade local. "A conservação produz a proteção do solo. E não tem agricultura se não tiver conservação."

Neste aspecto, Mercedes destaca que a monocultura praticada no Brasil, inclusive em parte das regiões atingidas, como o plantio de cana-de-açúcar, soja ou milho, não é mais viável em um contexto de mudanças climáticas.

"As condições estão mudando", comenta ela. "Essa agricultura do mar de cana, do mar de soja, do mar de milho, tem que ficar no passado, não corresponde às questões ambientais".

Segundo estimativa da ONU, de 2019, a cada 5 segundos, o mundo perde uma quantidade de solo equivalente a um campo de futebol e que, neste ritmo, mais de 90% de todos os solos do planeta podem ser degradados até 2050.

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