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Defender a truculência policial é ser contra a polícia

Madeleine Lacsko

Colunista do UOL

30/05/2022 21h23

Se já era ruim a primeira nota sobre a morte de Genivaldo de Jesus Santos em que a PRF (Polícia Rodoviária Federal) classificou o episódio como uma fatalidade desvinculada da ação policial, a declaração feita hoje (30) pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) foi ainda pior. Bolsonaro afirmou que lamenta o ocorrido e que a Justiça deve ser feita, mas sem exageros ou pressão por parte da mídia.

Dois dias depois da primeira nota, a Polícia Rodoviária Federal mudou o discurso e, através de sua coordenação de comunicação, disse que não compactua com as medidas adotadas por seus policiais. O presidente ainda não.

De que forma aprovar uma situação de quebra de hierarquia e disciplina é estar a favor de uma força policial? Talvez Bolsonaro não saiba, mas isso é estar justamente a favor do contrário: da demolição da força policial. Sem hierarquia e disciplina não existe uma força de segurança. Passar pano para uma atitude como essa é acabar com a força de segurança, criando uma situação em que é impossível manter o comando.

Episódios como esse são uma demonstração de uma insurgência dentro de uma corporação, onde cada um está autorizado a fazer justiça com as próprias mãos, onde o comandante não sabe se um tiro que está sendo dado está dentro da regra que ele mandou. É muito grave quando o presidente da República não tem essa noção. Para os comandantes, fica difícil quando não se consegue manter a tropa disciplinada, e é muita gente a ser comandada, muita gente com problemas, com personalidades diferentes, ganhando pouco, com uma arma na mão, em um país polarizado.

Minimizar o que aconteceu não é ser a favor da polícia. Todos os policiais têm um treinamento para formas não letais de contenção. Por que não foi usado? De que forma defender esse tipo de abordagem é estar a favor da polícia? É preciso desfazer esse tipo de falácia. Ser a favor de violência como essa não é ser a favor da polícia. É ser contra. É ser contra o funcionamento dela. Sempre haverá muita raiva e protestos contra a polícia, enquanto passarem a mão na cabeça para esse tipo de comportamento. Não é uma forma de se relacionar com outro ser humano. Nem sendo polícia. Nem sendo ladrão.

Ao lado do Felipe Moura Brasil, debato os principais assuntos do país diariamente na Live UOL, das 17h às 18h, transmitida ao vivo nos perfis do UOL no YouTube, no Facebook e no Twitter. No programa de hoje, falamos não só da tragédia de Sergipe, mas também sobre a corrida eleitoral, o populismo de Lula e Bolsonaro, da discussão em torno da confiabilidade das urnas e dos gastos de prefeituras com shows de artistas sertanejos.